quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ela

Muita, muita, muita, muita saudade dela ...


De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah, como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres, pelos filhos, pelo pão
Depois sorri meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo que a faz assim feliz

Essa mulher - Joyce

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Espelho, espelho meu

Acho melhor quebrar esse espelho, antes que ele me arrebente. Espelho idiota. Vou fazer pedacinhos de você. Caquinhos e mais caquinhos, que vão se espalhar por aí, até sumir, evaporar e, assim, vou ficar livre de mim mesmo. Quem você pensa que é pra me expor desse jeito? Sem dó, sem retoques, sem minha melhor roupa, ou meu melhor sorriso? Você acha que pode mostrar que sou imperfeito, gordo, magro, alto, baixo, insuficiente? Não pode, eu não deixo. Verdade, você me deixa vaidoso, às vezes. Mas é melhor não. Você acaba com a minha vaidade em segundos. Eu vou arrebentar você. Assim, nunca mais vou ter que olhar pra mim. E, ainda melhor, não vou ter que mexer nisso tudo que você me mostra: imperfeições, inadequações, insuficiências. Vou te destruir e tudo vai ficar bem. Mas ... pera lá ... será? Não sei. Agora fiquei inseguro. Você também me mostra tanta beleza! Já sei. Vou virar você pra parede. Até tudo isso passar, até chegar a hora. Será que um dia eu vou me enxergar?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Nostalgia

O vô cuidando das gaiolas dos passarinhos
A vó fazendo bife acebolado
Eu, na cozinha, saboreando o cheiro, espiando o vô piar,
sonhando em voar.

Descompasso

eu que procuro poesia
só encontro arritmia
não será isso a poesia?
um coração sem ritmo
um pensamento sem métrica
o pulso correndo sem veia?

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Pausa

Reparei agora que houve um mês de intervalo entre a postagem abaixo e a anterior. Esclarecendo: blogar requer ar.

Respiro

O dia tá leve e apesar do ar seco, consigo respirar a paz que há muito não me entrava pelas narinas. O sol vem lembrando que a vida é inevitável. Não dá pra evitar viver. Não assim, deliberadamente. A gente, às vezes, se esquece um pouco. Só isso. Mas logo vem uma brisa, um cheiro, um gosto, um olhar certo e tudo volta pro lugar. Mesmo sem sentido algum, tudo fica fácil e simples, como se o simples fosse fácil. E aí, a gente abraça a vida de novo, cheira, aperta, lambe, afaga e se deita no colo dela, sentindo que ela retribui ... desinteressadamente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quase tudo

De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei

Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho


Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso

Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo


Se tudo passa como se explica
O amor que fica nessa parada
Amor que chega sem dar aviso
Não é preciso saber mais nada

(Quase nada - Zeca Baleiro e Alice Ruiz)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Resposta e os meus últimos minutos

