segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Indignação

Essas eleições estão me deixando tão de bode, que já tô contando os minutos pra chegar o dia três de outubro. E nem tem nada a ver com os Tiriricas da vida, não. Quer dizer, tem também, mas este nem é o motivo principal. O fato é que nesses tempos de redes sociais, mesmo que você não queira, não há como fugir: as opiniões se escancaram e, com elas, julgamentos de valor, ranços, pedantismo, arrogância e, principalmente, preconceitos. Contatos afirmando não conhecer ninguém com nível superior que seja eleitor de Dilma Rousseff e, ao mesmo tempo, que o Nordeste em peso, devido à sua falta de cultura e educação, irá votar nesta candidata. Há até aqueles que extrapolam todos os limites e fazem "piadas", dizendo que nordestino não vota no Serra porque este prometeu dar emprego para todo mundo. Alguém riu, aí? Que pena! Muito triste fazer anedota com um dos mais graves problemas sociais do nosso País; problema, aliás, que graças a um nordestino que enfrentou a falta de oportunidades e migrou quilômetros em um pau-de-arara, começou a ser tratado com respeito, recursos e, mais do que isso, com carinho. Este post não é pra ser, de forma alguma, apartidário. Afinal, não tenho por que esconder minha preferência política, sendo que a defendo sem ofender ninguém, ao contrário do que tenho visto por aí. Agora, o que mais me espanta é que estas pérolas apodrecidas saiam de bocas inesperadas, antes insuspeitas para mim. Gente bem nutrida e com diploma, que desconhece os eleitores de Dilma porque só os procura entre os seus pares. Aviso a esses incautos: vocês não terão de esperar mais muito tempo para encontrar universitários entre os eleitores dela (ou de seus sucessores). Graças ao governo de um presidente não diplomado, milhares de brasileiros pobres já estão tendo a oportunidade de chegar ao terceiro grau. Por enquanto, se quiserem saber onde mais facilmente estão os eleitores de Dilma, basta olhar para os lados: são os porteiros, zeladores, diaristas, frentistas, ... Vale até bater um papo com o moço simpático do bar; sabe aquele que sempre serve o seu cafezinho com a maior alegria?! Sei que o dia três vai chegar, mas com ele, infelizmente, não irá o preconceito vergonhoso de eleitores (não consegui usar a palavra "cidadãos") que se baseiam menos em propostas e mais em status. Ah, sim, se for por falta de diploma universitário, eu tenho três. Pena que os piadistas de plantão não tenham nível superior em respeito ao próximo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Do tempo da minha avó

Tenho pensado muito na minha avó e acho que o nome disso é mesmo saudade. E daí que hoje cedo vi uma reportagem na TV, com uma senhorinha linda, que vive numa vila isolada, no sertão de Pernambuco, de onde não sai e de onde conserva as melhores recordações da sua vida. Aí, de repente, ouço aquela canção que a Maria Gadú fez para a avó dela, que diz mais ou menos assim: "de todo o amor que tenho, metade foi tu quem me deu, salvando minh'alma da vida, sorrindo e fazendo o meu eu ...". Fiquei matutando que as avós são esses seres cheios de histórias pra contar, de um mundo que já não existe mais, de uma ternura quase inconcebível nas nossas vidas metropolitanas. A minha avó, essa de quem eu tenho tanta saudade, me contava dos bailes de carnaval do interior, das farras no caminho do sítio para a escola primária, dos namoros que demoravam dez anos pra acontecer, das bonecas feitas de sabugo de milho, do arroz com galinha fumegando no fogão à lenha ... E a grande maravilha disso é que, enquanto ela rememorava, ela me dava um pouco disso, me permitia viver esses cheiros e cores que ela tinha tão vivos na memória. E então, me peguei pensando quais histórias eu e as mulheres da minha geração teremos para contar para os nossos netos. Vamos falar das festas meio bacanais da faculdade, do quanto foi difícil afirmarmo-nos no mercado de trabalho, dos namoros que aconteceram e duraram apenas um dia, das nossas bebedeiras infindáveis pelas baladas da vida, do quanto fizemos para sermos as fodonas e não mulheres submissas como as nossas avós? Ok, são histórias. Mas cadê a poesia disso? Onde estão os gostos, os cheiros, os passarinhos? Que tipo de avós seremos? Eu, que ainda nem mãe sou, tô aqui toda saudosista ... Será que estamos caminhando pra um tempo em que a ternura das avós só será encontrável num sorriso desbotado, estampado num retrato amarelado, tirado lá em vila Longe?

