quinta-feira, 9 de abril de 2009

Um casal

Rigoberto e Risoleta vivem juntos. Há pouco tempo. Mas é antiga a reclamação de Rigoberto acerca do suposto fato de que Risoleta reclama muito. De tudo. Ele reclama que ela reclama e ela reclama que não reclama. A reclamação de ambos está certa. Ou errada. Depende de quem é o reclamante e quem é o reclamado. Risoleta, às vezes, pensa que reclama demais. Nunca tinha pensado no assunto até que começou a viver com Rigoberto e ele veio com a reclamação: “Você só reclama!”. Risoleta reclama, quer dizer, se chateia, porque Rigoberto larga os sapatos e as roupas em lugares não combinados, come a comida antes de ela finalizar o jantar e não pergunta sobre o seu trabalho. Tudo leva a crer que eles estão cada dia mais parecidos com um casal. E, pelo andar da carruagem, a reclamação de que um reclama do outro vai longe. Nessas suas reflexões sobre se Rigoberto está ou não equivocado sobre o seu excesso de reclamação, Risoleta reclama consigo mesma: “Isso é injusto. Ninguém nunca reclamou que eu reclamo”. Para Rigoberto ele é quem está certo em sua concepção de mundo. Nunca reclama de nada. Imaginou, aos sete anos de idade, um mundo em que todas as pessoas tinham casas. Cresceu vendo que não era bem assim. Mas não faz mal. Quando tem trocados, os distribui fartamente aos meninos do farol. Quando não tem, abre o vidro pra se desculpar e tentar um escambo: “Não tenho a moeda, mas leve esse sorriso”. Risoleta diz (apenas diz e não reclama) que a atitude dele não irá resolver o problema da má distribuição de renda e, muito menos, garantirá um futuro digno aos pequenos pedintes. Mas, lá no fundo, e pelo peso que lhe cai sobre a consciência por não fazer nada melhor, aprova a caridade torta de Rigoberto. Rigoberto também não reclama dos operadores de telemarketing, que vão estar se ferrando com o tal cadastro de proibição. E nunca, jamais, reclama de Risoleta. Quer dizer, só reclama que ela reclama, mas aí é a antiga reclamação. Rigoberto é cientista social, então, se é contra o status quo, o trânsito de São Paulo, os países que não assinam o protocolo de Kyoto ou a lei antifumo, ele contesta. Politicamente. Com argumentos pesados, em todos as acepções que a palavra reserva. Risoleta, que sempre foi diplomática, compassiva (pra usar um termo que Rigoberto gostaria), polida, anda mesmo com vontade de chutar o pau da barraca. Encontrou alguém cuja tolerância faz dela, que se julgava a complacência em pessoa, uma general do Terceiro Reich. E a cada concessão que seu amado faz por aí, ela fica mesmo com mais e mais vontade de reclamar, intransigir, emputecer e adiar para sempre o seu Nobel da Paz particular. Rigoberto não aceita. Acha que Risoleta está insatisfeita com tudo e com ele, especialmente. Como alguém pode estar insatisfeito com ele? Ele, que nunca reclama de nada, quase um embaixador da paz mundial! Isso é uma afronta pessoal! Risoleta tem certeza de que não é. E o acha vaidoso. Ela não se acha dona da razão, pelo contrário, tem dias em que faz questão de abrir mão de qualquer razão. Só pra poder gritar e xingar e ser uma pessoa de verdade. É certo que entre reclamações, tem havido ótimas confraternizações entre os impugnantes. Tomara que não cheguem ao tribunal.

P.S.1: Risoleta e Rigoberto são nomes fictícios e preservam a identidade dos reais personagens dessa trama.
P.S.2: Essa história pode vir a ter continuação.

Um comentário:

Iara disse...

A reclamação é uma forte herança judaico-cristã. Quem não reclama não vai para o céu.....rsrsrssr.