segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Dica

Entrevistada do Entrelinhas de ontem, Ivana Arruda Leite é contista de mão cheia. Já publicou alguns livros, que pretendo conhecer em breve. Por enquanto, me delicio com os contos e crônicas jogados na net.

Receita para comer o homem amado

Pegue o homem que te maltrata, estenda-o sobre a tábua de bife e comece a sová-lo pelas costas. Depois pique bem picadinho e jogue na gordura quente. Acrescente os olhos e a cebola. Mexa devagar até tudo ficar dourado. A língua, cortada em minúsculos pedaços, deve ser colocada em seguida, assim como as mãos, os pés e o cheiro verde. Quando o refogado exalar o odor dos que ardem no inferno, jogue água fervente até amolecer o coração. Empane o pinto no ovo e na farinha de rosca e sirva como aperitivo. Devore tudo com talher de prata, limpe a boca com guardanapo de linho e arrote com vontade, pra que isso não se repita nunca mais.
(Ivana Arruda Leite)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Um ano

Há exatamente um ano atrás, eu vivi o momento mais triste da minha vida. O momento que eu sempre temi e que eu sempre afastava do pensamento, tentando fazê-lo parecer remoto. Perder a minha avó foi perder a minha melhor amiga da infância. Dona Maria não era só uma avó permissiva, que me deixava fazer travessuras e comer doces, ao invés de legumes. A minha avó participava das brincadeiras comigo e gostava, tanto ou mais do que eu, de todas as tranqueiras que dizem que as crianças não devem comer. Ela era a boneca em quem eu experimentava penteados, a vítima das minhas comidinhas de água e pedrinhas, minha entrevistada constante e favorita, além de jurada dos "espetáculos" que eu, minha irmã e minha prima inventávamos. Sua penteadeira (só as avós têm penteadeiras) era o meu brinquedo mais divertido. Tirava tudo do lugar e dispunha cada vidro, cada objeto, do jeito que eu bem entendesse, sem que ela se queixasse ou ralhasse comigo. Ela adorava quando eu ia na vendinha e voltava toda feliz, munida de suspiro cor de rosa, doce de abóbora de coração, pés de moleque ... Antes de ser a avó protetora, Dona Maria era a amiga cúmplice. Em junho, me ajudava a fazer cola de farinha para pendurar bandeirinhas pela casa inteira e, depois, levava sozinha, todas as broncas dos adultos - esses seres incompreensivos e estraga-prazeres. À noite, quando eu teimava em ficar acordada, ela me contava histórias que nada tinham a ver com fábulas infantis. Eram histórias meio trágicas, de gente real, que ela ouvia no rádio, e depois recontava, carregando no suspense. Eu ficava vidrada, querendo saber o final, e ela saboreava a minha impaciência. Um dia, rimos horas e horas de uma bobagem que vimos na TV. Ninguém achou a menor graça, mas eu e minha amiga nos contorcíamos com dor na barriga, de tanto achar engraçado. Foram tantos bolinhos de chuva, pipocas, cocadas que dividimos ... Tanta alegria que compartilhamos! Quando eu me machucava ou ficava com febre, era sempre a minha mãe que eu queria; afinal, nesses momentos, sempre queremos a proteção de gente grande. Depois que eu cresci, a distância surgiu. Eu deixei de gostar daquelas brincadeiras, daquelas guloseimas. E minha amiga continuava ali, criança, no seu corpo de setenta e tantos anos. Na tarde em que minha mãe ligou pra dizer que a minha melhor amiga da infância estava muito doente, andando pela rua, eu senti o asfalto sumindo sob os meus pés. Entendi o significado da palavra "desnorteada". E na noite do dia 22, quando me ligaram do hospital dizendo que ela havia partido, chorei várias perdas diferentes: a avó querida, a amiga companheira e a infância de doces baratos e brincadeiras improvisadas que ficava, definitivamente, para trás.
Coincidentemente, acabo de reler O Pequeno Príncipe, esse clássico da literatura infantil tão necessário aos adultos de hoje. A minha avó nunca leu O Pequeno, mas na sua perspicácia de mulher humilde, entendeu que a lógica dos adultos não fazia sentido. Por isso, escolheu viver como criança, cativando todos que passaram pela sua vida. No livro, a partida dos amigos é sempre motivo de tristeza. Mas sempre uma tristeza consolada pela certeza de que uma vez cativados, os amigos se conectam para sempre.
Talvez eu precise olhar mais pro céu, à procura de rosas preciosas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Louco é quem não diz