Eu não sei se consigo compartilhar o que pensei alguns minutos atrás sendo sintética. Porque nos últimos minutos eu pensei tanta coisa. Se você soubesse. Minha cabeça não para e isso, às vezes, me enfada tanto. Porque eu queria tanto relaxar, não pensar em nada, concentrar minha mente toda numa laranja redonda, meio verde meio amarela, ou numa nuvem que tem forma de orelha de coelho. E eu pensei tanto que tive que parar um minuto e ir até o banheiro enxugar as lágrimas. A Mari já chorou aqui ao meu lado hoje, com saudades da Juju, e eu fiquei pensando que as pessoas são tão solitárias. Tá todo mundo tão deprimido, insatisfeito, querendo fugir, querendo encarar, numa gangorra que não sai do chão, morrendo. Pós modernidade. Eu pensei nesses últimos minutos que eu queria saber mais sobre o que faz a sua alma doer, do que sobre o que você abdica pra estar comigo. Mas não deu tempo de te falar. Porque a minha mente é senhora de mim e, embora ela não se concentre em laranjas e coelhos, se concentra em teimosias que só me fazem sofrer. A minha alma dói tanto também. Será que temos dores parecidas? Me conta onde a sua dói mais? O que você toma pra passar? Sorriso é analgésico de alma? Você gosta tanto de se sentir apaixonante nos meus sorrisos. Nos sorrisos de quem te ama. Ultimamente, você vem usando uma tática infalível. "Pensa no sorriso da Gabi", você diz. E, instantaneamente, todo cinza sai do meu rosto. Mas, às vezes, a alma dói numa proporção que a gente não consegue achar prescrição que dê conta. Você já teve dor parecida? E a cabeça, como é que eu faço ela parar de pensar o que eu não quero? Você sabe que eu sou careta e chá de erva-cidreira não faz efeito pra esse tipo de aflição. Acho que é mais pra susto mesmo. Nesse últimos minutos eu pensei se você tem, pelo menos, quatro objetivos na vida. E eu me sinto tão desnorteada. Não sei em que esquina da vida eu perdi a minha bússola. Nem sei se eu tive uma. O que eu quero, afinal? Eu, tão controladora, sempre querendo as rédeas nas mãos, tô deixando a vida me levar. Mas nada é escolha minha? Só porque eu não cheguei numa mesa de domingo, com a família reunida, e disse: "Eu quero ser feliz". Não, esse não é mesmo um objetivo meu. Mas qual é? Não sei, não sei, não sei. Por que eu não posso não saber? Por que eu tenho que ter objetivo? Eu quero primeiro comprar um sofá pra sala e depois trocar de carro e fazer uma poupança pra gente poder comprar a nossa casa, se finalmente a gente se entender. Eu simplemente não consigo assumir isso como objetivos de vida. A gente vive pra isso? Pra comprar sofá e ter carro bonito e casa própria? Por que eu preciso tanto ter um objetivo? O que eu queria é ter missão. Missão é incontestável. E tudo isso passou pela minha cabeça nesses últimos minutos. Por que tá todo mundo triste do meu lado e eu não consigo fazer nada? Por que eu continuo assistindo ao noticiário, me convencendo de que acabou o meu idealismo? Eu não tenho resposta pra nada disso. Será que eu faço mestrado, arranjo um emprego público, tenho um filho, ou espero o que vier primeiro? O barco tá correndo e eu não sei pra onde remar. Tô só tocando pra ver se o mar me navega, como na canção do Paulinho. Que decida minha próxima parada. E eu fico triste que seja assim. Eu não quero e a alma dói. Será que eu vou me esforçar cada vez mais pra ver sentido no pragmatismo desse mundo? E vou te cobrar o que todo mundo (esse todo mundo que você abomina) acha que é bom, bonito e certo? Porque o que eu queria mesmo era ver sentido só em coisas como esse sonho que a gente teve juntos essa madrugada. Porque as almas são mesmo incomunicáveis e quando a gente cala, tudo se enche de sentido. E eu queria poder te dizer outras tantas coisas que só devem fazer sentido pra mim, porque a minha cabeça continuou processando, enquanto meus dedos teclavam. Eu queria te dizer que tudo o que eu mais quero é encontrar sentido pras coisas. Seja um sentido prático, psíquico ou espiritual. Mas será que alguma coisa faz sentido? Por que algumas pessoas percorrem tantos caminhos pra descobrir isso, enquanto eu só consigo me enlaçar com meus próprios braços, como eu estava ontem, quando você se deitou do meu lado e tentou achar uma brecha pra me dar carinho? Eu só quero poder dizer que eu não sei, sem me sentir tão culpada, tão frustrada comigo mesma. Mas talvez um dia eu consiga achar algum sentido, sim. Talvez, antes, eu precise chegar na mesa do domingo e dizer "o meu bjetivo é ...". E aí eu vou persegui-lo e chegar feliz, lá na linha de chegada. Então, talvez, eu consiga pensar só na laranja, redondona, de pele brilhante, rindo pra mim. Talvez eu consiga respeitar seu milímetro mais recôndito. Talvez eu consiga te amar sem comparar com o quanto você me ama. Mas onde é que tá doendo? Por que você não chora um pouco? Você não precisa deixar isso pra trás. Eu também tenho muito medo. E você tem razão. A gente não tem mesmo que contar tudo um pro outro. Nem sobre descobertas fantásticas, nem sobre medos tolos. Acho que a gente deve se comunicar pelos sonhos. Talvez um dia a gente assista à novela juntos e se pergunte quem é o galã que tá beijando a mocinha, que trabalhou naquela novela das sete, fazendo par com a atriz que morreu, como meus avós faziam. Porque pensar a vida com você me dá a única certeza que eu tenho. Isso nunca vai sair daqui de dentro. Mas uma hora eu aprendo a viver comigo e paro com essas DRs internas, que me exaurem tanto. E então minha cabeça vai ficar tão leve e tão vazia, que vai caber uma nuvem com orelha de coelho dentro. Ah, eu não posso esquecer. Eu amo você.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Um estranho comum