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Lembrança

Eu queria fazer um poema bonito pra dizer uma coisa tão grande. Mas acho que essa coisa grande só cabe numa coisa simples. Porque hoje eu me lembrei das suas mãos e, num instante, fui tomada pelo seu cheiro. Então, essa coisa simples e grande, que tá aqui no meu peito, vai sair assim, sem nenhum rebuscamento: Vó, que saudade de você. Eu te amo tanto.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

XIV

Dandara

Eu só acreditava em Drummond:
o amor chega tarde
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso
esse que se sabe proibido
o amor que já se sabe perdido desde o início
Eu não acreditava no impossível
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas
não conhecia o esplendor da queda
nem a violência dos abismos

Iracema Macedo

XIII

6 de Maio

estávamos felizes em pleno domingo
a certeza próxima do outro
comida no fogo roupa
já passada
casa nem tão limpa
sapatos num canto
projetos alinhavados

a notícia chegou pelo telefone
apagou o fogo
separou nossos sapatos

notícia maior que a vida

Helena Ortiz

XII

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar

XI

Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:


Ana Cristina Cesar

X

Pacto

Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.

Maria Esther Maciel

IX

Da dor

A dor é algo como se não fosse.
Derrapagem à beira do abismo
(aquele como se não estivesse).
Holofote sobre escura porção de sombras.
Eco à revelia do próprio eu
re-ver-be-ra-ção
por sobre o dia.
Fissura aberta minando,
ora esquecida ora sempre,
em alguma parte do corpo
como se fosse o todo.

Dasdô?
Na infância era uma prima
e seus olhos encovados.

Ana Cecília de Sousa Bastos

VIII

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Mario Quintana

VII

À Flor da Pele

Acende o cigarro, rapariga. E olha para a
rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.

João Camilo

VI

Terceira Elegia (trecho)

Estive sempre de pé no ônibus, espremido entre o ferro
da cadeira e o rumor dos passageiros.
Educado a ser o último, cedi o lugar a gestantes e idosos.
Estive sempre de pé no ônibus, me defendendo
ao largo do corrimão de tantos rumos,
alianças e ponteiros com paradas diferentes.
E o brado irritante do cobrador ainda a exigir
um passo à frente.

O fato de não ter sido é mais trabalhoso
do que a fama. Prossegui a me imaginar,
sondando o que poderia ter vivido.
Disperso, anônimo, no comício do mar
e nas trevas.

Diminuindo o risco, reduzimos a possibilidade
de nos libertar. O medo, o medo, o medo
é o que nos faz escolher.

Descobre-se um amor
na iminência de perdê-lo.

Fabrício Carpinejar

V

Déjeuner du Matin

Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec le petit cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a resposé la tasse
Sans me parler
Il a alumé
Une cigarrette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis des cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur la tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
E moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
E j'ai pleuré.

Jacques Prévert

IV

Chanson D'automne

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

Paul Verlaine

III

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

Hilda Hilst

II

O Poeta

Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?
Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.

Rilke

I

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...
Momentos de alma que, desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Mário de Sá Carneiro

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tinoca


Tinoca é uma cachorra preta
vira e lambe a pata, lambe e lambe o dono
O dono a aperta e leva a passear
patas ladeira acima, patas ladeira abaixo
Tinoca é uma cachorra feliz
encontrou casa, comida e chamego
balança o rabo, sorri contente
patas que deixaram o mundo e ganharam apartamento
Tinoca gosta da rua
e do sofá marrom do dono
refestela-se quando ninguém a expulsa, reivindicando o espaço tomado
pela sua negritude brilhosa de orelhas caídas
Tinoca gosta de ser cachorra
lamber, cheirar, balançar o rabo, não ser dona de si
Tinoca é dona de um imenso amor
desses de que só os cachorros são hospedeiros.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O que está no fundo?

