terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Tributo à alegria




Alegria
(Assis Valente e Durval Maia)

Alegria, pra cantar a batucada
As morenas vão sambar
Quem samba tem alegria
Minha gente
Era triste, amargurada
Inventou a batucada
Pra deixar de padecer
Salve o prazer, salve o prazer

Da tristeza não quero saber
A tristeza me faz padecer
Vou deixar a cruel nostalgia
Vou fazer a batucada
De noite e de dia, vou cantar

Esperando a felicidade
Para ver se eu vou melhorar
Vou cantando, fingindo alegria
Para a humanidade
Não me ver chorar

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Adios, amigo!

Nem tudo são boas notícias, como o fim da saga da prova de espanhol. Saio saltitante, feliz da vida, querendo ouvir os meus afro-sambas e ... pois é, alguém havia feito a limpa. Estou orfã dos meus CDs, meus queridos tesouros. Espero que o meliante goste bastante de Chico, porque agora ele tem 05 discos, das fases mais variadas, do meu compositor/poeta preferido. Ah, sim, que se regale com os sambas de Noel, Cartola e os cantados por Clara. Não, eu não vou chorar. Mas achei um desaforo não ter levado duas edições da revista Língua Portuguesa, que lá ficaram, intactas. Poxa, que falta de consideração com a nossa flor do Lácio! E, o pior de tudo: o biltre levou o Sapôncio, meu sapo de pelúcia de tênis tipo kichute. Que diabos ele quer com meu sapo, me pergunto! Será que ele tava saindo, todo pimpão com meus CDs debaixo do braço e, num ar(roubo) infantil, arrebanhou meu amigo? Apesar do pesar de ficar sem meu companheiro, até simpatizei com essa atitude. Afinal, hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás ...
Adeus, Pôncio! Você vai fazer falta!

Se fue

Uhuuuuuuuuuuu! A maldita prova oral de espanhol, que aporrinhava minha vida já se foi, está num passado distante ... Ahora, sólo quiero decir a la profesora unas cositas:
*
¡Compra un bosque y piérdete!
¡No me cago en nada, tampoco en Dios, en la hostia, en la puta madre, pero me cago en sus clases pesadas!
¡Estoy hasta los cojones!
¡Coño!

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Fenecer

"Até mais, querida". Isso ainda ressoa no meu ouvido, só que agora não mais como cantiga doce. Também não penso que foi escárnio. Acho que foi só um jeito suave de se despedir de alguém que você não sabia se veria de novo. E eu interpretei ao pé da letra. O "até mais" como um "até uma próxima vez". Uma próxima vez que iria acontecer. O mais, especialmente, como algo bom que se repete. "Querida" preferi não interpretar. Apenas senti como das outras vezes que você me chamou assim. Nunca achei que fosse à toa, uma banalidade pretensamente carinhosa. Antes de dizer, tinha sempre um sorriso teu, cheio de contornos indecifráveis. Depois do sorriso bonito e sonoro, uma pausa, tua mão no meu rosto, um beijo nos cabelos ... Era sempre nesse contexto. E sempre nos ensinam a interpretar as coisas dentro do contexto.


Naquela manhã, depois de ouvir o "até mais, querida", saí no oposto da tua direção, me sentindo mais próxima. O calor era tão forte, que tive que me despir de prudência, sentindo a alma cada vez mais nua. Egoisticamente, saboreava cada resquício teu em mim. Quis me abandonar nesse sonho, sem olhar para os lados. Aumentei o som e João cantava Amor à primeira vista, amor de primeira mão ... É ele que chega cantando, sorrindo ... Pedindo entrada no coração. Eu estava disposta a acreditar em todos os presságios que rodeavam a tua inesperada reaparição. Acho que passei o dia nesse torpor, cultivando a lembrança da tua voz e de tanta coisa que eu não podia entender, e que me vinha em bloco. Fui te recompondo, recriando, e aí, já era tarde.


Eu não pensei que o "até mais" fosse um adeus. Entendi tudo errado. Porque mesmo dizendo que não esperava nada, eu queria muito. Talvez nem você soubesse. Eu acho mesmo que não. Agora, tanto faz. Estou lidando com isso da melhor forma que posso. O tempo, sempre ele, tem feito a sua parte: te leva pra mais longe do que você se dispôs a ir. Tenho olhado para o que sobrou da recordação do teu sorriso com a resignação com que olhava para as minhas bolhas de sabão.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Como se livrar de um mala no samba

Resolvi escrever sobre a minha suposta falta de educação com pessoas sem noção. Não, eu não sou blasé. Na verdade, eu sou muito da simpática. Mas, de fato, a minha simpatia tem limites, às vezes, estreitos. E, definitivamente, eu não vou pro samba pra bater papo. O batuque comendo solto, a voz potente da Graça retumbando, a cerveja esquentando no copo, e o santo encosta pra saber o que eu faço da vida?! Amigo, muchas cosas!!! Anota aí seu email, que depois te mando em ordem alfabética e de preferência. Quer conversar? E gritando no meu ouvido (porque sem barulho eu já sou surda, com batuque nem se fala)?! Lo siento! Já tentou a Hebe? Fica aí minha sugestão. Ah, tá, você quer dançar? Bora, que pra isso eu até encosto o copo. Mas você não sabe? E quer que eu te ensine? Eu não sei nem pra mim, filho!!! E pra pagar mico, deixa que eu pago sozinha. Sai mais barato! Aliás, mando no email o endereço do Jaime Arôxa também. Intervalo, afinal o samba merece descanso. Agora, sim, além de sorrisos, posso distribuir palavras ao vento. Mas, veja bem, não capriche na babaquice, que eu capricho na paciência. Tolero quase todos os chavecos, sem demonstrar o que, de fato, me despertam. Fezita está de prova. Limites, limites. Não, querido, se eu quisesse "beijar na boca" eu teria ido pruma micareta! Eu vim ouvir Paulinho, Noel, Cartola. Já ouviu falar? Pois é, então ... Você estuda na FAAP? Ôpa, que bom pra você! Acredita no poder da mente? Eu tô mentalizando uma forma de você desaparecer da minha frente. E não é que o banheiro está berrando o meu nome?! Fui!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Bom tempo


Essa imagem tá lá no UOL. Apesar do mau tempo, achei incrivelmente bonita. Aquele casal pequenininho, diante da imensidão do mar, abraçado e protegido por um guarda-chuva. Isso, talvez, prove que, quando a gente ama mesmo, não tem tempo ruim.


Eu teria olhado o mar contigo, debaixo da chuva ...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Momento escuro

Há doenças piores que as doenças

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

(Fernando Pessoa)

Ainda tô ressentida do que não foi, nem pôde ser. E tenho que aceitar que isso é tudo. Tenho que aceitar que a minha vontade foi só minha. Tenho que aceitar que a vida é assim mesmo. Tenho que aceitar essa coisa que, sem existir, existiu demoradamente só pra mim. E que, demoradamente, aqui está. Tenho que aceitar que as sensações que senti, tão íntimas, já são nada. E se isso é nada, o amor é nada. E se o amor é nada, a vida é nada. Então, dá-me vinho. E que a embriaguez me salve!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Viva o Samba!

Ontem foi o Dia Nacional do Samba. Isso não é pouca coisa, afinal trata-se da nossa maior expressão de cultura popular. Para "entrar no clima" seria inútil tentar escolher o melhor samba, ou o mais bonito. Então, vou de samba paulista, com um dos seus principais representantes:

Eu vou mostrar
Eu vou mostrar
Que o povo paulista
Também sabe sambar

Eu sou paulista
Gosto de samba
Na Barra Funda, também tem gente bamba
Somos paulistas e sambamos pra cachoro
Pra ser sambista não precisa ser do morro

(Geraldo Filme - Eu vou mostrar)

sábado, 1 de dezembro de 2007

Samba à paulista

Foi só uma pausa prum café. Coisa de paulistana que corre o dia todo de um lado pro outro e sente a cidade pulsar na sola dos pés. Às vezes, o estômago reclama e a cabeça faz sua parte: aviso mandado! Hora de parar, mas não totalmente. Um livro, um caderno, qualquer leitura que possa ser cumprida naqueles cinco minutos. Olhos distraídos, mas ouvidos atentos. Faz frio. O cheiro do café, antes mesmo do sabor e do calor, reconforta. Alguém entra e pede um dinheiro pro moço sentado ao lado. O moço não desconversa e negocia, ao invés da ajuda em espécie, alguma coisa pra acomodar a fome daquele homem de pés descalços. Negócio fechado. O moço não vira de lado com a impressão de dever cumprido. Parece ver através daquela figura revestida de penúria uma pessoa que, como ele mesmo, sente fome, frio, medo e, talvez, até sonhe. O moço ao meu lado não estava mesmo disposto a ignorar quem quer que fosse. Dirigiu seu sorriso à garçonete, que ficou visivelmente atrapalhada. Ali, para interagir com os clientes, precisava de pouco mais que dizer "sim" e "não". Mais uma trabalhadora anônima na multidão da urbe imensa. Não era o que o moço pensava. E foi assim que saí da minha dispersão. Alguém, bem ali ao meu lado, tinha o dom de enxergar as pessoas. Não se comportava como um paulistano típico. Mas era. E isso ficou claro quando, depois de puxar assunto comigo, entre uma trivialidade e outra, me falou de Vanzolini. “Ué, esse moço conhece o samba de Sampa?! Me fala mais disso aí, seu moço! Sim, eu também sou do samba! Ignore a palidez do meu rosto porque eu vibro mesmo é num batuque”. Por alguns minutos esquecemos que tínhamos feito só um breve intervalo nas nossas vidas de paulistanos inquietos. No cenário da nossa maior avenida, as britadeiras arrebentando o calçamento, os carros guiados por rostos cansados, nos sentimos em uma praça de cidadezinha do interior. Andamos, compramos jornal, paramos na ilha. Não tinha um banco. O concreto sendo dilacerado. Estranhados e felizes nos demos conta de que ainda éramos capazes de ver a cidade acinzentada com todas as suas cores. Éramos capazes de trocar dois dedos de prosa com um “desconhecido”. Éramos capazes de nos sentir não engolidos, mas acarinhados pela metrópole. O moço ao meu lado no café, se chama Danilo. Além de cidadão de verdade, faz versos bonitos. E está me devendo um samba!
*
De camisa listrada na avenida paulista
Encontrei Luciana - disfarçada sambista
Como boa paulistana ela tomava um café
E quando citei Vanzolini, ela parou:

Opa! Você também tem samba no pé!

Olhos e sorrisos cintilavam em sua alma
Motores poluídos ensurdeciam a cidade
Mas ela não perdia a calma.

O samba na rua, então floreou
São Paulo de filmes e Filme ela se lembrou
Da Barra Funda serena até a Vila Madalena
E chegar em Santo Amaro para o acender da Vela

Vamos formar a melodia desta metrópole aquarela

(Danilo)


quinta-feira, 29 de novembro de 2007

ADOCICA!

A vida tá difícil?
ADOCICA!
Seu chefe não pára de te cobrar coisas imbecis?
ADOCICA!
A grana não deu pra cobrir todas as contas?
ADOCICA!
Sua vida amorosa tá mais desanimada que final de baile de formatura?
ADOCICA!
O Corinthians tá quase lá (no rebaixamento)?
Aí, só adocicando mesmo!!!