Ele apanhou na infância. Abuso moral. O pai dizia que ele era feio, que seu nariz era medonho. Ele não tinha coragem de se olhar no espelho. Pra não ver as espinhas, não acendia as luzes, enquanto lavava o rosto. O nariz grosseiro, a pele negra, o cabelo ruim. Todo ele um transtorno absoluto. E ainda criança, quando devia estar nos parques ou ruas, brincando de esconde-esconde, pega-pega ou barra-manteiga, precisou trabalhar em regime rigoroso. Mais uma imposição do pai carrasco. Tudo isso fez dele um complexo de inferioridade ambulante. Tímido, ensimesmado, autoestima rebaixada, sabe-se lá quantas outras neuras e traumas, dos quais ele não conseguiu se ver livre, mesmo sendo uma das pessoas mais populares do mundo. Uma das pessoas mais sozinhas do planeta. Será? Será mesmo? O que sabemos sobre ele, além da pele que embranqueceu de repente, do corpo que sumiu, do nariz que afinou, dos meninos com ele brincou já adulto? O que a mídia nos contou sobre ele? Para além do demerol, do rancho da fantasia, das dívidas, dos casamentos arranjados, de uma vendagem recorde de discos? Ninguém sabe nada sobre esse moço que morreu. Porque essa pessoa que definhou publicamente, sem alternativa, era um moço qualquer. Um desconhecido. Alguém que sofreu por se olhar no espelho e não gostar do que viu. Alguém que se sentiu rejeitado tantas vezes, que desconfiou de quem se aproximou verdadeiramente. Alguém que podendo (e pôde), negou a realidade e criou um mundo cor-de-rosa, pra tentar (desafortunadamente) se trancar nele. Alguém que não conseguia dormir, com o peito abafado pela angústia. Esse moço que morreu era indefinível, múltiplo, incompleto. Tão humano, tão ordinariamente comum, que o mundo não o aceitou. O mundo não tolera que as pessoas sejam comuns. Ainda mais se elas tiverem um talento notável. Excêntrico? O que há de excêntrico na dor, no sofrimento, na inadequação, na autorejeição? O que há de excêntrico, se é dessa massa atormentada que somos feitos? Excêntrica era a máscara (a de pano, não a do sorriso forçado, tão exibido aos paparazzi de plantão do mundão), a luva, a dança, a vida? A vida desse moço parecia estar mesmo fora do centro, excedendo para os lados, como excede, muitas vezes, em todos nós. Seguramos ou não. Conformamos e impedimos ou não que esse excesso transborde. Num precipício, num ataque cardíaco, num recomeço. Na morte. Morte, muitas vezes, que é só excesso de vida.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Esclarecendo


Por quê?


Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

Drummond

terça-feira, 16 de junho de 2009

Desenredo

Essa deve ser a quinta vez que eu tento te escrever alguma coisa, nesses últimos dias. Pensei em escrever sem censura, pra ver se rola ... pra fora. Hoje, tudo o que eu queria era ter leitor de código de barras tatuado em alguma parte do corpo. Pra que você, num lance quase inédito de interesse de descoberta, me decodificasse, sem que eu tivesse que dizer nada. Sem que eu tivesse todo esse desgaste. Nossa, que desgaste! Tô sentindo a alma frouxa, quase descolada de mim. Como é que a gente sabe que a alma tá frouxa? Quando a gente anda por aí, sem sorriso na cara, num passo arrastado, coração pesando toneladas ... E aí a gente renuncia, volta atrás, tenta, tenta, tenta ... "Tenta o quê?", você perguntaria. Tenta brincar de ser feliz, tenta não fazer nada errado, nada que desagrade, nada que esteja fora do script desejado, mas ... quem disse? A vida real é muito maior; seus enredos, complicados; seus personagens reais, muito mais complexos do que se pode pretender. É interessante a relação de perspectiva, não é? Afinal, o que é tolerar, aceitar o outro como ele é? É nunca dizer "mude", "não faça", "não vá"? Ou é respeitar, sobretudo, seus sentimentos mais mesquinhos, feios, contraditórios? Eu sempre encarei com alguma facilidade a frustração do desamor, ou do amor que não era amor. Mas essa frustração de amor tá tão difícil! Na minha lógica colegial, pensei que amar amando seria bálsamo, remédio, cura pra tudo quanto é doença e ferida dessa vida. Foi muita ingenuidade mesmo. Inexperiência, coisa de amador. Ignorar a senhora convivência, essa que nos reflete no outro, escancaradamente, para que saibamos quem somos de verdade e, principalmente, quem não gostaríamos de ser. Essa insana que testa nossos limites mais extensos, que vai até o nosso limbo e liberta todos os nossos monstrinhos, antes tão bem escondidos. O amor, ao contrário, nos faz querer, insistir, odiar, recuar e querer de novo. Por quê? Por tudo aquilo que vai ficando perdido, pelo caminho, aliás, vai ficando no limbo, no lugar dos monstrinhos: o encanto, a ternura, o olho brilhando, as mãos dadas, a flor inesperada ...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Triste

Triste é não chorar
Sim eu também chorei
E não, não há nenhum remédio
Pra curar essa dor
Que ainda não passou
Mas vai passar!
A dor que nos machucou
E não, não há nenhum relógio
pra fazer voltar... O tempo voa!

Triste é não chorar
Sim eu também chorei
E não, não há nenhum remédio
Pra curar essa dor
Que ainda não passou
Mas vai passar!
A dor que nos machucou
E não, não há nenhum relógio
pra fazer voltar... O tempo voa!

Eu não suporto ver você sofrer
Não gosto de fazer ninguém querer riscar o seu passado
E o que passou, passou
E o que marcou, ficou
Se diferente eu fosse será que eu teria sido amado?
Por você, por você

Nando Reis - Ainda não passou

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Ocupação

Que invasão é essa?
Esse espaço sempre foi tão meu,
de repente se perdeu, esqueceu-se de ser só,
vazio, cheio de mim mesma
sem espaço pra mais um.
Sufoco. Aperto.
Aqui não cabe mais ninguém.
Nesse latifúndio eu sempre me perdi sozinha.
Sai daqui.
Por favor, não força, não empurra
Aqui não cabe, nunca coube.
Vai pra lá. Desgruda. Desembrenha.
Você já me tem inteira,
pra que me fazer metade, sem essa parte?
Daqui eu não abro mão.
Não encosta mais, não.
Eu quero respirar, me achar
Onde é que eu fui parar?