É muito fácil enlouquecer
A loucura anda por aí; sempre à espreita, sempre com fome
Anda seus passos surdos, discreta, matreira
Daqueles que já sucumbiram ela faz o que bem quer
Qual dona-de-casa mandona, impõe a ordem dos móveis e a cor das paredes
E assim, desafiante, dominadora, desfila suas formas sinuosas
Há os que seguem aos berros, sujos e despidos
vociferando impropérios, rindo do mundo limpo e são
Há os que repetem as vozes de todos os demônios
que a dona da casa convidou pra almoçar
E há ainda os que babam, urinam, defecam,
peidam e escarram, sem se esconder, sem se importar
Aliás, a loucura não quer saber se haverá quem os limpe,
quem os lave e lhes dê de comer
Ela só quer reinar soberana, exercer seu mandato
A ordem dessa senhora pode ter contornos menos brutos, mais elaborados: a angústia que arde, a crueldade que dorme, a depressão que derrota
Não se sabe ao certo se a loucura escolhe ou é escolhida
Apenas que se embrenha através dos excessos: os fracos demais, os indiferentes demais e os que pensam demais
Outra coisa da qual se tem certeza é que a loucura se alimenta dia a dia, nos comedouros imundos do mundo
Mundo que exalta os ricos, os bem-sucedidos, os impecáveis em trajes de festa
Mundo que rejeita a solidão e vende felicidade como um bem de consumo
Mundo que despreza os poetas, os desregrados e os justos
O mundo engorda a loucura
E ela está cada dia mais forte, valente, potente
Exatamente como o mundo quer
E sempre com fome, sempre à espreita
Somos todos terrenos férteis, produtivos
protegidos por cercas sem eletrificação e cães desdentados
Onde será o próximo acampamento?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Cor de rosa

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

(Paulo Leminski)

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

E então?

Ando sem paciência pra escrever. Ou sem coragem. Na verdade, sem paciência pra pensar, pra organizar idéias. Ou será que ando preguiçosa pra sentir? Às vezes, sinto apatia e me deixo perder nesse limbo do não estar. Ando sem paciência pras pessoas também. Ou para as suas praticidades e aborrecimentos cotidianos. Não tenho me interessado pelo escândalo do cartão corporativo nem pelas eleições americanas. O verão, minha estação preferida, tem passado sem me entusiasmar. Ao redor, tudo tem a mesma cor, o mesmo cheiro, uma luz incessante. Não consigo me sentir parte de nada, compartilhando o que quer que seja. Nem medo de estar sendo um ser humano horroroso eu consigo ter, apesar da desconfiança. Parece que estou em férias de mim mesma, esperando alguma coisa religar. E me sinto fraquejar numa tentativa frouxa, mais que tímida, de me religar ao mundo. Acho até que faz sentido esse esquecimento existencial. Afinal, pausa para uma vida nova. Mudanças ansiadas, acertadas, contagem regressiva. Acho que a ansiedade chegou num ponto de saturação e se transformou em morosidade psíquica, ou, trocando em miúdos, tico e teco estão exaustos. Não só tico e teco. Estou toda exaustão, que não é cansaço físico: é fadiga de ser, de querer, de não ter. Talvez ilustre essa mornidão, o meu melhor momento dos últimos meses: o anestesista me pedindo pra respirar fundo, avisando que eu ia começar a sentir muito sono, a voz dele ficando cada vez mais longe, um torpor delicioso, total ... Mas sei que isso tudo vai passar, como já passou tantas outras vezes. Sei que essa é uma crise pontual e que esse vazio não é consistente o suficiente pra me entorpecer de verdade. Sempre haverá um samba pra estufar o meu peito de ar, uma letra antiga pra eu cantar até perder o fôlego. Isso sem falar nas amigas queridas e no rostinho cada vez mais lindo da Gabi.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Quanto riso, óh, quanta alegria ...

Tenho me sentido um salão de baile de Carnaval. Não necessariamente pela alegria inescapável e até compulsória. Tô falando é dos mais de mil palhaços mesmo.

Kalter Wind

Van, tá frio aí em Frankfurt? Porque tá tão frio aqui no meu coração. Tá tão apertado de saudade da sua voz mansa me consolando, me dizendo "ô, amiga, não fica assim". Que falta faz a sua atenção sincera, a sua preocupação de verdade! Você se lembrando de perguntar se passou, se sarou, se eu tô melhor. Você me dizendo que, se eu precisar de alguma coisa, é pra ligar meeeeesssssmo. Você se oferecendo pra resolver qualquer coisa que pudesse facilitar minha vida. Saudade de você rindo das minhas histórias, da minha "falta de sorte"; saudade da sua solidariedade bem humorada. E de você checando minhas intenções, meus passos, meus olhos ... pra saber se estavam secos ou molhados, decididos ou turvos.
Ai, amiga, que sorte têm esses frankfurtianos! Eles te têm tão perto. Se um vento de sorte soprar, te esbarram e descobrem der beste freund der welt.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Pescando o amor

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Casamento - Adélia Prado