Esse é o lema da minha amiga Vanessa que, a cada tumulto, pessoa pentelha e lambada da vida, dá uma dançadinha/requebradinha e relembra esse clássico do grande Beto Barbosa:

adocica, meu amor, adocica
adocica, meu amor, a minha vida, oi ...
tá que tá ficando
ficando muito legal
nosso amor é veneno
veneno do bem e do mal ...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Diálogo com a Vida

A vida chegou e disse:
- O que é que você quer?
- Mas eu preciso decidir agora? Me dá meia hora pra pensar?!
- Acelera aí, eu não tenho a vida inteira; quer dizer, você não tem.
- Mas de que me adianta uma vida pela metade?
- Isso é com você. Já te disseram que eu não era fácil. Você devia saber disso.
- Puxa, mas com que pressa você passa! Tô me sentindo atordoada.
- Pois é, vocês adoram atribuir tudo o que dá errado a minha pessoa. Vivem vociferando: "é a vida, é a vida!". Mas, quando é com vocês, querem tirar o corpo fora. Eu não vou carregar tudo sozinha, não!
- Olha, a senhora me desculpe. Geralmente, é só um modo de falar. A gente não consegue explicar tanta coisa e ...
- E aí passam a batata quente pra mim. Mas não vamos mudar de assunto, não. Você já decidiu?
- O quê?
- Como o quê?! O que é que você quer da vida. O que você quer de mim?
- Sabe, Dona Vida, eu tô confusa. Eu quero tanta coisa! Eu tenho direito a quantos pedidos?
- Você deve estar me confundindo com gênios de fábulas. Comigo não há limitação de desejos.
- Não?!
- Claro que não! Aliás, muito me surpreende a sua ignorância. Esses dias ouvi você dizer que se sentia tão preparada para mim ...
- De certa forma, sim. Mas não sei. A senhora está me pressionando, me deixando atrapalhada.
- Preste atenção: você não tem direito só a três pedidos. Podem ser 30, 300, 3000, três milhões. Mas não fique esperando por mim.
- Como, não? Se foi a senhora quem me perguntou?! Por favor, não desista de mim! E eu já tenho a resposta.
- Ótimo, mas eu não quero saber. Eu só precisava te dar esse cutucão. Você nunca ouviu dizer que, às vezes, a vida te cobra?! Agora, não vamos inverter os papéis. Eu sou reponsabilidade sua, e não você minha. Eu não posso te dar o que você quer. Eu só posso fazer com que você se sinta viva.
- E o que eu faço com a minha resposta?
- Como você já deve ter aprendido comigo, ela não tem prazo de validade garantido. Isso que você quer agora pode valer só uns poucos minutos.
- Sim, mas você vai me deixar na mão? Vou ficar sozinha nessa? Eu não sei o que eu faço de você!
- Você não está sozinha. Você tem a mim. Faça o que bem entender: ame, chore, ria, desespere-se, lute, volte a sorrir, cante, encante, salte de pára-quedas, ajude a quem você puder, dance, grite, aperte, assopre, aprenda coisas essenciais ou inúteis, doe-se, receba, compreenda, apaixone-se, rebele-se, aceite, respire, respeite, se vire. VIVA! Só não se esqueça de quem é quem nessa relação. O papel de timoneiro é seu. Não espere que eu te leve.
- Mais alguma recomendação?
- Mesmo nas piores crises, é melhor não se esconder de mim. Não adianta querer me anular, me amortecer. Nós somos uma só engrenagem.
- Eu te quero tanto!
- Eu sei disso.
- Obrigada!
- Vá la fora. Eu chamei o Sol pra te mimar.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Música para os trinta

Sou bem mulher de pegar macho pelo pé
Reencarnação da Princesa do Daomé
Eu sou marfim, lá das Minas do Salomão
Me esparramo em mim, lua cheia sobre o carvão
Um mulherão, balangandãs, cerâmica e sisal

Língua assim, a conta certa entre a baunilha e o sal
Fogão de lenha, garrafa de areia colorida
Pedra-sabão, peneira e água boa de moringa

Sou de arrancar couro
De farejar ouro
Princesa do Daomé

Sou coisa feita, se o malandro se aconchegar
Vai morrer na esteira, maré sonsa de Paquetá
Sou coisa benta, se provar do meu aluá
Bebe o pólo norte, bem tirado do samovar
Neguinho assim, ó, já escreveu atrás do caminhão
"A mulher que não se esquece é lá do Daomé"
Faço mandinga, fecho caminhos com as cinzas
Deixo biruta, lelé da cuca, zuretão, ranzinza

Pra não ficar bobo, melhor fugir logo
Sou de pegar pelo pé

Sou avatar vodu, sou de botar fogo
Princesa do Daomé

(João Bosco e Aldir Blanc - Coisa feita)

Reflexões aos trinta

Hoje eu faço trinta anos. Ótimo que as pessoas continuem se espantando quando eu respondo a idade, que não acreditem e peçam pra ver o RG. Juro que não me incomodo. E quem não tem suas vaidades que atire o primeiro frasco de RENEW! Mas não é só o meu RG que acusa esses trinta anos. Acusa, no bom sentido, claro. Eu me sinto, de fato, com essa idade bonita. É verdade que o corpo sente. A TPM fica terrível e os hormônios, agitadíssimos, parecem que se dão conta da responsabilidade dessas três décadas de vida. As dores de cabeça (de todos os tipos) também ficam mais freqüentes: um solzinho mais forte, uma noite mal dormida ou umas cervejas extras. Mas toda a diferença está mesmo numa coisa muito simples. Com dez, eu era só uma garota e, aos 20, não se pode dizer que se é algo além de jovem. Mas hoje, posso dizer, sem qualquer titubeio, que eu sou uma mulher! E isso é bom demais! Aos trinta, apesar de ainda ter um mundo inteiro de descobertas pela frente e o desassossego à flor da pele, eu me sinto muito mais “capacitada” pra esse negócio de viver. Apesar de muito mais realista, muito menos otimista, mais cética do que idealista, me sinto muito mais humana, não no sentido estrito, mas no grandão. Eu não me importo mais com o sofrimento alheio do que me importava há 10 anos atrás, mas agora me sinto muito mais apta a reconhecê-lo. Não associo mais o sofrimento diretamente às grandes catástrofes, como a seca nordestina, o narcotráfico e as guerras pelo mundo. Reconheço o sofrimento numa voz calada, num olhar distante ... sofrimento sem o motivo estampado na cara. Também me sinto muito mais livre de preconceitos, esses muitos que a gente acaba vestindo junto com as roupas que os pais nos colocam desde o berço. Entendo, muito satisfeita, que não se tem que aceitar diferenças. Porque essas diferenças que querem que a gente aceite simplesmente não existem. É verdade que a mulher de 30 tem lá suas ilusões perdidas. Tanta coisa que eu dizia que jamais faria ... E é bom quebrar a cara (não no sentido literal). É bom saber que se pode chutar o orgulho pra escanteio e insistir numa paixão que você quer mais do que tudo. Que as respostas de hoje podem não satisfazer às aflições de amanhã. Que sexo é bom com e sem amor. Que diante de uma perda irreversível, a tristeza se cristaliza, a saudade reside e a vida segue. Bom saber que incertezas vocacionais, às vezes, têm mais a ver com vontades múltiplas, do que com habilidades nulas. Enfim, perdem-se as ilusões e ficam as esperanças. E é esse movimento reflexivo a mola propulsora da vida.
A sensação que combina com essa idade é a de intensidade. Hoje, aceito as tristezas sem o ranço de quem se vitimiza, porque sei que elas fazem parte do processo. Em compensação, os risos são muito mais contundentes. Os sons, a música, os gostos ... tudo vem magnificado. Assim como o amor.
Pois é, hoje, uma mulher com 30 anos, posso dizer que eu sou "coisa feita", ou, numa definição ainda melhor, "a conta certa entre a baunilha e o sal".

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Saravá!



Lindo ver a cultura negra, afro e afro-brasileira nas ruas da cidade. Movimentos de dança que são a própria natureza em manifesto. Música que te tira do eixo, que quer te levar pra todos os lados. Ritmos que despertam o teu corpo. Literatura de lamento doce. Sem dúvida, Consciência Negra é muito mais do que essa cultura riquíssima no foco das atenções uma vez por ano. Até porque um dia é muito pouco e os espaços pequenos pra caber toda negritude brasileira que, com tantos anos de opressão, sequer pôde preservar sua identidade. Nenhuma escravidão durou mais do que a dos negros que vieram ao Brasil. Provavelmente, nenhuma escravidão doeu mais também. Na pele e no espírito. Desagregação tribal e familiar, repressão de suas expressões religiosas e litúrgicas, fora a violência física. Fora a abolição que não integrou o negro que só sabia servir. Integração que, passado mais de um século, não se concretizou. E é só por isso que é preciso entender as Cotas e o Dia da Consciência Negra como pílulas de placebo administradas pra fechar uma ferida sem proporções. O efeito da pílula é nulo. Mas foi preciso olhar pra ferida. E os negros brasileiros, cada vez mais, olham para as suas feridas e se reconhecem como a grande força cultural desse país. Olham pra si e dão um salve a Zumbi dos Palmares, um salve à sua Mãe África, um salve aos seus Orixás. Olham pra si e, através do resgate de suas raízes, sentem-se verdadeiramente livres, negros e brasileiros.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Un regalito

A los nueve empecé a tener ideas raras y un poco locas ...


sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Recordar é sofrer

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem
Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem

Capoeira me mandou
Dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou
Vai ter briga de amor
Tristeza camará...

(Berimbau - Vinícius e Baden)

Vamos nessa, cumpanheras!

Pois é, diletas amigas, com as quais já comentei a descoberta dessa maravilha, abaixo apresentada: vocês estão salvas e eu também!!!
Não sei quando começarei o tratamento, mas sugiro que nos reunamos para, todas juntas, depois de dançar ciranda, em momento catártico, possamos ingerir nossas pílulas redentoras. Nunca mais pensaremos coisas ESTRANHAS e/ou ASSUSTADORAS!!!

Seus pobremas se acabaram-se!!!

I) IDENTIFICAÇÃO DO MEDICAMENTO
SEROQUEL ®

fumarato de quetiapina

25 mg, 100 mg e 200 mg

FORMA FARMACÊUTICA, VIA DE ADMINISTRAÇÃO E APRESENTAÇÕES COMERCIALIZADAS

Comprimidos revestidos de 25 mg. Via oral. Embalagem com 14 comprimidos.
Comprimidos revestidos de 100 mg. Via oral. Embalagem com 28 comprimidos.
Comprimidos revestidos de 200 mg. Via oral. Embalagem com 28 comprimidos.

USO ADULTO

COMPOSIÇÃO
Cada comprimido contém: 25 mg 100 mg 200 mg
fumarato de quetiapina............. 28,78 mg ou 115,13 mg ou 230,26 mg
(equivale a quetiapina 25 mg ou 100 mg ou 200 mg, respectivamente)
Excipientes q.s.p. ....................................................................................... 1 comprimido
Excipientes: povidona, fosfato de cálcio dibásico, celulose microcristalina, lactose monoidratada, amidoglicolato de sódio, estearato de magnésio, hipromelose, macrogol, dióxido de titânio e óxido férrico*.

* Presente apenas no SEROQUEL 25 mg e 100 mg.