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O trabalho

Ela estava enlouquecida, destroçada, desorientada. Não comia, não trabalhava direito, não asssistia ao noticiário. Só queria uma coisa: que ele voltasse. E com aquela sua força anêmica, faria o que fosse para tê-lo de novo. Mariana era doce. E brava. Seus 27 anos haviam lhe ensinado pouco sobre o amor. Mas ela não queria aprender, só queria viver. Com ele, pra ele, por ele. Carlos chegou num domingo, meio sem jeito, logo pela manhã e sem beijá-la disse: “Não dá mais”. Ela não entendeu, não poderia jamais entender, e replicou: “O que não dá mais, meu amor?”. “Eu e você. Não dá mais. Adeus.” Paralisada, ela deixou que ele atravessasse o corredor, abrisse o portão e saísse. Um grito percorreu-lhe a espinha. Não saiu pela garganta. Tentou o celular; ele voltaria e explicaria aquele disparate. O aparelho estava programado para não receber suas ligações. A porta da casa dele não mais se abriria para ela. Mandou emails, cartas. Nenhuma resposta. Fez plantão na porta da empresa e ele não pôde fugir. “Estou apaixonado por outra, estamos juntos. Não tem volta.” O grito contido, dessa vez, saiu. Junto com tapas, socos, saliva, palavrões, lágrimas, muitas lágrimas. Ele tentou detê-la, mas vendo que era impossível, se esquivou e a deixou só, com todo o seu ódio, sua decepção, seu amor. A família de Mariana não sabia mais como implorar pra que ela parasse de se rastejar por aquele maldito homem, que a roubara de todos. Sua mãe fazia novenas, rezas, simpatias. Ela mesma apelou para o sobrenatural. Foi num mandingueiro que prometia trazer a pessoa amada de volta, em 24 horas (se fosse da Grande São Paulo, claro). Mais de 24 semanas se passaram e Mariana era só lamento, amargura, saudade. Não entendia por que o queria tanto, mas sabia que não desistiria. Uma amiga que morava no exterior a convidou para uma temporada. Novos estudos, novas pessoas, quem sabe um novo amor. Nada a dissuadia. Era ele, Carlos, o homem com quem fez os planos mais lindos da sua juventude, que lhe mandava flores em datas especiais, que pegava seus sobrinhos no colo, o seu único e possível desejo. No terreiro de Mãe Zezinha, os búzios alertaram: “Você é filha de Iemanjá, ainda vai sofrer muito de amor!” Mariana foi ao mar, levou flores brancas, pulou as sete ondas e pediu a sua mãe que tivesse compaixão dela, que devolvesse o seu homem. Iemanjá talvez estivesse muito ocupada. Carlos foi à polícia dar parte de Mariana. Não suportava mais suas perseguições, ameaças, sua falta de amor próprio. No início, ele ainda sentiu-se envaidecido. Mas agora tinha mesmo muita raiva dessa desvairada que não o deixava andar com sua Ritinha pelo parque, impunemente. Se Iemanjá não a ajudava, só restava a Mariana solicitar socorro a uma entidade mais mundana. De volta ao terreiro de Mãe Zezinha, deixou tudo acertado: o despacho seria à meia-noite, da próxima sexta-feira, dia 13. Ela não entendeu por que a entidade havia exigido que fosse numa encruzilhada daquela zona de meretrício. Pouco importava. Iria até o inferno se lhe garantissem o sucesso da empreitada. Rosas vermelhas, perfume de gosto suspeito, cigarrilha, uma calcinha fio dental preta, saia rendada, champagne em uma taça colorida, pulseiras douradas. Estava tudo pronto, distribuído exatamente como mãe Zezinha orientava. “Agora fuma e bebe, minha filha. Foi isso que Maria Padilha mandou”. Mariana, mais uma vez, assentiu, sem questionar. “Sente o perfume da flor, põe a saia e gira sete vezes", ordenou a senhora. Terminado o ritual, Mariana deixou as oferendas e foi para casa. No dia seguinte, acordou sentindo-se estranhamente bem. Saiu da cama com um sorriso malicioso nos lábios, e depois de um banho de cheiros que ela não conhecia, pegou no armário um vestido curto, intato. Dispensou o sutiã e encaixou os seios pequenos, mas rijos, no decote. Salto alto e batom vermelho. Ao vê-la sair, a mãe perguntou se ela teria alguma festa naquele dia. Sem responder, soltou uma gargalhada estridente. Sentiu-se arrebatadoramente sensual. Os olhares que a seguiam até o ponto do ônibus comprovavam. O sorriso malicioso não saía dos lábios. Os olhares masculinos não desgrudavam do decote. Sem ódio ou saudade, seu coração estava limpo. Seu corpo estava tomado de desejo. Poucos dias se passaram e, sem que Mariana se lembrasse mais daquela encruzilhada, Carlos a procurou. Seguro, deixou recado em sua casa, para que ela retornasse. Mariana deu de ombros, quando a mãe, palpitante de felicidade, lhe contou sobre o milagre daquela aparição. Ninguém entendia nada. Do mesmo jeito que havia definhado de tristeza, Mariana agora desabrochava de beleza e vigor. Sua pele exalava cheiro de fruta, terra, mar, tudo misturado. Carlos a chamou no celular. Indiferente, Mariana não o atendeu. Também mandou bombons finos, que ela distribuiu entre as vizinhas de baia. Por fim, magro, abatido, desesperado, esperou-a no portão por onde havia saído há oito meses. Mariana não pôde fazer nada; não quis fazer. Mandou-o embora, sem sintoma de rancor ou piedade. Estava ocupada demais para recordar amores juvenis.


