domingo, 24 de agosto de 2008

De toda cor

Esperar eu espero. Mas, às vezes, me pergunto: tem que ser assim? Provação, necessidade, desperdício? Sei não. Sei que é difícil. Eu aqui, você aí - alguém tá no lugar errado. Não tem telefone, nem câmera que me faça apagar essa falta. Ausência é mais do que não ter a voz, a imagem, uma carta escrita. Ausência que dói mesmo é daquilo que nem bem se materializa. É do que eu sinto quando acordo e me descubro aconchegada na tua pele quente. É de quando percebo um teu sorriso novo, numa situação banal. É de ouvir da tua boca aquilo que eu acabei de pensar. É de achar o café mais gostoso, o tempo mais ameno, a música mais bonita, quando estamos juntos. Ai, meu samba anda tão chorado! Falta de ver o mundo cor de rosa? Quase isso. Acho que é falta de saber que o mundo não é cor de rosa, mas pode ficar, de vez em quando. É falta de sair do teu lado pra respirar a solidão e tomar fôlego pra voltar e querer ficar. É tanta coisa. A tua ausência é o oposto da tua presença, que é oposto do escuro, do susto, do amargo. A tua presença é o que eu desejo agora e o que eu quero desejar pra sempre.
*
A tua presença
Entra pelos sete buracos da minha cabeça
A tua presença
Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
A tua presença
Paralisa meu momento em que tudo começa
A tua presença
Desintegra e atualiza a minha presença
A tua presença
Envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas
A tua presença
É branca, verde, vermelha, azul e amarela
A tua presença
É negra, negra, negra
A tua presença
Transborda pelas portas e pelas janelas
A tua presença
Silencia os automóveis e as motocicletas
A tua presença
Se espalha no campo derrubando as cercas
A tua presença
É tudo que se come, tudo que se reza
A tua presença
Coagula o jorro da noite sangrenta
A tua presença
É a coisa mais bonita em toda a natureza
A tua presença
Mantém sempre teso o arco da promessa
A tua presença
Morena, morena, morena ... morena
*
(A tua presença morena - Caetano Veloso)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Carta Aberta

Hoje recebi uma linda carta de amor. E quero respondê-la aqui. Não na íntegra, mas uma pequena parte. Por quê? Porque estive pensando que as pessoas que escrevem publicamente, ainda que em um canto escondido e quase anônimo como este, o fazem não por necessidade de aprovação, admiração, ou coisa parecida. Penso nos blogues de amigos e desconhecidos que acompanho com carinho, e, mais que isso, com gratidão. Sim, taí um "ão" que faz a diferança! Uma poesia de um aqui, uma frase inspiradora de outro acolá ... Quantas vezes não salvaram meu dia, me acalentaram o espírito, me trouxeram esperança, ou simplesmente me fizeram rir e enxergar tudo de um jeito mais leve? Então, acho que nisso está a verdadeira intenção do que fazemos: quem sabe ter a sorte de afagar um transeunte qualquer. Compartilhar indignação, frustração, tristeza, angústia, alegria, decepção, ternura, ou seja, um pouquinho de humanidade.
E assim, justifico minha decisão de postar parte de uma reposta a uma carta de amor; afinal, o amor será sempre o melhor que teremos a compartilhar.