II) INFORMAÇÕES AO PACIENTE

1. COMO ESTE MEDICAMENTO FUNCIONA?
SEROQUEL pertence a um grupo de medicamentos chamado antipsicóticos, os quais melhoram os sintomas de alguns tipos de transtornos mentais como esquizofrenia e em transtornos que afetam o humor, ou seja, quando elas se sentem eufóricas ou excitadas ou quando se sentem tristes, deprimidas, culpadas, sem energia, apresentam perda do apetite e/ou do sono.

2. POR QUE ESTE MEDICAMENTO FOI INDICADO?
SEROQUEL
está indicado para:
- Tratamento da esquizofrenia, que costuma apresentar sintomas como alucinações (por exemplo, ouvir vozes que não estão presentes), ter pensamentos estranhos e assustadores, mudanças no comportamento, sensações de estar sozinho e confuso;
- Tratamento de pessoas com um transtorno que afeta o humor, ou seja, quando elas se sentem eufóricas ou excitadas. Pessoas nestas condições dormem menos que o usual, são mais falantes e têm pensamento e idéias rápidas. Elas também podem se sentir extremamente irritadas;

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Caminhando

Continuo mais pra melancolia possível de uma flauta doce do que pra euforia inescapável do pandeiro. De qualquer forma, o jeito é seguir. Ler tudo. Ler o tempo todo. Nossa, como ajuda! Ocupar essa cabeça que se recusa a brigar com todo o resto, mas preenchida ganha forças e se sente quase senhora de si. Ler é a melhor forma de compartilhar as aflições. Quanta gente procurou e continua procurando o mesmo remédio, na certeza mais lúcida de que se está diante do irremediável?! E falando em leituras, estou me apaixonando mesmo pelas letras portuguesas. Herberto Helder é a bola da vez. Não sei se ele é uma espécie de Chico Buarque português, ainda que não tenha nada a ver com música, mas vai entender de alma feminina assim lá na Ilha da Madeira! Depois do maravilhoso Receituário da dor para uso pós-moderno, do João Barrento, vou de Al Berto - o Lunário. Indicações preciosíssimas da professora de Literatura Portuguesa. Ok, estou mesmo carregando na literatura angustiada, mas podia ser pior. Suspendi Kafka e Dostoiévsky. Por enquanto.
*
" ... Estes homens esbulham-nos. Exploram a fonte maternal de que somos dotadas, ficam ali sugando o nosso leite, e deixam-nos completamente vazias. Raça de exploradores. Mergulham a cabeça entre os nossos seios brancos e somos obrigadas a acariciá-los em silêncio, enquanto de olhos cerrados, através de uma suntuosa orgia de recordações e contradições, compõem a sua paz interior, enquanto se recuperam, eles, deixando-nos exautas ... Cegueira maternal, furiosa força de doçura que me empurra para o homem, para a sua perpétua e louca orfandade ..."
(Duas pessoas, Os passos em volta - Herberto Helder)
*
" ... Nas platinelas do pandeiro coloquei surdina ..."
(Armando Fernandes, por Clara Nunes)

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sobrevivências

Ontem, tentando diminuir o que eu sentia, me encolhi toda, num movimento todo pra dentro, quase dando a volta em torno de mim. Mas aí eu percebi que, quanto mais eu me encolhia, mais doía. A tristeza enorme, no aperto, concentrando-se, lutando por mais espaço, querendo doer numa extensão total. E eu resistindo, comprimimdo, espremendo a angústia, cingindo com força. Queria sufocá-la, mas ela me venceu. E então, me abri inteira pra ela. Não posso tirar essa tristeza de dentro de mim. Ela faz parte do que eu sou. E eu sou alguém que, às vezes, quer desmoronar ... nem que seja num quarto escuro, sofrendo calada e sem saber direito por quê.
*
É possível ser feliz sem felicidade.
Sim, é até possível viver sem um rim!
É possível viver sem amor.
Sem amor?! Não, sem amor não se vive, se sobrevive.

(Trecho mal ajambrado da peça Caminhos)

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Bilhete

Na próxima manhã que eu me despedir, não vou esperar você despertar. Sorrateira, na ponta dos pés, me levanto sem te acordar, e deixo um bilhete na tua cabeceira. Vou tentar ser sucinta, até porque não há nenhuma novidade esperando patente. Apenas uma tradução de tudo isso que eu ando te dizendo sem palavras. Sabe esse sorriso que se abre quando eu te encontro? As aflições que se encerram nesse abraço inteiro, enorme, balsâmico que você me dá? A delícia incontrolável de ouvir você cantando, a avidez de conhecer a tua história? É tão difícil e tão perigoso te dizer tudo isso. Ao mesmo tempo tão necessário. Fico ansiosa por uma oportunidade, uma brecha qualquer pra me embrenhar nesse labirinto perdido que você carrega nos olhos. Mas aí, você chega e eu não consigo. Ou melhor, consigo, mas de outro jeito. Eu podia estancar tudo e falar, falar, falar ... Mas, ao invés disso, dou voz à minha pele. Quero todos os minutos, cada um deles, apenas pra experimentar o que me custa tanto argumentar. Prefiro apostar na comunicação das nossas mãos misturdas, dos nossos cheiros entrelaçados. Eles se entendem tão bem! Mas depois que você se vai, meu peito aperta e fica pedindo significação. Como? Se o que dissemos foi tão breve, e o nosso discurso só pode ser tomado na semi-escuridão em que acontece. Períodos curtos. Coordenação perfeita. Subordinação apenas entre os nossos desejos. E então, espero de novo ... Quem sabe mais um pequeno instante, meia hora pra que eu possa desvendar a semântica desajustada dessa cronicazinha que eu inventei pra nós dois. Mas, se eu falhar mais uma vez, deixo o bilhete. Recolho essas letras que tenho espalhado pelas entrelinhas do teu corpo e as prendo num papel em branco. Duas palavras. Sintaxe de primeiro grau. Um verbo transitivo e seu complemento: "Quero você."

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Credo!

TRRRRRRRRRRRRRRRRRRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
TRRRRRRRRRRRUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM
TRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRUUUUUUUUUUU
TRANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN

Tem um britadeira maldita que não pára nunca, bem aqui na janela ...
Será que eu me salvo desse pesadelo?
Ao menos o Tobi se salvou. Tobi é o cãozinho da família, cuja casa foi atingida pelo jatinho. Ok, ok, a família inteira se perdeu na fatalidade. Mas eu tô feliz pelo Tobi e queria abraçá-lo.
Será que vou me salvar dessa música chata maldita do Caetano?
Será que vou me salvar do Natal?
Vou me salvar desse cansaço incomum?
Da minha mãe me ligando pra que eu resolva mais coisas?
Vou me salvar dos questionamentos infinitos das pessoas?
Vou me salvar do Pedro Páramo e da Bernarda Alba, que eu não consigo ler?
Vou me salvar de mim mesma?
Quero me salvar desse dia.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Para minha amiga, que entende o verdadeiro espírito do Natal

Chu, intrigada com o seu desespero, cada vez que cruza um enfeite vermelho ou lampadinhas pisca-pisca pelas ruas da cidade, me dei conta de que ele, o inominável evento, está muito próximo. Ontem, o velhinho barbudo estava à minha espreita, pendurado na garagem do vizinho da frente. Socorro! Agora, quer saber da sacanagem maior? Talvez com a consciência corroída por aparecer todos os anos, apenas para presentear a prole da classe média alta bem nutrida, com médias entre 8 e 10 nos boletins emitidos pelo Santa Cruz, Bandeirantes e Porto Seguro, o gorducho FDP resolveu regalar as criancinhas negras e pobres (bem como seus pais e avós) com um vendaval. Isso mesmo, Chu! Você não ligou o nome à pessoa? O furacão que está devastando o Caribe e já fez um bom punhado de vítimas, especialmente no Haiti e na República Dominicana, países supimpas, que quase já não têm problemas, chama-se Noel. Claro! Só podia ser ele!!! Muita água e vento para alimentar as criancinhas miseráveis! E muito Play Station (10? 20? 1000?) nas prateleiras e perus congelados nas gôndolas do nosso cinismo civilizatório!
*
Ah, especialmente pra você, tirei do fundo do baú (baú emprestado, claro, que eu nunca curti punk-rock) essa maravilha dos Garotos Podres:
*
Papai Noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres
Papai Noel filho da puta
Rejeita os miseráveis
Eu quero matá-lo
Aquele porco capitalista
Presenteia os ricos
E cospe nos pobres

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Explicando

Por que é que a falta de esperança não dá as mãos pras minhas vontades? É fácil: leve-as pra passear num parque ensolarado, com cheiro de planta molhada pela chuva, e sussure no ouvido delas, com a ternura de uma mãe explicando ao filho a razão de uma negativa qualquer: "vocês não podem vingar, vão precisar partir, ficar longe um tempo, um tempo que eu espero que seja curto. Só o tempo suficiente pra que eu, Esperança, possa renascer de novo, revivificada pela minha congênita teimosia e por essa minha preferência extravagante pelo Amor".

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Acalanto

Corre calma, severina noite
De leve no lençol que te tateia a pele fina
Pedras sonhando pó na mina
Pedras sonhando com britadeiras
Cada ser tem sonhos à sua maneira
Cada ser tem sonhos à sua maneira

Corre alta, severina noite
No ronco da cidade, uma janela assim acesa
Eu respiro o teu desejo
Chama no pavio da lamparina
Sombra no lençol que te tateia a pele fina
Sombra no lençol que te tateia a pele fina

Ali, tão sempre perto, e não me vendo
Ali sinto tua alma a flutuar do corpo
Teus olhos se movendo, sem se abrir
Ali, tão certo e justo e só te sendo
Absinto-me de ti, mas sempre vivo
Meus olhos te movendo sem te abrir

Corre solta suassuna noite
Tocaia de animal que acompanha a sua presa
Escravo da sua beleza
Daqui a pouco o dia vai querer raiar
Daqui a pouco o dia vai querer raiar...

(Noite Severina - Lula Queiroga / Pedro Luís)

Minha alma agradece


"Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas de existências."


Mia Couto - escritor moçambicano, por quem me apaixonei à primeira lida. Foi impossível só gostar. Obrigada por trazer esse pedacinho de África Austral, cheio de mar, pra dentro da minha alma.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Vai, nuvem ...