Devorando todos os homens que a encaravam com firmeza, ela, finalmente, o enterrou. Ainda lembrou do Carlos, certa vez. Na cama de um de seus amantes mais vorazes, primo do falecido, foi questionada sobre o fim daquela relação. Soprando a fumaça do cigarro para cima, olhar sacana, sentenciou: “Ele era broxa”.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Autorretrato

Aderindo a uma brincadeira que andei bisbilhotando em blogs alheios, fiz o meu mosaico de definições.

Se eu fosse um lugar, eu seria ...

PRAIA DE IPANEMA

Se eu fosse um mês do ano, eu seria ...

SETEMBRO

Se eu fosse um dia da semana, eu seria ...

SEXTA-FEIRA

Se eu fosse um período do dia, eu seria ...

NOITE

Se eu fosse uma direção, eu seria ...

ADIANTE

Se eu fosse um divertimento, eu seria ...

RODA DE SAMBA

Se eu fosse um líquido, eu seria ...

ORIGINAL GELADA

Se eu fosse uma pedra, eu seria ...

QUARTZO ROSA

Se eu fosse uma árvore, eu seria ...

IPÊ-AMARELO

Se eu fosse uma flor, eu seria ...

GIRASSOL

Se eu fosse um instrumento musical, eu seria ...

CUÍCA

Se eu fosse uma cor, eu seria ...

VERDE

Se eu fosse um tempero, eu seria ...

PIMENTA MALAGUETA

Se eu fosse um bicho, eu seria ...

CACHORRO VIRA-LATA

Se eu fosse um livro, eu seria ...

CEM ANOS DE SOLIDÃO

Se eu fosse uma personagem, eu seria ...

CAPITU

Se eu fosse uma comida, eu seria ...

TORTILLA DE PAPAS

Se eu fosse um objeto, eu seria ...

LUMINÁRIA

Se eu fosse um filme, eu seria ...

O TEMPERO DA VIDA

Se eu fosse um gesto, eu seria ...

ABRAÇO

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Especialistas

Fui à podóloga. "É a primeira vez?", perguntou-me animadamente a especialista. "Sim", respondi com breve sorriso apavorado. "Vc vai amar!", ela garantiu. Não queria mesmo decepcioná-la, mas, no meio da sessão, eu, que sou resistente à dor, pedi PELAMORDEDEUS pra ela parar de cavucar a unha que eu julgava encravada. Segundo a carrasca de jaleco, minha unha não estava encravada, mas afunilada, e, para salvá-la, só mesmo uma órtese. Uma o quê? É, órtese, igual aparelho para desentortar os dentes, só que para desentortar unhas. Que lindo! Minha sofrida unha vai ganhar adereço. O mais curioso é a causa: "VOCÊ NÃO SABE CORTAR A UNHA", sentenciou a fofa. Ah, não?! Meses atrás, no dentista, eu reclamava de umas formações escalonadas em alguns dentes, espécies de degraus, e a resposta foi algo igualmente frustrante e surpreendente: "VOCÊ NÃO SABE ESCOVAR OS DENTES. VOCÊ OS ESFREGA DEMAIS E ISSO DESGASTA E FORMA OS DEGRAUS". Ah, falou! E eu ainda quero ter filhos. Como, se eu não sei nem cortar as unhas, nem escovar os dentes?!?! Vou ensinar o que pra uma criança? Regra de três composta? Verbos irregulares? Tabela dos elementos químicos? Tá complicado. Pensei em marcar oftalmologista e otorrinolaringologista. Quem sabe eu não esteja vendo e ouvindo direito. Aí vai ficar fácil!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Um casal