Meu amor, sua carta me trouxe belas palavras, muitas aflições, algumas preocupações. Você falou sobre a sua confiança no nosso encontro e no que você espera poder representar pra mim. Preocupação acertadíssima, mas desnecessária. Você já representa muita coisa. Representa a possibilidade de realização dos meus sonhos mais sinceros, dos meus desejos mais secretos. Sinteticamente, posso dizer, a oportunidade de cuidar do essencial. E o que é essencial? Aprender e ensinar. "Aprender, servir e ajudar", você disse. Viu como pensamos parecido? Você falou tanto na sua vontade de corrigir suas imperfeições. Sabe, desde que tenho você comigo, também lido bem mais de frente com as minhas imperfeições. Não só porque a sinceridade é sua pior qualidade e seu melhor defeito, mas porque o amor nos põe à prova o tempo todo, revelando-nos o nosso egoísmo, os nossos medos, as nossas carências, as nossas necessidades nem sempre saudáveis. Não seria exagero dizer que o amor desvela o que há de melhor e pior em nós. Estamos bem longe de amar platonicamente, amar desprendidamente, desejando essencialmente o bem do outro. Amamos e queremos o nosso próprio bem, o bem que o outro nos provoca. Por isso, o melhor que você poderia significar pra mim é a certeza de que quero, sim, fazer esse exercício de amar verdadeiramente, e não egoisticamente. Você me ensina muito e sempre. Por exemplo, já aprendi que acordar do teu lado me faz ter mais confiança de que é possível melhorar muita coisa nesse mundo maluco. Você me ensina a dirimir meus preconceitos bobos, das formas mais improváveis. Quando declama os poetas que eu amo e não rejeita os livros que eu desprezo. Quando pega Pasolini e algo como "Duro de Matar" na locadora e me pergunta o que vamos ver primeiro. Quando me faz ouvir e gostar, na mesma semana, de Uakiti e Amy Winehouse (só com muito amor mesmo! rs). Quando me faz ter vontade (bem incipiente, mas ...) de voltar a estudar inglês, enfim ... E por que mais eu quero tanto aprender a "amar certinho"? Porque você olha para todas as crianças, como se cada uma fosse a mais especial. Porque você ama com o coração transbordando. Porque você não dá sobras; você se dá inteiro. Porque você não tem medo de amar. Porque você tem medo de viver sem amor. Porque você me faz querer ser a melhor mãe do mundo. Porque você ri quando eu quero chorar e chora quando eu quero rir (isso não é perfeito?). Porque você não permite que eu fique emburrada por mais de 24 horas (precisamos negociar esse tempo). Porque a sua sensibilidade não me alcança quando eu acho que preciso, mas me enxerga no escuro, quando eu menos espero. Porque você não sabe tudo sobre mim e isso me faz continuar a ser eu. Porque você quer saber mais sobre mim e isso vai fazer com que sejamos cada vez mais "nós". Porque você me ensina o que eu teimo em não querer aprender. E, claro, porque você me lembra que existem verbos que ninguém mais usa e me ensina alguns bons trajetos, o que faz com que eu me perca bem menos na Zona Oeste. rs. Viu, só? Eu bem que tento, mas meu amor continua sendo fundamentado num egoísmo abismal! Eu te amo por esse bem enorme que você me faz. Mas também porque eu acredito na sua proposta de evolução. Afinal, deve ser verdade o que dizem os livros de auto-ajuda: "Casais inteligentes enriquecem juntos". E sei que o nosso enriquecimento não tem a ver com contas polpudas, carro importado, viagens exuberantes. O que há de mais exuberante já temos. E eu te amo porque você me trouxe de volta uma esperança que eu havia perdido: a de que é possível viver e buscar o bem comum. Não importa o que faremos de efetivo, ou se o que faremos será efetivo (reciclaremos nosso lixo? economizaremos água? plantaremos algumas mudas? ensinaremos nossos filhos a respeitarem o planeta e o semelhante incondicionalmente? cuidaremos e ensinaremos crianças que não gerarmos?). Sinto que qualquer coisa que eu fizer contigo será capaz de germinar. E essa é a melhor resposta que consigo te dar nesse momento: a minha confiança. Meu amor, eu quero a sua ajuda. Para aprender sempre mais, para amar de um jeito cada vez mais verdadeiro e, principalmente, para que, juntos, possamos fazer valer a nossa existência.

sábado, 16 de agosto de 2008

Amar em paz

Chegou, sorriu, venceu depois chorou
Então fui eu quem consolou sua tristeza
Na certeza de que o amor tem dessas fases más
E é bom para fazer as pazes, mas
Depois fui eu quem dela precisou
E ela então me socorreu
E o nosso amor mostrou que veio prá ficar
Mais uma vez por toda a vida
Bom é mesmo amar em paz
Brigas nunca mais

(João Gilberto - Brigas Nunca Mais)

sábado, 9 de agosto de 2008

Ele

Ele sabe dos caminhos dessa minha terra
No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu
Os meus rios, os meus braços
Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai

Cala a boca - olha o fogo!
Cala a boca - olha a relva!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara

Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber
As vazantes, as correntes
Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai

Cala a boca - olha a noite!
Cala a boca - olha o frio!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara

(Chico Buarque / Rui Guerra)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cheiro de flor


Hoje, na Casa das Rosas, não havia nenhuma. Estranhei o jardim deserto. Depois me lembrei: não é mesmo tempo de rosas. E tenho percebido isso melhor do que ninguém. Mas sei que há brotos prontos para florescer. Que setembro venha logo e traga a primavera! Quero as rosas que você plantou em mim. Chega de ser espinhada pela saudade! Quero o perfume doce de flor bem no meu nariz. E a maciez das pétalas na minha pele. Você disse que a vida é difícil sem pontuação. Vejo que é o contrário. Como doem essas pausas longas, tantos pontos de interrogação (apesar de uma certeza absoluta, insuperável). Ponto final, então, pra quê? Não podíamos deixar a vida simplesmente correr, indefinidamente? Mas sem ponto não se muda de parágrafo, nem de história. Com você eu só quero reticências. Quero uma primavera inteira, todas as estações, e posso deixar as rosas pra depois. Agora eu tô de olho mesmo é numa vitória- régia. Aliás, que bobagem o nome homenagear rainha inglesa. Uapé é tão mais bonito! Bonito como o meu sorriso perto do teu. Eu vou. Quero deitar numa uapé contigo e me inundar de exclamações.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Fim de mês

Para T.C.P.S.