Pela intensidade do Sol, pela homogeneidade desse céu azulzinho, eu já desconfiava que você tava passando. É da natureza das nuvens. Ficar em suspensão, ir se desmontando, desconfigurando-se na sua própria dispersão. Nuvem linda, com os olhos mais sonolentos que eu já vi! Olhos repletos da insônia de quem tá vagando, vagando, sem conseguir parar. Foi pouco, mas foi bom esse pedaço de tempo que você esteve circundando a minha superfície rasa. Acordar te procurando, mais do que preencher qualquer extensão indefinida de mim, esvaziava o meu vazio. Ufa! Eu sou mesmo uma criança boba, querendo brincar com nuvens. Mas eu não resisti. Eu não quis resistir. Igualzinho nos desenhos dos meus livros da terceira série, eu queria ser um anjo dourado deitado na nuvenzinha macia. E essa sensação de te querer era tão maior do que o medo de não poder. Mas, de repente, me dei conta de que não dava mais pra brincar disso. Aliás, me dei conta de que não conheço as regras dessa brincadeira. Fui traída pelo meu desejo seguro, pelo meu sonho desperto. Não fui traída por você, nuvem branca, que nunca me prometeu nada. Não prometeu me levar contigo nesses teus passeios infindáveis. Não prometeu me levar pra conhecer os teus caminhos secretos. Eu queria tanto! Mas você foi uma nuvem querida e sincera, e isso só aumenta o meu lamento. Não tive tempo de te decifrar, nuvem turva, que eu só consegui tocar com os lábios molhados e o corpo quente.
*
Hoje, uma nuvem escura veio visitar o meu peito. Tá fazendo chover aqui dentro, transbordando por onde pode. Mas logo, logo, passa. É da natureza das nuvens.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

ON / OFF

Algum botão ligou sozinho aqui dentro. Eu tinha programado pra não ficar triste. Tinha programado pra entender e aceitar. Tinha até programado um samba exaltação de trilha sonora. Selecionei data e hora e apertei CONFIRMA. Quando vi o sol de manhã, achei que eu tinha feito tudo certo. Tava tudo certo mesmo. Caramba, como eu sou esperta! Eu nem li o manual e fiz tudo isso! Ôpa ... que peso é esse? Essa vontade de chorar, de ser criança de novo e abraçar minha avó pela saia ... Alguma coisa fechou minha garganta. Esse monte de gente aqui em volta tão mal colocada ... Eu tão fora daqui, tão dentro de mim. Seca, lágrima! Daqui a pouco todo mundo vai querer saber que dança é essa que você desenvolve no meu rosto. E eu não tenho nada pra explicar. Eu fiz tudo certo, sem o manual, mas eu tinha certeza! Não é culpa minha. Tá tão pesado e eu sou tão tola, tão infantil, tão carente! Eu até escrevi tin tin por tin tin todos os passos: por que fazer, como fazer, resultados esperados. Quem desprogramou tudo? Quem se atreveu a mexer na minha organização virginiana? Não era nada disso. Eu apertei CONFIRMA. Eu sabia o que eu queria e dormi tranqüila, acordei em paz. E agora, o botão que eu não tinha tocado, piscando, rindo da minha cara. Ele ligou sozinho, tão autônomo, tão sarcástico. Tá rindo e me dizendo: "Cai na real! Não se programa um coração".

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A nuvem que eu quero

Ainda tô acreditando nessa nuvem. Ela vai e vem. Não encobre o Sol, nem traz a tempestade. Tá brincando de esconde-esconde. Quando ela aparece, eu deslizo no etéreo até agarrá-la. Ela se deixa pegar, fica um tempo nos meus braços, e logo sai correndo de novo, pra viver sua liberdade de quem pode ser leve como algodão. Ela quer rodar, varrer a imensidão. E eu quero que ela fique. Não, não quero que estacione sobre a minha cabeça. Quero apenas que deságüe sobre mim "esse céu sem fim".

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Valei!

Foi bom ouvir isso de novo ...

Se o Senhor me for louvado
Eu vou voltar pro meu serrado
Por ali ficou quem temperou
O meu amor e semeou em mim
Essa incrível saudade
Se é por vontade de Deus
Valei, valei

Se pedir a Deus pelo meu prazer
Não for pecado, vou rezar
Pra quando eu voltar a rever
Todas as brincadeiras do passado
Cortejar meu serrado
Em dia feriado
Viva o cordão azul e encarnado

Eu sei, serei feliz de novo
Meu povo, deixa eu chorar com você
Serei feliz de novo
Meu povo, deixa eu chorar com você
Serei feliz de novo
Meu povo, deixa eu chorar

(Serrado - Djavan)

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Por que eu estudo Letras

Ia começar dizendo que nunca fui boa em Matemática. Mas me lembrei que fui, sim. Era boa aluna, esforçada e não admitia tirar nota baixa. Nem em Física, vejam só! Mas os tempos de esforços escolares eram muito diferentes dos dias de hoje, e não consigo mais resolver uma simples equação de 1º grau, uma regra de três simples. Exemplificando:

Ele não ligou = ele não quer falar comigo/me ver
Eu liguei e ele não retornou = ele não quer falar comigo/me ver

Na lógica matemática, com qualquer uma das duas variantes, o resultado é igual a zero. Na lógica das minhas vontades, ainda estou batalhando uma resposta melhor:

Ele não ligou = x
Eu liguei e ele não retornou = y

Tô tentando achar mil hipóteses diferentes para x e y. Melhor nem citar, pois toda mulher conhece de cor e salteado quais são (nessas horas, a gente pensa até em abdução alienígena). Mas a verdade é que, tirando a prova dos nove, tudo que resta é um conjunto vazio.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Assistências

- Coristina
- Band Aid
- Fisioterapia

Na minha lista de cuidados de hoje, ficou faltando uma (ou mais) coisa essencial, que não tem muito a ver com descongestionante, curativo ou infra-vermelho. Preciso de cheiro, beijo, tato. Será quem tem na Drogasil? Será que o convênio cobre?

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Desse jeito assim

Hoje eu acordei assim, melancólica como um samba-bossa cantado por João ...

Outra vez
Sem você
Outra vez
Sem amor
Outra vez
Vou chorar
Vou sofrer
Até você voltar
Outra vez
Vou vagar
Por aí
Pra esquecer
Outra vez
Vou falar
Mal do mundo
Até você voltar ...

(Tom Jobim)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Estranho domingo de festa

Quando eu ouvi o teu nome, ao telefone, naquele domingo difícil, sabia que estava sem salvação. O coração desavisado deu um pulo e não se lembrou da febre seca que o teu sumiço previsível deixou no meu corpo, em pleno Carnaval. Naquele domingo em que tudo ia em ritmo marcado, aborrecido, e eu tentava distrair uma ansiedade pulsante, que me saía pela boca. Tua voz, teu nome ... Era isso, então? E a minha meia hesitação foi desarmada pelo som do teu sorriso. Sorriso melodia esse teu! Estava certo: eu iria te ver. Sem nenhuma chance pro meu discursinho-feminista-revanchista-de-quinta. Eu não iria pra ouvir as tuas histórias, aceitar as tuas desculpas, nem pedir qualquer promessa. Eu iria mesmo pra me achar nos teus braços e me impregnar de novo do teu cheiro de homem que sabe o que quer. E assim foi. Sem se importar com a presença do garçom, você arrancou meu vestido com os olhos, enquanto minha boca afagava cada imperfeição desenhada no teu rosto. Sua barba malfeita amaciou minha pele, espantando os meus medos. Então, com destreza de amante, você me levou pra casa e colocou um jazz bem no meio do meu domingo assustado. Já era noite, mas você me deu uma manhã inteira de piano e sax. Sol antecipado às três e vinte da manhã. Ainda não sei bem com que mágica amadora você fez aparecer aquela flor vermelha no fim do meu domingo borrado de cinza. Estranhos esses domingos que começam inapetentes, cheios de nuvens escuras, e acabam com um gol que define o campeonato, marcado aos 45 min do segundo tempo. Estranho acordar sem luz, tateando as paredes vazias e ir dormir embriagada do teu gosto, aconchegada pelo peso da tua mão exata, no meu corpo exausto. Estranho acordar sem sonho e ir dormir em festa. Estranho, tudo muito estranho, nesse começo de segunda-feira sem você.

O que será?

Presságio? Sinal? Sei lá ... hoje vou dar uma folga pro meu ceticismo.

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

(Cajuína, Caetano Veloso)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O menor dos males


Criou estardalhaço esta semana, quase tanto quanto a "demissão" do gerúndio, este documento oficial, com grafia incorreta, distribuído internamente entre órgãos do legislativo. Ainda tô pra dizer que isso nem é tão feio, un error sin valor, una tontería, perto do que se apronta por lá.

Aunque sin precio ...

Mi corazón está en el mostrador.

Lição de casa

Na aula de ontem, falando sobre o vínculo indissociável entre a obra de Machado de Assis e a matéria histórica brasileira, o Pasta resumiu aquilo que eu acho que todo mundo que nasce neste chão deveria ter em mente, desde criancinha; claro, como perspectiva de correção:

"No Brasil se progride repondo atraso, e não construindo cidadania."

Professor, sem fetichismo e/ou idolatria: você é meu herói!

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Ui!

Já que o Renan tá lá, "firme no propósito" (adoro esse jargão evangélico!), só me resta pensar em sacanagem (no bom sentido). Tenho percebido que há em nossa música uma latência sexual, que nada tem de latência. Mais explícito que isso, impossível! Vamos lá: trechos de três clássicos da MPB, Música Pornográfica Brasileira:

1) O meu amor - Chico Buarque

O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios
De me beijar os seios
Me beijar o ventre
E me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo
Como se o meu corpo fosse a sua casa, ai ...

2) Tá delícia, tá gostoso - Martinho da Vila

Vem me salvar boca a boca
Tô morrendo de amor
Vem fazer amor bonito
Vem pra se deliciar
Você é fêmea no cio
Deixa seu macho dengoso
Quando diz no meu ouvido
Tá delícia , tá gostoso
Tá, tá, tá ... tá delícia, tá gostoso ...

3) Luxúria - Isabella Taviani

Dobro os joelhos
Quando você me pega, me amassa, me quebra,
Me usa demais
Perco as rédeas
Quando você demora, devora, implora sempre por mais
Eu sou navalha cortando na carne
Eu sou a boca que a língua invade
Sou o desejo maldito e bendito, profano e covarde
Disfaça assim de mim
Que eu gosto e desgosto, me dobro,
Nem lhe cobro rapaz
Ordene e não peça
Muito me interessa a sua potência, seu calibre e seu gás ...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

111 sem-família

Chegamos aos 15 anos do massacre no Carandiru. O que mais me espanta é que, diferentemente do que se passa com tragédias de grande porte, ninguém quer saber como estão as famílias das vítimas. Todo mundo se comove com os parentes não indenizados do desastre da Gol. O mesmo vai acontecer daqui a um ano, em relação ao acidente da TAM. As famílias daqueles que morreram no atentado ao World Trade Center, então, viraram quase tão mártires quanto os homens-bombas que toparam fazer o estrago, entre os seus. Óbvio, são mazelas de naturezas muitos distintas, de proporções diversas, mas ainda sim, eu estranho. Ninguém quer saber o que aconteceu com mães, esposas e filhos dos 111 (pra ficar no número oficial) sacrificados no Carandiru? Não interessa? A dor dessa gente toda foi (tem sido) menor? Ou o sofrimento de parente de gente inocente, que utiliza transporte aéreo, tem prevalência ao dos familiares de bandidos encarcerados? Por que ninguém entrevista a noiva do cara que tava terminando o cumprimento da pena, cheia de sonhos e um vestido de noiva emprestado? Por que ninguém tem pena dos filhos que iam todos os domingos dividir macarronada e refrigerante barato com o pai na detenção? Será que compaixão é um troço seletivo? Quem indeniza essa gente toda, que vem sendo privada, desde sempre, de qualquer oportunidade de vida decente? Mas, como disseram Caetano e Gil, presos são quase todos pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres. Simplesmente não interessa. Pouco importa. A título de curiosidade, lêem-se os números da segurança pública na Veja e assiste-se ao filme do Babenco, como entretenimento, num domingo à tarde. Ao menos, uma reflexão belíssima (no limiar da possibilidade) do Fernando Bonassi, hoje, na Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0210200729.htm.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Tudo

Um beijo,
Um aconchego,
Um abraço apertado
Tá tudo tão guardado
Tudo esperando você chegar

Um cheiro,
Um gracejo,
Um olhar demorado
Tá tudo tão ansiado
Tudo esperando você gostar

Um copo,
Um prato,
Um arranjo aprumado
Tá tudo em volta perfumado
Tudo esperando você ficar

Um afago sem braços
O peito arquejado
E o coração insistindo, cansado
Na esperança de você chegar,
gostar,
ficar
e me Amar

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Todo que necesito decir

O Sono

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono! ...