Rigoberto e Risoleta vivem juntos. Há pouco tempo. Mas é antiga a reclamação de Rigoberto acerca do suposto fato de que Risoleta reclama muito. De tudo. Ele reclama que ela reclama e ela reclama que não reclama. A reclamação de ambos está certa. Ou errada. Depende de quem é o reclamante e quem é o reclamado. Risoleta, às vezes, pensa que reclama demais. Nunca tinha pensado no assunto até que começou a viver com Rigoberto e ele veio com a reclamação: “Você só reclama!”. Risoleta reclama, quer dizer, se chateia, porque Rigoberto larga os sapatos e as roupas em lugares não combinados, come a comida antes de ela finalizar o jantar e não pergunta sobre o seu trabalho. Tudo leva a crer que eles estão cada dia mais parecidos com um casal. E, pelo andar da carruagem, a reclamação de que um reclama do outro vai longe. Nessas suas reflexões sobre se Rigoberto está ou não equivocado sobre o seu excesso de reclamação, Risoleta reclama consigo mesma: “Isso é injusto. Ninguém nunca reclamou que eu reclamo”. Para Rigoberto ele é quem está certo em sua concepção de mundo. Nunca reclama de nada. Imaginou, aos sete anos de idade, um mundo em que todas as pessoas tinham casas. Cresceu vendo que não era bem assim. Mas não faz mal. Quando tem trocados, os distribui fartamente aos meninos do farol. Quando não tem, abre o vidro pra se desculpar e tentar um escambo: “Não tenho a moeda, mas leve esse sorriso”. Risoleta diz (apenas diz e não reclama) que a atitude dele não irá resolver o problema da má distribuição de renda e, muito menos, garantirá um futuro digno aos pequenos pedintes. Mas, lá no fundo, e pelo peso que lhe cai sobre a consciência por não fazer nada melhor, aprova a caridade torta de Rigoberto. Rigoberto também não reclama dos operadores de telemarketing, que vão estar se ferrando com o tal cadastro de proibição. E nunca, jamais, reclama de Risoleta. Quer dizer, só reclama que ela reclama, mas aí é a antiga reclamação. Rigoberto é cientista social, então, se é contra o status quo, o trânsito de São Paulo, os países que não assinam o protocolo de Kyoto ou a lei antifumo, ele contesta. Politicamente. Com argumentos pesados, em todos as acepções que a palavra reserva. Risoleta, que sempre foi diplomática, compassiva (pra usar um termo que Rigoberto gostaria), polida, anda mesmo com vontade de chutar o pau da barraca. Encontrou alguém cuja tolerância faz dela, que se julgava a complacência em pessoa, uma general do Terceiro Reich. E a cada concessão que seu amado faz por aí, ela fica mesmo com mais e mais vontade de reclamar, intransigir, emputecer e adiar para sempre o seu Nobel da Paz particular. Rigoberto não aceita. Acha que Risoleta está insatisfeita com tudo e com ele, especialmente. Como alguém pode estar insatisfeito com ele? Ele, que nunca reclama de nada, quase um embaixador da paz mundial! Isso é uma afronta pessoal! Risoleta tem certeza de que não é. E o acha vaidoso. Ela não se acha dona da razão, pelo contrário, tem dias em que faz questão de abrir mão de qualquer razão. Só pra poder gritar e xingar e ser uma pessoa de verdade. É certo que entre reclamações, tem havido ótimas confraternizações entre os impugnantes. Tomara que não cheguem ao tribunal.

P.S.1: Risoleta e Rigoberto são nomes fictícios e preservam a identidade dos reais personagens dessa trama.
P.S.2: Essa história pode vir a ter continuação.

terça-feira, 31 de março de 2009

Às vezes, encontro coisas tão parecidas com o que eu sinto, que me assustam.

O dia nasceu tão vibrante, com um brilho no olho das janelas que não deu: lembrei-me de minha avó, a Maria de Jesus. Vó do céu, que saudade, meu colo mais vibrante, a gargalhada que me fazia cócegas. Um amor desse, minha gente, um amor desse um dia perde o corpo e você não o ouve mais. Vou regar o jardim, que precisa de água, e caso você possa abraçar sua avó, diga que eu a amo também.

(Andréa del Fuego)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Hoje

Para T,

Hoje é um dia especial. Ia dizer importante, mas acho que o que importa mesmo é ser especial. E nessa profusão de informação que me entope o peito de ansiedade, não vou conseguir reunir as palavras certas pra te dizer por que estamos dando esse passo juntos. Na verdade, eu sei por quê: porque eu amo nosso amor. E por que eu amo nosso amor? Vou emprestar as palavras da Marla.

Porque você chegou assim
Derramando poesia em mim
Inaugurando meu caderno
De pressentimentos bons

Por todas as noites e tardes
E amanheceres intensos
Pelos longos dias que passaram rápido
Pela história de prosperidade incerta
Mas de tanta inteireza e entrega
Eu te guardo na lembrança mais bonita

(Por todas as páginas que vestimos pra nos desnudarmos)

Meu menino bom
Meu poeta particular
Meu amante voraz
Por você se derramar
Até eu ficar molhada
Jamais esquecerei tuas incandescências
E esse amor que acendeu em mim
Novas exuberâncias

E se nunca havia me comprometido com tanta certeza
É porque eu tentava caminhar onde não havia espaço

(E no seu abraço eu encontrei o caminho mais perfeito pro meu próximo passo)

Marla de Queiroz


P.S.: Nunca vou esquecer que você me incentivou a ler "Mulheres", do Galeano. Meu melhor presente dos últimos tempos. E eu não ligo de chorar no metrô.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O balanço

O amor fica nesse vai-e-vem
Pra lá e pra cá
Pra cá e pra lá
Vontade de deixar ir
E se ele não voltar?
Preguiça desse balançar

Volta aqui, amor
Deita no meu colo
Tira o frio da minha pele
Me embala com vagar
Medo desse balançar

Será que cai?
Será que vai?
Pra não voltar?
Volta aqui, amor
Se balançar demais
Meu coração pode escapar

Escapa, não
Não tem vazão
Balança pra lá, balança pra cá
Gira, cambaleia
Suspende, repousa e se arrima
No riso desse teu olhar

terça-feira, 10 de março de 2009

Dia D

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

(Valsinha - Chico Buarque)

quinta-feira, 5 de março de 2009

?