Mas será que eu tenho um fundo? Hoje, especialmente, me sinto tão vazia. Pouca carne, muitos ossos, sinto-me feita de arame farpado. Ou cerca elétrica. Dessas que dão choque a menor triscada. O que está no fundo, quando está, não tem descrição, não é palpável, desentranhável. É um amontoado das coisas mais miseráveis, extraordinárias e bizarras, como as que a gente encontra em um circo: acrobacia, tristeza de palhaço, bicho maltratado, mágica pra sobreviver, fantasia pra existir, um caos de máscaras e riscos, esperando um único aplauso. Se eu cair do trapézio, alguém vai dizer que eu preciso de cuidados. Mas se eu ficar lá, balangando de um lado pro outro, ninguém vai saber da minha tortura, dos meus medos, da minha eterna roleta-russa, nada. Eu vou estar de maiô com lantejoulas e rouge na face. Perfeito. Nem remédio, nem cuidados, só aplausos. Eu tenho medo de trapézio, por mais que me alimente do frio na espinha, quando passo de uma barra pra outra. É isso então? No fundo, no fundo, eu sempre soube que a vida é essa coisa meio mambembe, meio capenga, mas serei condenada ao paredão dos infelizes, se não disser que é um grande espetáculo. Não importa se o leão está velho e nem ruge mais. Se as piadas do palhaço soam mais tristes que seu sorriso desenhado. Se a pipoca está murcha e fria. Sob a grande lona só vale a alegria. Alegria, alegria, vamos comprar nossos ingressos e dar uma bela gargalhada. Dentro do meu picadeiro tem um canto escuro, onde eu posso me vestir de Luciana e não me regozijar com o erro do atirador de facas. No fundo, no fundo, só tem uma coisa: um grande susto de viver.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Imobilizamor

"Se amar, não se mova", eu acabo de ler no blog da Andrea del Fuego. E como essa ideia tem me perseguido! A ideia de que o amor imobiliza. Sei que isso é muitíssimo contestável e vai sempre haver uma legião de amantes dizendo o oposto, assegurando que o amor é mesmo a mola propoulsora da vida. Não sei, mas vejo que pessoas apaixonadas são meio improdutivas, enquanto que o não-amor impulsiona os não amados a correrem atrás do "prejuízo". O desamor, então, já produziu lindos sambas, incontáveis romances, as mais tocantes poesias, filmes, telas, e por aí vai. O desamor é uma inspiração e tanto, principalmente para a indústria farmacêutica. Não estou amargurada, não. Mas já entendi que amor correspondido é inebriante, até esbarrar na incorrespondência entre dois sujeitos tão diferentes. E fico me perguntando por que essa incompatibilidade não produz menos processos de divórcio e mais poesias. Acho que o tema é árido demais pra se encaixar em métrica e rima, enquanto que a desilusão e a solidão já nasceram em versos, embaladas pela nostalgia. O desamor vira música porque não esbarra em roupa suja e toalha molhada. E vira livro porque não precisa pagar contas e mergulhar nas inconveniências da intimidade mais deslavada. Vejo blogs tão abandonados quanto este e corro pra ler a última postagem, invariavelmente falando de um amor consumado. Ligo para amigas que quase não vejo mais e umas me falam de seus maridos, algumas dos filhos e todas de uma apatia que lhes corrói o estômago. Não, não acho que seja sempre assim: apático e ruim. Mas acho que o amor acomoda, sim. Aliás, acomoda e dá muito trabalho, para que o possamos acomodar na rotina, essa senhora pesada, que não tem nada a ver com a mulher sorridente, bem disposta e apta à realização de uma fantasia sexual por dia, da Marie Claire. Não pretendo esticar o assunto, pra não ter que esmiuçar as razões pelas quais todos (ou quase todos) procuramos estar em pares. Só queria entender MESMO por que as angústias solitárias e desamores rendem tanta prosa e poesia, e o conforto modorrento de um bem-sucedido encontro amoroso seca nossas penas. Alguém se arrisca?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ela

Muita, muita, muita, muita saudade dela ...