(Álvaro de Campos)

sábado, 22 de setembro de 2007

Provisório

O crachá dizia: PROVISÓRIO. Riu sozinho da coincidência. Há muito tempo se sentia assim. Como a psicóloga do RH conseguiu captar naquela curta entrevista aquilo que nem ele sabia explicar? Coincidência, claro. O emprego recém-adquirido ainda lhe causava estranhamento, quase aversão. Era, na verdade, uma tentativa de frear a sua itinerância pelo mundo: barman em Chicago, estivador em Padang, cozinheiro em Hanover, motorista em Adana, quase toureiro em Madrid. E agora, estava de volta à cidade onde nasceu, cresceu até ser menino e de onde, depois, fugiu. De terno e gravata, atrás de uma mesa fria, no metro quadrado que lhe cabia, apartado dos demais por um negócio chamado drywall. Tinha visto tanta encrenca pelo mundo, disputa por espaços, necessidade de legitimação ... E sentia uma ponta de orgulho, que nunca ostentava, por ter nascido em um país em que as pessoas só brigavam por ser Vasco ou Flamengo, Portela ou Mangueira, petista ou tucano. Mas ali, no mundo corporativo, tudo era ordenadamente dividido. Sua peregrinação começou aos 16 anos, quando saiu com uma mochila e alguns trocados economizados do primeiro emprego, disposto a encontrar o pai. A mãe, que não se conformava com o abandono, buscava nas garrafas de uísque barato um consolo não menos vulgar. A única forma de trazer a mãe de volta seria ir atrás do pai. Tinha poucas pistas. De carona em carona, chegou ao interior do país, seguindo, instintivamente, um trajeto que ninguém tinha traçado. Chegou à casa de uma tia da tia, que há muitos anos não tinha notícias do Paulo. O primeiro fracasso arruinou seu projeto. Sua disposição ao sair de casa, não tinha a menor convicção. Apenas precisava fazer alguma coisa; salvar a sua mãe. Nunca sentiu falta do pai. Na rodoviária, entrou em um ônibus para o Sul. Resolveu salvar a si mesmo. Desobrigando-se de encontrar o pai, deixou-se perder. Não sabia para onde queria ir, apenas que não ficaria, nem poderia voltar. Conheceu os quatro cantos do mundo, aprendeu doze idiomas, comeu de tudo e, muitas vezes, ficou sem comer. Nunca guardava dinheiro. Em cada um dos continentes, encontrou os irmãos que não teve. Gostou de algumas mulheres e se apaixonou por uma ruiva metida a zen, que conheceu num pub sujo em Durham. Por causa dela, até quis estancar seus passos, mas não tinha paciência para sexo tântrico. Seguiu. Pensava nela, às vezes. Muitos anos depois do ônibus sacolejante, um telefonema o trouxe de volta. O último postal remetido à mãe informava sua localização. Ela estava mais doente. Não tinha ninguém. Ele, que tinha o mundo, resignou-se. Mas não chegou a tempo. Nem pra chorar, nem pra se culpar. Repondo a vida na mochila, teve uma crise de destino e quis ficar. E descobriu rápido que, para ficar, precisaria de mais dinheiro do que para ir. O aluguel, os impostos e o contato distante com o mundo que ficava longe exigiam dele uma renda fixa. Não tinha formação escolar superior, mas era o único dos 130 candidatos que falava mandarim. Ganhou o emprego. Mas as perdas lhe custavam. No refeitório reservado aos funcionários administrativos - mais uma extravagância do apartheid empresarial - outros colegas tinham no crachá a mesma inscrição: PROVISÓRIO. Mas, diferentes dele, tinham os pés bem fincados naquele paviflex esverdeado. E dariam o melhor de si, exatamente como prometeram no dia da entrevista, para ali continuar. Com o fim do almoço, a conversa girava em torno das dificuldades do mercado de trabalho e da vida familiar. Pela primeira vez, desde que deixou a mãe, se sentiu sozinho. No final da tarde, foi chamado ao RH. A moça loira simpática lhe pediu para assinar um monte de papéis, que formalizavam sua admissão. Com duas toneladas nas costas, rabiscava o nome sem ler. Ao término de algumas explicações sobre datas de pagamento e previdência social, a nova colega sentenciou, tranqüilamente: “Aqui está o seu crachá definitivo. Por favor, devolva-me o provisório”. Definitivo? Sem saber direito o que aquilo significava, mas angustiadamente desconfiado, obedeceu. Saiu da sala, olhando para a foto expressa. O fundo branco, sem nenhuma das muitas paisagens que conhecia. Abaixo da foto, em letras garrafais, o seu nome. Tremendo de aflição, lavou o rosto no sanitário funcional masculino. Acabava de entender. Não era mais provisório. Era apenas o Eduardo.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Vide, vuoto

A semana inteira andando em passos lentos. Um dia e mais outro. Tudo, tudo muito igual. Manhãs compostas de sono. Tardes rarefeitas de tédio. Noites empenhadas com vestígios de atenção. Até uma e quinze da manhã. Até o momento de fechar os olhos e não sentir mais falta. Não sentir mais fome. Não sentir calor, nem frio. Momento de fechar os olhos e esquecer que mais um dia passou. Sem nenhuma flor.

Vacío

"Saudade
Saudade de um grande amor
Que eu não tive
Eu preciso te encontrar ..."

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Entre beijos e pizzas

Pois é, não deu. Renanzinho continua lá, todo pimpão, presidente da Casa, representante dos representantes do povo. Não vou dizer que isso me deixa com vergonha de ser brasileira e blábláblá. Brasileiros somos muito mais do que isso. Muito mais do que um conchavo sujo e alianças espúrias. Muito mais do que os 8 mentirosos que declararam ter votado a favor da cassação e que os 40 cúmplices descarados. Muito mais do que a "força" dada ao "réu" pela senadora Roseana Sarney, que só faltou embalá-lo nos braços. Bem mais até do que o vexame do senador Mercadante (absteve-se por quê?). Mais ainda do que os outros petistas que até agora não revelaram o voto. Senador Suplicy, obrigada por não frustrar minhas expectativas em relação ao seu caráter! Deputado Gabeira, valeu mesmo ter se desculpado com um beijo pelo "soco" sem querer no interino presidente Tião. Vocês quase salvaram o meu dia. Mas nós brasileiros somos muito mais do que um rodízio de pizza e vamos adiante. Nós, paulistanos, apesar da sopa rala do prefeito Kassab.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Fruição

"Llegó, por fin, una mañana en que se le desprendieron a Ramiro las escamas de la vista y, purificada ésta, vio claro con el corazón. Rosa no era una hermosura cual él se había creído y antojado, sino una figura vulgar, pero con todo el más dulce encanto de la vulgaridad recogida y mansa; era como el pan de cada día, como el pan casero y cotidiano, y no un raro manjar de turbadores jugos. Su mirada, que sembraba paz, su sonrisa, su aire de vida, eran encarnación de un ánimo sedante, sosegado y doméstico. Tenía su pobre mujer algo de planta en la silenciosa mansedumbre, en la callada tarea de beber y atesorar luz con los ojos y derramarla luego convertida en paz; tenía algo de planta en aquella fuerza velada y a la vez poderosa con que de continuo, momento tras momento, chupaba jugos de las entrañas de la vida común ordinaria y en la dulce naturalidad con que abría sus perfumadas corolas. ¡Qué de recuerdos! Aquellos juegos cuando la pobre se le escapaba y la perseguía él por la casa toda fingiendo un triunfo para cobrar como botín besos largos y apretados, boca a boca; aquel cogerle la cara con ambas manos y estarse en silencio mirándole al alma por los ojos y, sobre todo, cuando apoyaba el oído sobre el pecho de ella, ciñéndole con los brazos el talle, y escuchándole la marcha tranquila del corazón le decía: ¡Calla, déjale que hable!. "
(Fragmento de La tía Tula, de Miguel de Unamuno)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Balzac, maluco beleza


Quando não se tem nada por “obrigação” a fazer lá na Letras e, coincidentemente, for uma terça ou uma quinta, é sempre válido passar pela sala 170. Você aponta na porta, dá uma espiada pra ver se sobrou algum lugar, e logo ele te convida a entrar. Não importa se você está ou não matriculado no curso. Será sempre bem vindo. Ele é o Pasta, ou o Zé, para os que têm intimidade. José Antônio Pasta Jr. é figura enigmática e amada por lá. Muitos dizem que parece o Baudelaire. E parece mesmo. Olhos azuis que brilham de entusiasmo falando de Goethe, Proust, Schiller e até de Alencar. A roupa sempre preta, o rosto pálido como o de um europeu, os lábios finos com um meio sorriso. Mas este post não foi pensado para falar do Pasta. É difícil resistir, mas ele merece (e fico me devendo) um post à parte. A idéia é falar sobre a aula a que assisti nessa última semana. O curso é sobre Romantismo, que, aliás, eu já havia feito no ano passado. Sabia mais ou menos o que viria pela frente. Importância de Alencar, o projeto nacionalista do Romantismo brasileiro, a estética importada da França e adaptada (mal, inicialmente) à matéria local, o descompasso apontado por Roberto Schwarz, e por aí vai. Acontece que nessa última aula do curso, o Pasta resolveu brindar os seus convivas com uma historinha sobre ninguém menos que Honoré de Balzac, o criador de As ilusões perdidas e de toda uma Comédia Humana. O Pasta nos falou, com citações em um francês perfeito (com aquele u que é quase um iu), traduzindo depois para “língua de gente”, como ele gosta de dizer em seguida, só pra não parecer esnobe, como o autor de romances celebérrimos se tornou o maior escritor de todos os tempos. Em um belo dia, Balzac chegou à casa de sua irmã, numa vila qualquer de Paris, todo esbaforido, dizendo que estava se tornando um gênio. Não um gênio qualquer, mas o quarto gênio da humanidade (Napoleão, Georges Couvier e Daniel O’Connel seriam os outros três)! Segundo o Pasta, a irmã do Honoré deve ter ficado de cabelos em pé, enquanto o mano, já não podendo se aguentar com a sua própria enormidade, revirava os olhos e babava, já pronto para entrar na camisa de força. Tirando os exageros e o folclore da interpretação, o Pasta tem razão quando diz que o sonho de todo louco é ser Napoleão. O fato foi que Balzac percebeu que com os quase cem romances que tinha escrito, já havia despido toda a sociedade pós-revolução. Os seus mil personagens poderiam ser deslocados para qualquer ponto de sua obra. As relações de poder e sexo estavam todas ali. A sociedade burguesa estava bem representada. E assim, ele resolveu batizar o conjunto de sua obra de Comédia Humana. Coincidentemente (quem acredita?), um fiorentino, lá no comecinho do séc. XIV, também havia escrito uma comédia, só que uma comédia divina, La Divina Commedia. A comédia humana de Balzac, além de preciosidade literária, é também uma atualização histórica. O que Balzac fez não foi pouca coisa, afinal ninguém é mais burguês que o pai de sua Eugênia Grandet. Na escultura que Rodin fez para retratá-lo, Balzac aparece com uma capa que se confunde com o seu corpo, dando-lhe dimensões abarcadoras. Uma boa imagem para a sua voracidade e obstinação. Na definição precisa do Pasta, Balzac era um gigante cambaleante. E para quem, assim como eu, acha que não vai dar tempo de ler os cem, escolhidos pelo Pasta como imperdíveis são o já citado As ilusões perdidas e Pai Goriot.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

quem dera ...