“Pra onde vamos?” Achei que essa fosse a pergunta. Pra uma casa grande, um apartamento menor, um, dois quartos, uma casinha com espaço pra roseira, um canto pro cachorro? Estava apreensiva e feliz. As minhas, as suas coisas, adiante as nossas, e assim nos arranjaríamos com os nossos sonhos, dificuldades e certezas. De repente, essa sentença ficou grande demais. Perdeu sua convicção por esse chão árido da convivência e ganhou força apenas na dúvida: Vamos??? Eu era assim, você assado, eu fazia aquilo, você não fazia isso. Éramos dois estranhos: perfeitos um pro outro! Nada mais natural do que planejar uma vida inteira juntos, pra caber toda vontade dos nossos olhos ávidos e encantados. Com todos os meus pés no chão, e alguns atrás, escolhi me apaixonar por você. Por você? E quem era você? E você? Por quem se apaixonou? Estamos apaixonados pelas pessoas que somos, que fomos, que seremos? Existencialismo, agora, talvez não ajude muito. Só queria te dizer que há muito não sonho com príncipes. Nunca tive muita paciência pra contos de fadas. Fantasia, pra mim, sempre perpassou a humanidade que não cabe nas fábulas. Gosto mesmo é daquele alumbramento de que falou o Bandeira. Mas aí é quase revelação e não se pode questionar muito. Somos inquietos demais; nisso nos parecemos. Você, menos aventureiro, quer garantias. Eu, sempre, sempre e sempre, teimosia tatuada na alma, querendo ver o que é que tem lá na frente, o que é que vai ser. Será??? Tudo complicou quando eu decidi que não ia dar bola pra esse tal de destino. De lá pra cá, a única maneira de conhecer o final de uma história é chegando na última linha do último capítulo. Claro, não é persistência gratuita. É quase uma saudade antecipada me imaginar sem esse carinho que você me faz com o dorso da mão. Será que a gente já se conhece tanto pra dizer que não? Ou precisamos nos conhecer ainda mais pra dizer que sim? Aquele sim que a gente disse quando só sabia da delícia de uma recém-descoberta. Eu queria mesmo é que fosse lindo e simples como prometemos. Apenas aquele amor feinho da saudade roxa, multicolorida. Tentamos? Continuamos? Sim, eu quero.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Dores, saudades, remédios

Eu precisei tanto de você. Do seu colo, seu afago, de você me levando na benzedeira pra tirar tudo de mau que havia dentro de mim. Ai, como eu queria que você estivesse aqui e que toda essa dor pudesse passar com água benta e um sinal da cruz feito por uma mão enrugada. Fez dois anos que você se foi. Me deixou órfã do amor mais terno que eu já tive na vida. Um amor que pedia um abraço macio, uma barra de saia e paciência infinita ... É verdade que, antes de você ir, já fazia tempo que eu não tinha mais a intimidade e o tamanho do aconchego dos seus braços cansados. Mas a sua presença me acolhia. Era olhar pra você e trazer de volta tudo aquilo ... Você não dizia nada, mas eu sabia. Hoje, o que eu sei é que saudade assim não dói todo dia. Mas quando dói, abre o peito da gente e se mistura a outras dores residentes. Eu pedi tanto. E sabia que você não faltaria. Aquele machucado no joelho, tão inflamado, foi você quem cuidou. Eu tive certeza que só um curativo feito por você me acalmaria essa inflamação de agora. Obrigada por embalar meu sono mais uma vez.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Odoyá!

Iemanjá, Iemanjá
Iemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
Iemanjá é muita tristeza que vem

Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De Iemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar

Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir Iemanjá

A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além do que o fim do mar
Bem mais além

Canto de Iemanjá (Baden e Vinícius)

Singelo

Para T

eu queria te escrever bonito
porque feio já escreve todo mundo
mas se eu sou parte do mundo que é todo
do mundo que é lindo
como pode ser feio o que tenho no fundo?
como pode ser bobo o que tenho no todo?
só pode ser lindo o amor que te tenho
só pode ser todo o que vive no fundo

eu queria te escrever bonito
pra esse amor nunca faltar no teu mundo

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Escolhas

Eu vou torcer pela paz
Pela alegria, pelo amor

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Pelo inverno, pelo sorriso
Pela primavera, pela namorada
Pelo verão, pelo céu azul
Pelo outono, pela dignidade
Pelo verde lindo desse mar

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Eu vou torcer pela paz
Pela alegria, pelo amor

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Pelas coisas úteis
Que você pode comprar
Com dez reais
Pelo bem estar
Pela compreensão
Pela agricultura celeste
Pelo meu irmão
Pelo jardim da cidade
Pela sugestão
Pelo amigo
Que sofre do coração

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Eu vou torcer pela paz
Pela alegria, pelo amor

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Om shanti, shanti shanti
Hari Om

Eu vou torcer pela paz
Pela alegria, pelo amor

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Eu vou torcer pela paz
Eu vou torcer pela paz

"Eu vou torcer pela paz
Pelo amor, pela alegria
Pelo sorriso
Eu vou torcer pela amizade
Pelo céu azul, pela dignidade
Pela tolerância, pela natureza
Pelos meninos, pelas meninas
Por mim, por você
Eu vou torcer! Eu vou torcer!"