De manhã cedo essa senhora se conforma
Bota a mesa, tira o pó, lava a roupa, seca os olhos
Ah, como essa santa não se esquece
De pedir pelas mulheres, pelos filhos, pelo pão
Depois sorri meio sem graça
E abraça aquele homem, aquele mundo que a faz assim feliz

Essa mulher - Joyce

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Espelho, espelho meu

Acho melhor quebrar esse espelho, antes que ele me arrebente. Espelho idiota. Vou fazer pedacinhos de você. Caquinhos e mais caquinhos, que vão se espalhar por aí, até sumir, evaporar e, assim, vou ficar livre de mim mesmo. Quem você pensa que é pra me expor desse jeito? Sem dó, sem retoques, sem minha melhor roupa, ou meu melhor sorriso? Você acha que pode mostrar que sou imperfeito, gordo, magro, alto, baixo, insuficiente? Não pode, eu não deixo. Verdade, você me deixa vaidoso, às vezes. Mas é melhor não. Você acaba com a minha vaidade em segundos. Eu vou arrebentar você. Assim, nunca mais vou ter que olhar pra mim. E, ainda melhor, não vou ter que mexer nisso tudo que você me mostra: imperfeições, inadequações, insuficiências. Vou te destruir e tudo vai ficar bem. Mas ... pera lá ... será? Não sei. Agora fiquei inseguro. Você também me mostra tanta beleza! Já sei. Vou virar você pra parede. Até tudo isso passar, até chegar a hora. Será que um dia eu vou me enxergar?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Nostalgia

O vô cuidando das gaiolas dos passarinhos
A vó fazendo bife acebolado
Eu, na cozinha, saboreando o cheiro, espiando o vô piar,
sonhando em voar.

Descompasso

eu que procuro poesia
só encontro arritmia
não será isso a poesia?
um coração sem ritmo
um pensamento sem métrica
o pulso correndo sem veia?

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Pausa

Reparei agora que houve um mês de intervalo entre a postagem abaixo e a anterior. Esclarecendo: blogar requer ar.

Respiro

O dia tá leve e apesar do ar seco, consigo respirar a paz que há muito não me entrava pelas narinas. O sol vem lembrando que a vida é inevitável. Não dá pra evitar viver. Não assim, deliberadamente. A gente, às vezes, se esquece um pouco. Só isso. Mas logo vem uma brisa, um cheiro, um gosto, um olhar certo e tudo volta pro lugar. Mesmo sem sentido algum, tudo fica fácil e simples, como se o simples fosse fácil. E aí, a gente abraça a vida de novo, cheira, aperta, lambe, afaga e se deita no colo dela, sentindo que ela retribui ... desinteressadamente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quase tudo

De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei

Qual é a parte da tua estrada
No meu caminho


Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso

Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo


Se tudo passa como se explica
O amor que fica nessa parada
Amor que chega sem dar aviso
Não é preciso saber mais nada

(Quase nada - Zeca Baleiro e Alice Ruiz)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Resposta e os meus últimos minutos