Frio. Sono. Quem dera um cafuné ...

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Enquadrada

Eu arrumei o quadro na parede
Eu não quero mais ficar,
mas centralizo o quadro na parede
Há muito tempo já não estou,
mas não aceito a assimetria
Nunca um quadro torto na parede
Por mim, já teria ido
Estaria longe, muito longe ,
mas há tantos quadros tortos na parede
E ainda teimo endireitá-los
Até quando?
Mais um dia, um ano, a minha vida?
Ou até que a parede caia?

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Um pouco de Tom e Vinícius

Chegou, sorriu, venceu, depois chorou,
Então fui eu quem consolou sua tristeza
Na certeza de que o amor tem dessas fases más
E é bom para fazer as pazes, mas

Depois fui eu quem dela precisou
E ela então me socorreu, e o nosso amor
Mostrou que veio pra ficar
Mais uma vez, por toda a vida

Bom é mesmo amar em paz
Brigas nunca mais.

(Brigas nunca mais)

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Os girassóis

Para V.C.
Raquel estava ansiosa. Acordou cedo e ligou para Cristina. Confirmaram e combinaram horário e local. Unhas pintadas, cabelo hidratado, tudo estava de acordo com as exigências de sua vaidade. Chamava a mãe para lhe dar certeza de que o vestido azul não marcava o culote. "Você está linda, minha filha. Use-o com as sandálias brancas". Não, as sandálias brancas a deixariam muito alta. Iria de rasteirinha. Há muito tempo Raquel só se deslocava de casa para o trabalho e vice-versa. As amigas reclamavam sua presença nas festas, happy hours e viagens. Diante das recusas sem explicação, diziam, entre cochichos, que a amiga curtia uma dor-de-cotovelo. Algumas arriscavam o nome do gajo que deixara Raquel de coração partido. O Paulo, da seção de compras, ou aquele alto e magro, que agora andava aos beijos com a Cláudia. A verdade era que Raquel não passava por uma boa fase. Deixou até de freqüentar as aulas de alongamento, de que parecia gostar tanto. Sua casa era o seu refúgio contra os males do mundo. A voz doce da mãe, o sorriso grande do pai e os pêlos macios de Cecília, sua gatinha, lhe davam todo o alento de que precisava. E então, para que parassem as tagarelices e especulações, aos convites dos amigos passou a responder com a saúde fraca de seus parentes. Faria qualquer coisa para não sair de sua fortaleza. A avó tivera uma crise de rins, a prima recém-operada da vesícula esperava os seus chamegos, ou a irmã, muito gripada, talvez, precisasse de um chazinho. A mãe e o pai eram sagrados. Com eles não mexia. E também tinha o cuidado de nunca matar ninguém. Tinha medo de ser castigada. Eram tantos parentes vitimados por golpes de ar e infecções de intestino que, junto com as tagarelices e especulações, cessaram também os convites. Por um tempo Raquel sentiu-se aliviada. Poderia ficar com Ceci no colo, até que uma das duas adormecesse, ou comer caixas de chocolate, sem se preocupar com a última dieta de Saturno. Mais que isso: não precisaria conversar sobre os livros e filmes que não tinha ânimo de ler e assistir. O pai, por mais que lhe agradasse a companhia da filhota, enrugava a testa ao vê-la transitar de pijama, do quarto à sala de jantar, em domingos ensolarados. A mãe comprava o jornal e comentava, com disfarce, sobre shows e espetáculos na cidade. Raquel não se animava. Já lhe bastava toda aquela convivência na repartição, o telefone de campainha estridente e as vantagens contadas pelas colegas, entre risadas forçadas e garfadas no bandejão. Tudo seguia até que, naquela sexta-feira, ao bater o ponto e virar para pegar o copo descartável para um gole de café, viu, de relance, um arranjo vistoso sobre a sua mesa. Eram grandes girassóis enlaçados por uma fita vermelha. Sem entender, Raquel pegou o arranjo e procurou pelo cartão. Do lado de fora do envelope, o seu nome, com R bem caprichado. Do lado de dentro, apenas uma palavra, em tom de pedido, mas sem exclamação, nem assinatura: “desabroche”. Raquel perguntou pelo entregador, mas ninguém tinha visto nada. Quando Sandra chegou, às sete e quinze da manhã, as flores já estavam lá. Ela abrira o escritório. Pensou em guardá-las num vaso com água, mas receou que a vizinha de mesa se zangasse. Raquel trabalhou aquela manhã, suspirando para o arranjo que colocara no canto direito. Mais do que a necessidade de descobrir o autor daquele mimo, um possível admirador, tinha ânsia de cumprir a recomendação do cartão. Voltando do almoço, viu que o escritório estava em festa. Finalmente saíra a promoção do Júlio. Pediram bolo e salgados e garantiram que continuariam a comemoração com muito chopp gelado, na tarde seguinte. Raquel, arfante, perguntou com um fio de voz se seria bem vinda. Surpresos, acolheram-na com sincera satisfação. E assim, chegou ao vestido azul. A mãe lhe pedia a roupa para passar, as sandálias para limpar e lhe aconselhava não andar com muito dinheiro. Era melhor o cartão de débito. O pai, vendo a agitação que tomara conta da casa, desenrugou a testa. Vestida e perfumada, Raquel despediu-se com beijos. Ao fechar a porta, ouviu um barulho. Era Ceci, miando um miado fino e repetido, como se tivesse algo a dizer. Angustiada, Raquel pôs a gata no colo e acariciou seu pêlo branquinho. Examinou-a com cuidado, procurando algum machucado, alguma razão para aquela reclamação fora de hora. Tudo parecia bem, mas a gatinha continuava sua fala agitada. Raquel não acreditava. Justo naquele dia em que nenhum parente padecia, Ceci lhe implorava atenção?! Como deixar a sua fiel companheira desses meses de reclusão? Seria um mau presságio? Desnorteada, descalçou os pés e sentou na soleira. Já pensando na desculpa que daria na segunda-feira, vencida, espantou-se com o pulo de Ceci. Seus olhos mal alcançavam por cima do telhado, mas conseguiram se surpreender com o que viram. A gata não estava sozinha. Colocando de volta a sandália rasteira, sorria sozinha e dizia baixinho: “Desabroche, Ceci!”

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

20 anos sem Drummond

Sentimento do mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desjeo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desafiando a ordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais que a noite.

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Felizes para sempre

“Enquanto eu não acho a pessoa certa, me divirto com as erradas”. Ela estava cansada disso. Não queria mais amores de empréstimo, paixões de uma noite, seduções sucessivas. Estava sozinha, desde que acabou um namoro antigo. Sozinha de uma forma relativa, já que havia os empréstimos, etc, etc. Sozinha de uma forma definitiva, já que há muito tempo não podia dizer “meu amor”. Ela queria alguém pra dividir o prato grande, que era obrigada a comer com gula, esforçando-se pra evitar ao máximo o desperdício. Mas as últimas insinuações de amor que teve foram mesmo insinuações. Alguns desencontros e muita vontade extraviada. Ela acreditava, queria, estava pronta. Sempre estivera. Adorava apaixonar-se. Uma vez, perdeu o fôlego de tanto querer um homem. Pelos beijos que trocavam e pela forma como ele a rodava nos braços, qualquer um diria que eles viveriam uma história de amor. E viveram. Uma história breve. Ela seguia. Decepção curtida, já estava disposta a mais uma aventura. As aventuras nem sempre eram entusiasmadas. Muitas vezes, eram apenas concebidas pra matar a fome do corpo. Algumas ainda lhe enchiam os olhos de encanto, mas passavam, findo um efeito inebriante qualquer. Perder o fôlego não é pra qualquer um. Nem por qualquer um. Todos lhe pediam um par, e quando ela explicava que, simplesmente, não acontecia, mostravam-se surpresos. De fato, apesar de sua íntima insegurança, ela também não entendia. E sabia que se fazia notar. Elogiavam o seu sorriso, o seu charme, a sua alegria. Dançando, era uma graça. Outro dia, numa roda embalada por sambas nostálgicos, ela foi com uma flor nos cabelos. Era leve e, a cada novo copo de cerveja, se embriagava de felicidade. Além da elegância marota, tinha outros atributos. A simpatia que estampava nos olhos vinha do fundo de sua alma. Era uma simpatia pela vida, pelas possibilidades e por todos que passavam por ela. Conversava com certa timidez, mas acolhia com gosto convicções e diferenças. Era uma mulher com jeito de menina. E desejos de mulher. Desejos que, nos momentos de intimidade, não subestimava. Não havia nada de errado com ela. Já tinha ouvido isso incontáveis vezes: das amigas, daqueles que a deixaram e de si mesma, como um mantra. Mas, naquele dia, pensando na vulgaridade sentimental em que se consolava, nas pessoas erradas que não ficavam e na certa que não vinha, resolveu que estava cansada. E, então, decidiu que não iria mais se entregar a satisfações fugazes. Faria alguma coisa. Como se jamais houvesse acreditado em destino, como se tudo dependesse exclusivamente de sua vontade, entendeu que chegara a hora. Foi para o banho e, enquanto a água muito quente caía sobre o seu corpo delgado, pensava na roupa ... a roupa com que encontraria o seu grande amor. Enxugando-se com a toalha velha e macia, agia como em um ritual. Pôs pra tocar uma música do Chico, uma que dizia “por favor não evites, meu amor, meus convites, minha dor, meus apelos”. Penteou os cabelos molhados e abriu a janela, para que o vento os secasse. Antes de vestir a roupa, sorriu nua para o espelho, admirando aquilo de que o seu grande amor desfrutaria. Pegou uma taça de vinho, pois não podia partir para evento tão importante, sem uma inspiração divina.Vestiu uma saia de rendas e uma blusa de alças. O colo continuaria nu, aliás, justamente o colo que ela vivia escondendo. Não se perfumou, pois queria que o seu grande amor conhecesse o seu cheiro de verdade. O seu cheiro de menina-mulher. Também não pintou os lábios, nem os olhos. Os cabelos não foram presos. Ficariam revoltos, desalinhados, exatamente como ele, o seu grande amor, os encontraria no momento já quase exaustivo do gozo e na manhã de cada dia. Pegou o livro do Drummond e saiu em direção ao parque. Teria escolhido a praia, se houvesse uma perto. Sentou-se na grama, sentiu o calorzinho gostoso do sol, abriu o livro e, sem qualquer ansiedade, esperou. Dizem que o encontro foi esplêndido. Chegando, ele a reconheceu logo. E, naquele dia mesmo, eles dançaram muitos sambas antigos. Tomaram um litro inteiro de cachaça mineira e, depois de um curto e profundo sono, se amaram a noite toda. O livro do poeta ficou esquecido na grama. Foram felizes para sempre.