(Eu vou torcer - Jorge Benjor)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Oferta

Eu pensei que fosse fácil amar. E que difícil era não ter em quem me enroscar em tardes de chuva. Achei que o amor fosse doce. Porque o amargo da solidão eu tinha na ponta da língua. Pensei uma vida de sonho, uma casa irreal, onde coubessem um mais um, o cachorro amarelo e o almoço na mesa. O próprio comercial de margarina. Desejei entendimento, beijos apaixonados, sexo sem tédio, filhos a médio prazo. Abri mão do espaço que sobrava na minha cama, pra acomodar uma velhice de mãos dadas. Dei minhas mãos pra vida faz tempo. E agora, dei meus sonhos pra você. Mas você não quer sonhar os meus sonhos; prefere mastigar meus pensamentos, revirar meus sentimentos e eu pergunto: com que direito? Com que direito retorce os meus desejos, achados, quereres? Como chega com esse cheiro, esses dedos, tão sem medo, e desliga a minha fantasia? Eu nem sabia que era fantasia. Acreditei no impossível. Mas você veio cheio de raiva, amor, ternura, melancolia, dor e verdade, e despejou sua humanidade no meu cotidiano de espera. Sem a menor cerimônia, escava minhas feridas adormecidas com a displicência com que espreme os cravos da minha pele. Reverte os meus planos; os planos que fiz comigo mesma, sem levar em conta o que podia dar errado. E eu sinto falta da minha cama vazia, de me esconder dentro de mim, de ser alguém que espera e espera, sem se importar pelo quê. Sinto falta das perguntas que eu me fazia, porque meu silêncio sempre foi da boca pra fora. Indiferente, você muda minhas perguntas, questiona o meu discurso, faz com que eu ria de mim mesma. E me faz ver que o amor nem sempre é bonzinho, limpinho, bonitinho, asséptico. O amor tem vísceras e sangra. Enlouquece, suja e marca. Era isso que eu não sabia. E agora que eu sei, continuo querendo te amar. Mas, afinal de contas, com que direito você sai da minha cama, no meio da noite, reivindicando liberdade? Justo você que roubou minha guerra solitária, minha paz de mentirinha?! Continuo querendo te amar. Com que direito você faz meu peito sufocar, amar e odiar, num mesmo instante, sem nenhuma contradição? Continuo querendo te amar. Você não quer tanto saber o que eu penso? Com que direito? Com que direito quer invadir meus escombros, retirar, grão por grão, tudo isso que me preenche? E o que não enche? Meus abismos, quer pra você? Meu fosso, meus assombros, minhas náuseas? Isso eu jamais te darei. Fique com meu amor. Essa é a oferta do dia.

domingo, 4 de janeiro de 2009

É tão bonito ...

Para T

O meu coração hoje tem paz
Decepção ficou pra trás
Eu encontrei um grande amor
Felicidade enfim chegou
Como o brilho do luar
Em sintonia com o mar
Nessa viagem de esplendor
Meu sonho se realizou
A gente se fala no olhar, no olhar
É água de chuva no mar, no mar
Caminha no mesmo lugar
Sem pressa, sem medo de errar
É tão bonito, é tão bonito o nosso amor
A gente tem tanto querer, querer
Faz até a terra tremer, tremer
A luz que reluz meu viver
O sol do meu amanhecer
É você

(Água de Chuva no Mar - Beth Carvalho)

Ano Novo

Não sou afeita a retrospectivas e não foram poucos os sacolejos do ano que dorme em paz. Quase tudo que eu vivi está aqui, em poucas palavras, escondido ou revestido nas cores que eu enxerguei: rupturas, perdas, encerramentos, sustos, conquistas, um grande amor. Vou deixar 2008 descansar suas turbulências e desejar que este novo ciclo seja benfazejo para todos nós.


E, como não poderia deixar de ser, faço minha lista de desejos para 2009:


- infinitos sorrisos da Gabi
- milhares de beijos do Thi
- infindáveis conversas com a Iá
- encontros regados de alegria com a Kel
- passinhos de dança do Gu
- todos os amigos que puderem chegar
- a cumplicidade da Ni
- praias novas e as revisitadas
- livros
- poesia
- samba, suor e cerveja
- tempo
- Sampa sem trânsito
- sonhos
- trabalho
- vinho no frio
- sonhos em realização
- confraternização
- todo o amor que houver nessa vida