Eu não sei se consigo compartilhar o que pensei alguns minutos atrás sendo sintética. Porque nos últimos minutos eu pensei tanta coisa. Se você soubesse. Minha cabeça não para e isso, às vezes, me enfada tanto. Porque eu queria tanto relaxar, não pensar em nada, concentrar minha mente toda numa laranja redonda, meio verde meio amarela, ou numa nuvem que tem forma de orelha de coelho. E eu pensei tanto que tive que parar um minuto e ir até o banheiro enxugar as lágrimas. A Mari já chorou aqui ao meu lado hoje, com saudades da Juju, e eu fiquei pensando que as pessoas são tão solitárias. Tá todo mundo tão deprimido, insatisfeito, querendo fugir, querendo encarar, numa gangorra que não sai do chão, morrendo. Pós modernidade. Eu pensei nesses últimos minutos que eu queria saber mais sobre o que faz a sua alma doer, do que sobre o que você abdica pra estar comigo. Mas não deu tempo de te falar. Porque a minha mente é senhora de mim e, embora ela não se concentre em laranjas e coelhos, se concentra em teimosias que só me fazem sofrer. A minha alma dói tanto também. Será que temos dores parecidas? Me conta onde a sua dói mais? O que você toma pra passar? Sorriso é analgésico de alma? Você gosta tanto de se sentir apaixonante nos meus sorrisos. Nos sorrisos de quem te ama. Ultimamente, você vem usando uma tática infalível. "Pensa no sorriso da Gabi", você diz. E, instantaneamente, todo cinza sai do meu rosto. Mas, às vezes, a alma dói numa proporção que a gente não consegue achar prescrição que dê conta. Você já teve dor parecida? E a cabeça, como é que eu faço ela parar de pensar o que eu não quero? Você sabe que eu sou careta e chá de erva-cidreira não faz efeito pra esse tipo de aflição. Acho que é mais pra susto mesmo. Nesse últimos minutos eu pensei se você tem, pelo menos, quatro objetivos na vida. E eu me sinto tão desnorteada. Não sei em que esquina da vida eu perdi a minha bússola. Nem sei se eu tive uma. O que eu quero, afinal? Eu, tão controladora, sempre querendo as rédeas nas mãos, tô deixando a vida me levar. Mas nada é escolha minha? Só porque eu não cheguei numa mesa de domingo, com a família reunida, e disse: "Eu quero ser feliz". Não, esse não é mesmo um objetivo meu. Mas qual é? Não sei, não sei, não sei. Por que eu não posso não saber? Por que eu tenho que ter objetivo? Eu quero primeiro comprar um sofá pra sala e depois trocar de carro e fazer uma poupança pra gente poder comprar a nossa casa, se finalmente a gente se entender. Eu simplemente não consigo assumir isso como objetivos de vida. A gente vive pra isso? Pra comprar sofá e ter carro bonito e casa própria? Por que eu preciso tanto ter um objetivo? O que eu queria é ter missão. Missão é incontestável. E tudo isso passou pela minha cabeça nesses últimos minutos. Por que tá todo mundo triste do meu lado e eu não consigo fazer nada? Por que eu continuo assistindo ao noticiário, me convencendo de que acabou o meu idealismo? Eu não tenho resposta pra nada disso. Será que eu faço mestrado, arranjo um emprego público, tenho um filho, ou espero o que vier primeiro? O barco tá correndo e eu não sei pra onde remar. Tô só tocando pra ver se o mar me navega, como na canção do Paulinho. Que decida minha próxima parada. E eu fico triste que seja assim. Eu não quero e a alma dói. Será que eu vou me esforçar cada vez mais pra ver sentido no pragmatismo desse mundo? E vou te cobrar o que todo mundo (esse todo mundo que você abomina) acha que é bom, bonito e certo? Porque o que eu queria mesmo era ver sentido só em coisas como esse sonho que a gente teve juntos essa madrugada. Porque as almas são mesmo incomunicáveis e quando a gente cala, tudo se enche de sentido. E eu queria poder te dizer outras tantas coisas que só devem fazer sentido pra mim, porque a minha cabeça continuou processando, enquanto meus dedos teclavam. Eu queria te dizer que tudo o que eu mais quero é encontrar sentido pras coisas. Seja um sentido prático, psíquico ou espiritual. Mas será que alguma coisa faz sentido? Por que algumas pessoas percorrem tantos caminhos pra descobrir isso, enquanto eu só consigo me enlaçar com meus próprios braços, como eu estava ontem, quando você se deitou do meu lado e tentou achar uma brecha pra me dar carinho? Eu só quero poder dizer que eu não sei, sem me sentir tão culpada, tão frustrada comigo mesma. Mas talvez um dia eu consiga achar algum sentido, sim. Talvez, antes, eu precise chegar na mesa do domingo e dizer "o meu bjetivo é ...". E aí eu vou persegui-lo e chegar feliz, lá na linha de chegada. Então, talvez, eu consiga pensar só na laranja, redondona, de pele brilhante, rindo pra mim. Talvez eu consiga respeitar seu milímetro mais recôndito. Talvez eu consiga te amar sem comparar com o quanto você me ama. Mas onde é que tá doendo? Por que você não chora um pouco? Você não precisa deixar isso pra trás. Eu também tenho muito medo. E você tem razão. A gente não tem mesmo que contar tudo um pro outro. Nem sobre descobertas fantásticas, nem sobre medos tolos. Acho que a gente deve se comunicar pelos sonhos. Talvez um dia a gente assista à novela juntos e se pergunte quem é o galã que tá beijando a mocinha, que trabalhou naquela novela das sete, fazendo par com a atriz que morreu, como meus avós faziam. Porque pensar a vida com você me dá a única certeza que eu tenho. Isso nunca vai sair daqui de dentro. Mas uma hora eu aprendo a viver comigo e paro com essas DRs internas, que me exaurem tanto. E então minha cabeça vai ficar tão leve e tão vazia, que vai caber uma nuvem com orelha de coelho dentro. Ah, eu não posso esquecer. Eu amo você.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Um estranho comum