Na aldeia

Na aldeia, na aldeia
Quero veu o seu vestido arrastando-se na areia

Morena, meu doce encanto, pra matar minha saudade
Quero te ver bem distante do boliço da cidade
Quero te ver como dantes alegrando nossa aldeia
Com seu vestido de renda arrastando-se na areia

Na aldeia, na aldeia
Quero veu o seu vestido arrastando-se na areia

Quero te ver bem faceira na porta da capelinha
Escrevendo o nosso nome com a ponta da sombrinha
Quero que a vida nos seja de venturas sempre cheia
Com teu vestido de renda arrastando-se na areia

(Silvio Caldas)

Pêssego

Proust
Só de ouvir a voz de Albertine
entrava em orgasmo.
Se diz que:
O olhar de voyeur
tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

(Manoel de Barros)

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

O fim da espera

Até ontem eu te esperei. Com a certeza de que te esperaria por intermináveis dias de chuva. Não chegava a ser uma agonia. Apenas um desejo distraído e relembrado, em momentos de menor profusão.
Hoje, não sei bem por que razão, tinha um sol enorme brilhando na janela. Mecanicamente levantei e fui fazer o de sempre. Também mecanicamente me lembrei de você. Ou melhor, me lembrei de lembrar de você.
Você podia ter vindo. Eu estava à sua espera. Com o sorriso de sempre. O sorriso que eu sempre tinha pra você. Às vezes, eu até o guardava, só pra que não estivesse desgastado, no momento da sua chegada. Teria te oferecido, ainda, os olhos de que você gostava. Olhos dispostos a te querer incondicionalmente. Irracionalmente, como todo querer que se preze.
Você não veio. E saber disso, talvez seja maior que toda a minha espera. Vã. Não queria entender. Você falou das minhas mãos, dos meus olhos, do meu sorriso. E depois, não os quis pra você. Não mais. Palavras. Vãs. Você até quis se desculpar, alegando sua insensibilidade. Eu disse pra não se importar. Comigo me importo eu. E fico com a minha espera. Vã. O que eu quero dizer é que não tenho mais a certeza de esperar-te. Não sei se foi o sol, me despertando logo cedo. Arrancando-me da cama para mais um dia e para a obviedade das coisas. Uma obviedade estridente, que desarranjou os meus argumentos. Os mesmos argumentos de que eu precisava para sustentar essa espera. Não posso mais. O que não se sustenta, em pouco tempo deixa de existir. Esperei-te até ontem. Hoje, lembrei-me de lembrar que até os dias de chuva têm sua beleza.

Prisão de sonhos

Eu queria fazer poesia. Não como fazem os grandes. Ficaria contente com versos simples em pífios quartetos. Eu bem que tentei. Mas as minhas palavras só sabem correr com seus inúmeros complementos. Não conseguem fugir deles. Estranhas palavras pedintes. Será que elas foram contaminadas? Assim como as minhas mãos, os meus ombros e todo o meu arredor? Tudo pede uma extensão. E agora, minhas palavras... Rebelam-se inconformadas. Confusas por não terem um destino certo. Um destinatário de carne, osso e barba. Elas também querem ter para quem correr, quem acalentar, contemplar. Vácuo? Não. Não há lacunas, espaços vazios. Tudo está repleto. Transbordamento. Palavras e vontades atropelando-se, correndo desajustadas, desnorteadas, ávidas por impedir o desperdício. De sonhos, de desejos, de vida. O que fazer com tudo isso? Colocar dentro de uma caixa de correio? Enviar por email? Mas como, se não há o principal? Nenhum nome e sobrenome conhecidos. Nenhum nome de rua anotado num pedaço de papel. Eu não precisaria de emissário. Entregaria em mãos. Com as minhas próprias. Ou então, poderia me desfazer disso tudo. Como o faz o colecionador enfadado de seus objetos. Mas não são objetos, coisas exatas, com textura, cheiro e cor. Assim como as minhas palavras não cabem numa poesia, meus sonhos não se encaixam, não se enquadram, não se repartem entre aqueles dispostos a arcar com a nostalgia de um fim de coleção. Não há o que fazer. Só preciso achar um modo de retê-los. Detê-los. Contê-los. Antes que saiam ensandecidos. Antes que se percam. E não voltem.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado ...

Tomei vacina. Doeu e eu chorei
A cadeira caiu no meu pé. Doeu e eu chorei.
Andei me sentindo sozinha. Doeu e eu chorei.

P.S. Com tanta lágrima, pra quê pudores?

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Contando as sílabas

Caro Marcos Olavo,

Não se esqueça: nome de criança tem que ter métrica boa!

Felicidades!

Por hoje, é isso ...

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que eu me encontrar

(Candeia)

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Para a Van, com saudades ...

Van!!!

Wenn Sie hier kommen, wird er/sie wissen, dass ich mich von Ihnen erinnerte. Sogar mit dieser schrecklichen Übersetzung von Babylon. Ich liebe Sie, wollte!

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O choro

Quando eu era criança e queria provar pro meu avô o quanto tinha doído o castigo dado pela minha mãe, normalmente umas chineladas na bunda, eu dizia que me havia feito chorar “de lágrima”. Chorar de lágrima era uma conseqüência fortíssima de um ato de crueldade irrefutável. Parece que, quando se é criança, é muito fácil chorar de lágrima. Espernear, berrar a plenos pulmões e deixar toda a água do mundo escorrer canais lacrimais afora. Sempre vejo a criançada se escangalhando de tanto chorar. Depois que a gente cresce, aprende a chorar a seco, e só furtivamente se permite transbordar. Outra coisa curiosa é que criança quase sempre chora de tristeza e ri de alegria. Que simples ser criança! Mais tarde se aprende a rir pra não chorar, ou pra disfarçar o desespero. E também choramos a seco, engolindo soluços e decepções goela abaixo. Aprendemos a reprimir a dor e a conviver com ela. E a modernidade nos diz que não há mais espaço para donzelas românticas, “manteigas-derretidas” e “marias-choronas”. E homem, macho de verdade, nunca foi de chorar.
Esses dias, no metrô, uma mulher chorava de lágrima, exatamente como eu fazia quando criança. A diferença é que ela não tinha sido castigada. Ao menos, não com palmadas ardidas. Feição aflita, cabeça baixa e lágrimas que, ainda que ela tentasse conter, teimosas, saltavam, dançavam pelo seu rosto. Tinham tanto volume que escorriam e respingavam sobre a sua blusa. E, de repente, aquela desconhecida se tornou tão próxima, tão familiar. Sem alternativa e esconderijo, ela se entregava à tristeza. Senti um desconforto, uma impotência. Quais seriam suas razões, o que havia por trás daquela face pungida? A mulher parecia envergonhada, mas, ao mesmo tempo, sem nenhuma chance contra o próprio pranto. A cena repelia tanto os simples curiosos, como os verdadeiros samaritanos. Igualmente desconcertada, saí do vagão tentando desviar o olhar. Mas aquelas lágrimas, cujas motivações eu desconhecia, me impregnaram. Voltei a lembrar do meu choro de criança – molhado, intenso e sem pudores – e também dos meus choros de mulher, quase sempre em privacidade e acompanhados de um fofo travesseiro. Meus olhos marejaram, instintivamente. Enxuguei-os e contive a emoção. Afinal, deter as lágrimas, secas ou molhadas, é a árdua tarefa de todos, todos os dias.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

A tampa

Segundo a Joyce, eu sou uma panela de Inox, pô! Por isso tá tão difícil ... Ah, bom! Até que enfim alguém me explicou. Ufa!

E quando eu te encontrar, meu grande amor
Me reconheça

P.S.: eu não vou esperar até 2057, hein?!

Um sonho de simplicidade

Crônica deliciosa do Rubem Braga

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.
Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.
Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Brevidades


Eu posso te dar tudo em poucas horas. É só me dar tua mão e sentir. Vir comigo e fazer o tempo parar. Os minutos não vão se contar, enquanto minha mão estiver entrelaçada à tua. A tua dor não vai ser páreo pro meu sorriso. Vai se assustar e querer fugir. Vai se esconder dos meus afagos, como os meus dedos nos seus cabelos. Você vai poder ir longe, se eu estiver perto. Mesmo sem sair do lugar; apenas alcançando os meus passos. É só tirar teus pés do chão e reter teus olhos nos meus. Não precisa acreditar. Basta não duvidar. Os meus beijos vão te encher de vigor, se você precisar de coragem. Ou te amansar, se estiver destemido. E quando eu te abraçar, forte e suave, você vai querer ficar. Vai querer me amar. E, cansado, vai querer dormir. No meu colo. Por um breve instante. O breve instante que dura um amor.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Rotina

O despertar. Os cinco minutos extras que se estendem ... a dez, quinze, vinte ... e mais um começo de atrasos. O café quente e forte. O pão sem gosto. Porque, com exceção ao café, tudo é insípido em manhãs de gris. A roupa de sempre, com algumas poucas alterações. Tudo em perfeito automatismo. Os pensamentos já surgem, mas pra decidir ainda é muito cedo. Com algum esforço, talvez. Carro ou ônibus. "Bom dias", sorrisos, mais café ... o dia tem que começar. Uma tarefa, conversas, leituras. Almoço. Rápido. Frio e mais leitura, no sofá macio. A tarde chega e teima em ficar. Mais tarefas. Telefone. O doce que distrai. Hora de ir. Pra casa. Pro banho quente e pra cama macia. É tudo que se pode querer em um dia de frio. Que nada atrapalhe a rotina. Tão insípida quanto o pão da manhã. E que ela seja milimetricamente saboreada.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Vara o dia

vara o dia
varrendo a noite
cata um sonho
sonha um vento
algo que fique
por pouco
por muito pouco
um cisco que seja
algo que signifique

(Alice Ruiz)

sábado, 21 de julho de 2007

O samba mandou me chamar

Não fui. Mas hoje vou. Viciada no batuque.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Dúvida cruel

Vou ou não vou pro samba?

Tô te explicando pra te confundir ...

Domingo fui assistir Fabricando Tom Zé. O documentário de Décio Matos Jr. mostra o músico e sua banda em turnê pela Europa e também no badalado Festival de Montreaux. Bem, Tom Zé sempre foi uma figura estranha pra mim. Tinha simpatia e tal, por conhecer a sua irreverência, mas nada que me fizesse parar pra prestar atenção. Fiquei impressionada! Tom Zé é incrível como artista e uma pessoa de um vigor fantástico. Além de seus experimentos musicais, seu conhecido e até folclórico jeito enigmático de falar, ele é delicado e firme, nas situações pertinentes. É delicado pra tratar as flores do jardim do prédio onde mora, em Perdizes, pra lidar com a população do mesmo bairro, pra fazer canções de amor pra essa cidade louca. E é firme pra falar a verdade. Pra dizer que Caetano e Gil o relegaram à margem do Tropicalismo e que isso lhe rendeu um ostracismo de muitos anos, gastrite, depressão ... Até que em um belo dia, eis que surge David Byrne. Ou melhor, eis que Tom Zé surge para David Byrne e ressurge para o público ... primeiro, o de fora, depois, aos poucos, o da terra basilis. Tom Zé é exageradamente firme consigo mesmo, ao não assumir sua genialidade e se dizer um "japonês" esforçado. O filme todo é sensacional, os depoimentos de Tom são engraçadíssimos e três momentos me chamaram muito a atenção:
- Tom Zé e banda passando som para o Festival de Montreaux - os produtores, ensnobemente, diziam não entender sua música "imprecisa". Depois de algumas tentativas sem sucesso e tendo aturado muito mais esnobismo, Tom Zé não aguentou e os botou pra correr, os mandou "pra porra", no melhor estilo baiano. Não admitiu a humilhação. Dá-lhe, TOM!
- O excelentíssimo Ministro da Cultura, Gilberto Gil, diferentemente de Caetano, que titubeou, mas assumiu a mesquinhez, disse que não retomou as relações tropicalistas com Tom Zé, pq foi opção deste se recolher. Um puta cara dura! Toma vergonha, ministro!
- A Neusa - Neusa é a companheira de muitos anos de Tom Zé. E Neusa o ama, o acompanha e o auxilia com paciência, fidelidade e desprendimento caninos. Esclarece que o marido, quando compõe, fica nervoso e a trata mal. Tom corrobora. Mas Neusa compreende. Diz, em certo momento, não ter a veleidade de ter muita importância na vida dele, pq, afinal, ele é artista. E, para artista, explica, o que interessa é a arte. Neusa deve ter visto que, propositalmente, na edição do filme, logo anteriormente ao que ela disse, Tom dizia que sua vida, hoje, é dedicar-se ao bem-estar da mulher. Tá certo, Tom Zé não é muito romântico mesmo. Declara que se casou com a Neusa pq era inseguro e ela lhe aliviava as aflições. Segundo ele, sentir-se seguro é uma forma de amar. Pode ser.
A partir de agora, quero sempre parar pra prestar atenção em Tom Zé.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Humildemente

A Iara disse esses dias que, às vezes, eu tenho uma modéstia "mal colocada". Expliquei que a minha repulsa a qualquer tipo de esnobismo é tão grande, que acabei desenvolvendo o mecanismo contrário. Mas pensei que modéstia também pode ser parecido com humildade. Só que nunca gostei muito desse negócio de humildade. Mas agora gosto.


"Gosto dos que crêem na própria insanidade
por saberem-se humanos, limitados, miseráveis
e com isto exercitam a humildade
conscientes de estarem aprisionados
nesta pobre casca humana até morrer

Não gosto de ares de superioridade
(os parâmetros são tão tênues e precários!)
não concedo a ninguém autoridade
- Oh, esses deuses e deusas sectários -
pontificando sobre a vida e o que fazer"

(Eliane Stoducto)



"... só são humilhados os que não são humildes, e em vez de humilhação então eu deveria falar na minha falta de humildade; e a humildade é muito mais que um sentimento, é a realidade vista pelo mínimo bom-senso ..."

(Clarice Lispector)
Acidente. Tragédia.
Que merda!

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Este texto roubei de um blog, onde já estava, roubado de outro. Não resisti. Não posso ficar falando do Chico, porque acabaria sendo monotemática.

Chico - o quinto poder
12/03/2007
Essa semana fiz uma cagada! Das grandes, das piores, quase que imperdoável. Eu posso chegar aqui e dizer "O papa é um louco", ou "O Pelé nunca jogou nada", "A Gisele Bündchen tá gorda", que a seleção da Argentina é melhor que a nossa, posso falar que Einstein era um idiota, até dizer que Deus não existe ou que Ele é uma invenção da Rede Globo. As pessoas aceitam tudo isso, teríamos algumas pequeninas discussões, mas sempre teriam pessoas que concordariam comigo. MAS, se um dia eu vier aqui no blog e escrever algo do tipo: O Chico Buarque é uma enganação, pronto.............serei exilado, castrado, jurado de morte, minha mulher (ou nenhuma outra) nunca mais fará sexo comigo, nunca mais me atenderão no restaurante, o flanelinha riscará o meu carro , não me deixarão votar......Serei banido, sem perdão, da sociedade brasileira. Cairei no mesmo esquecimento que uma CPI no congresso, ou que o Túlio Maravilha. Nunca vi ninguém no Brasil falar mal do Chico ou mulher que não o ame. Chico Buarque é o quinto poder! Alguns dizem que ele entende a alma da mulher. Na Paraíba, chamam isso de outra coisa. Aquele viadinhodusinfernus! Por que isso? Como que esse cara conseguiu isso? Virou uma unanimidade! Desbancou até Nelson Rodrigues, pois segundo o dramaturgo "toda unanimidade é burra". Pois as pessoas preferem ser chamadas de burras, do que trair o "homem perfeito de olhos cor de esmeralda". Como ele consegue isso.....aquele bosta?!!! Como conseguiu se comunicar com todo intelectual e ao mesmo tempo com uma grande parcela do povo brasileiro? Aquele merda! Sempre preferi Aldir Blanc à Chico Buarque como letrista, ou Tom Jobim e Guinga como compositor, sempre achei o Caetano mais artista do que o Chico, o Gil mais músico, mas......nenhum deles junta tudo isso, com tamanha competência, num só. Os olhos do Fabio Assumpção são mais bonitos, o Romário joga mais bola, o Super-Homem voa mais alto. Mas tudo junto num homem só? Só ele, Chico Buarque de Holanda. Que SACO! Essa semana cometi uma imprudência. Numa roda de amigos e conhecidos, disse: "Não gostei do novo CD do Chico Buarque". Afirmei "Pode até não ser uma porcaria, mas que é decepcionante para um sujeito tão talentoso que ficou tanto tempo sem compor...." ......Pronto! Agredido de maneira cruel e implacável, fui obrigado a sair da mesa correndo. Fugi como um atropelador de motoboy à beira do linchamento. Semanas depois soube que meus amigos espalharam um boato que eu tinha sofrido abuso sexual do meu tio Cláudio quando eu era criança. Esse povo é foda! Gosto de falar mal das coisas (ou bem, sempre do lado inverso à maioria), meter o pau, na maioria das vezes é por brincadeira, pras pessoas ficarem incomodadas e a partir daí termos uma caminhada de discussões (saudáveis exercícios intelectuais). Mas falar mal do Chico é foda......é um tremendo filho da puta! POIS CHEGA! Eu não vou me intimidar perante a opinião pública, vou falar, custe o que custar................ELE NÃO SABE JOGAR GOLFE, pronto falei!!!! É bom que o "meliante" saiba que depois dessa minha "notícia bombástica", os fãs não irão mais ao show no Teatro Guaira, ainda que tenha esgotado os ingressos, pois todos sabemos a importância do jogo de golfe na cultura brasileira. Pronto, acabei com a carreira dele........Eu sou muito mal mesmo! Falei mal e pronto!
ps: Vcs não me verão na platéia, pois ver o Chico, no palco e cantando, é uma dessas coisas que não me interessam muito. Mas não é raro eu ouvir as canções do Chico - nem que seja só para ficar lendo as letras e tentando entender como ele consegue fazer aquilo. Que raiva daquele desgraçado! É um FILHO DA PUTA!!
ps2: 85% dos ingressos foram comprados por mulheres, 85% casadas. 85% dos homens que estarão no teatro serão arrastados pelo cabresto de sua companheira. 100% dos homens tem inveja de Chico Buarque de Holanda.

Demasiado humano

Hoje eu acordei tomada de humanidade. Essa humanidade que, às vezes, adormece e, quando menos se espera, retorna exasperada. Vontade de sair e sentir o vento gelado, olhar no rosto das pessoas e me comover com isso. Sim, me comover com qualquer coisa. Qualquer coisa que pareça grande. E a existência de qualquer um é grande o suficiente pra me perturbar. Rostos estranhos que inspiram, primeiro, a surpresa - o outro. Depois, a curiosidade - quem será o outro? E também uma ternura - eu poderia ser o outro. Um gesto, uma palavra, tudo é enorme. Será que cabe? Desejo doído de ser parte dessa enormidade. De abraçar o mundo, de contê-lo em mim. Necessidade de ouvir tudo o que bate ou sussura - porque, no fundo, é sempre um grito. De enxergar os sorrisos e os cortes profundos. De experimentar o sal e tatear as asperezas. Mas, sobretudo, de ser parte, constituinte, pedaço. E, como porção desse todo, ter direito ao punhado de humanidade que me cabe. Ter direito a um cuidado, um afago, um compromisso, uma batalha, uma aflição. E poder sentir, em toda parte, a humanidade que há em mim.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Medo 2

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Não me deixe só
Tenho desejos maiores
Eu quero beijos intermináveis
Até que os olhos mudem de cor

(Não me deixe só, Vanessa da Mata)

O medo

Medos inúteis que cultivamos:

- panela de pressão
- não ser feliz
- barata
- dizer "eu não posso"
- dizer "eu preciso"
- pisar no piso gelado e pegar resfriado
- demonstrar interesse e o/a super cauto/a desaparecer
- passar por debaixo da escada e ter azar
- ter celulite e ser menos por causa disso
- ter bom senso e não ser mais por causa disso
- escolher a profissão errada
- apaixonar-se pela pessoa errada
- vestir a roupa errada
- dar o conselho errado
- fazer qualquer coisa errada
- escuro
- altura
- solidão
- sangue
- amar demais
- amar de menos
- não ser bom o suficiente
- não ser esperto o suficiente
- não ser bonito o suficiente
- não ser o que imaginam que sejamos
- sentir medo

"Miedo que da miedo del miedo que da" (Lenine)

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Iara

Hoje vou falar de uma Iara. Ou duas. Uma, a Iara sereia, dos livros de folclore; outra, a Iara mulher, da vida real. A Iara real, diferente da mãe das águas, não tem longos cabelos negros e pele morena. Sua pele é clara como a luz, e seu cabelo loiro vai um pouco abaixo da nuca. Não me lembro de ter visto a Iara mulher banhar-se em algum rio; em mar, sim. Mas ela gosta mesmo é de mergulhar na vida. Mergulhos constantes, de magia e beleza sem fim. A lenda amazônica diz que a sereia Iara é de esplendor irresistível e seduz com seu canto aqueles que a avistam e ouvem. A Iara mulher não arrasta ninguém consigo para o fundo das águas, e ainda que adore as profundidades, já a vi emergir aqueles que dela quiseram ser escravos. A lenda diz também que Iara, antes de virar sereia, era a melhor guerreira da tribo, amada e invejada por todos. Quanta coincidência com a Iara da vida real – que não foge ao bom combate, e muito embora seja de paz, luta com armas brancas contra os perigos de sua existência! Mais um ponto de apoio tem a Iara mulher na fábula da sereia: quem a vê, nunca mais a esquece. Sim, não dá pra passar por ela (passar tendo ficado ao menos um pouco), sem aprender algo essencial, sem acreditar nas cores que não se definem, sem sentir vontade de roubar um pouquinho só da verdade de sua alma. Iara é assim: atordoante! Deve ser mal de nome de sereia.
A Iara real faz hoje 37 anos e, ao contrário da Y-Yára – "a que mora na água", mora em todos os lugares. Porque é um belíssimo sinônimo de liberdade. É tão linda quanto a do mito das florestas, mas sua beleza tem mil brilhos diferentes. A Iara mulher de que falo é a minha melhor amiga, minha irmã querida, a mãe da Mirrah. E é pra ela que eu me rendo em homenagens. Hoje e sempre.