Ele apanhou na infância. Abuso moral. O pai dizia que ele era feio, que seu nariz era medonho. Ele não tinha coragem de se olhar no espelho. Pra não ver as espinhas, não acendia as luzes, enquanto lavava o rosto. O nariz grosseiro, a pele negra, o cabelo ruim. Todo ele um transtorno absoluto. E ainda criança, quando devia estar nos parques ou ruas, brincando de esconde-esconde, pega-pega ou barra-manteiga, precisou trabalhar em regime rigoroso. Mais uma imposição do pai carrasco. Tudo isso fez dele um complexo de inferioridade ambulante. Tímido, ensimesmado, autoestima rebaixada, sabe-se lá quantas outras neuras e traumas, dos quais ele não conseguiu se ver livre, mesmo sendo uma das pessoas mais populares do mundo. Uma das pessoas mais sozinhas do planeta. Será? Será mesmo? O que sabemos sobre ele, além da pele que embranqueceu de repente, do corpo que sumiu, do nariz que afinou, dos meninos com ele brincou já adulto? O que a mídia nos contou sobre ele? Para além do demerol, do rancho da fantasia, das dívidas, dos casamentos arranjados, de uma vendagem recorde de discos? Ninguém sabe nada sobre esse moço que morreu. Porque essa pessoa que definhou publicamente, sem alternativa, era um moço qualquer. Um desconhecido. Alguém que sofreu por se olhar no espelho e não gostar do que viu. Alguém que se sentiu rejeitado tantas vezes, que desconfiou de quem se aproximou verdadeiramente. Alguém que podendo (e pôde), negou a realidade e criou um mundo cor-de-rosa, pra tentar (desafortunadamente) se trancar nele. Alguém que não conseguia dormir, com o peito abafado pela angústia. Esse moço que morreu era indefinível, múltiplo, incompleto. Tão humano, tão ordinariamente comum, que o mundo não o aceitou. O mundo não tolera que as pessoas sejam comuns. Ainda mais se elas tiverem um talento notável. Excêntrico? O que há de excêntrico na dor, no sofrimento, na inadequação, na autorejeição? O que há de excêntrico, se é dessa massa atormentada que somos feitos? Excêntrica era a máscara (a de pano, não a do sorriso forçado, tão exibido aos paparazzi de plantão do mundão), a luva, a dança, a vida? A vida desse moço parecia estar mesmo fora do centro, excedendo para os lados, como excede, muitas vezes, em todos nós. Seguramos ou não. Conformamos e impedimos ou não que esse excesso transborde. Num precipício, num ataque cardíaco, num recomeço. Na morte. Morte, muitas vezes, que é só excesso de vida.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Esclarecendo


Por quê?


Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer?

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

Drummond