Quando será que eu vou encontrar
Paz pro meu coração
Se eu não enlouquecer de amor, eu vou ver minha vida acabar

E pensar em você é alívio
Arrasa solidão
E logo torna-se um precipício, pesadelo que vaga pelo ar

As coisas que eu penso e que ninguém quer entender
As coisas que eu faço e que ninguém deseja ver
É por essas e por outras que eu preciso de você
Só você sabe como e por quê

Queria chegar e te abraçar
E pelo coração te amarrar
Em vez de te ligar, eu iria te beijar e todos os meus sonhos
iriam acordar

(Agosto - Simoninha)

Por que não é?

devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido
estar do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido...

(Devia ser proibido - Alice Ruiz)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Certinho, feinho, amor ...

Para amenizar um pouco, em clima de bossa ...

Amor à primeira vista
Amor de primeira mão
É ele que chega cantando, sorrindo
Pedindo entrada no coração
O nosso amor já tem patente
Tem marca registrada, é amor que a gente sente
Eu gravo até em disco todo esse meu carinho
Todo mundo vai saber o que é amar certinho
Esse tal de amor não foi inventado
Foi negócio bem bolado direitinho pra nós dois, foi ou não foi?
Esse tal de amor não foi inventado
Foi negócio bem bolado direitinho pra nós dois

(Amor Certinho - Roberto Guimarães, por João Gilberto)

Urgência

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
(Clarice Lispector)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Bate-papo comigo

Ando esquecida de mim, de tanto que amo e sinto saudade. Incongruência? Total. Eu sou amor e saudade. Ambulante. Por aí, às turras com a vida. Ainda não sei se busco coerência, congruência. Sou simples demais pra isso. Busco consistência? Pode ser. Mas não nos bancos universitários, ou na filosofia alemã. Busco consistência na minha relação com o outro e comigo. Não sei quantos diplomas são necessários pra entender que viver é uma exigência. Instintivamente, percebo isso desde pequena, cumprindo minhas corriqueiras obrigações. E sigo assim ... simples para os outros, indecifrável pra mim mesma. Ou o contrário. Cheirei tanto a realidade, que acabei me viciando. E não tenho como parar, convicta demais que estou nesse meu pacto com a vida. Pode bater, pode pesar, pode doer ardido no peito; eu não me esquivo. E quem se esquiva? É só o que nos resta: viver (plagiando Gullar, na cara dura). No máximo, me curvo. Efeito colateral é sempre o mesmo: angústia. Sim, lucidez e angústia andam juntas. Inextricáveis. Estou chovendo no molhado. Mas não é só isso, não. Tem amor. Amor não cura; remedia. Amor distrai todos os sentidos de uma só vez. E então, a gente chega a acreditar que é refém dessa tal felicidade. Que o amor dure muito porque, em se tratanto de amor, o muito é sempre pouco. Mas não adianta se iludir: os sentidos logo se arrependem dessa inebriante distração. Não sei por que estou escrevendo isso, divagando tanto. Auto-conhecimento? Sim, blog é mais barato que terapia. Acho que foi só um tempo pra mim, pra eu me lembrar do que sou feita ... embriagada que ando, sob os efeitos latejantes do amor.

domingo, 20 de julho de 2008

Presença

Na almofada branca,
as sandálias sonham
com a seda dos teus pés…

Partiste..
Mas a alegria ainda ficou no quarto,
talvez no ninho morno, calcado por teu corpo
no leito desfeito…

Entardece…
Esfuziante e verde,
um beija-flor entrou pela janela,
(pensei que a tua boca ainda estivesse aqui…)

Do frasco aberto,
vestidas de vespas,
voam violetas…

E na almofada de seda,
beijo as sandálias brancas.
vazias dos teus pés.

AUSÊNCIA - João Guimarães Rosa

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Reminiscências de um sonho (acordada)

Livros, discos, quadros e roupas. Por onde eu passo, esbarro em você. Nessa madrugada, forcei meu pensamento pra te esbarrar nos meus sonhos. Mas não consegui dormir. Então, resolvi sonhar acordada mesmo. E aí, quase esbarro no limite da minha saudade ... Só que minha saudade não tem limite. Queria poder esbarrar o seu cheiro, e aí eu esbarraria uma alegria infinita. Eita verbo estranho - esbarrar! Pode ser tocar de leve ou chocar-se com algo. A mim parecem ser coisas tão diferentes! Penso em como você esbarrou no meu coração. Ai, Vinícius, né? Mas tocou só de leve mesmo. E então, insistiu um pouco, foi esbarrando, esbarrando ... com uma flor, um sorriso de querer sincero, aquela música do Tim ... Ainda pensa em ser diplomata? Lembro das palavras de um sábio homem, que só é um pouco suspeito porque tem tudo a ver com o fato de você existir: Esse menino tem um poder mágico sobre as pessoas! Não sei que dom é esse, que manha é essa. Ô jeito doce de esbarrar nos meus sonhos! Inclusive, nesse sonho acordada, esbarrei na enormidade do que a gente vai viver. Só esbarrei, quer dizer, só cheguei perto. Sei que tem muito mais. Porque, de verdade, você não só esbarrou, não. Você chegou.

A mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas, profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

(M. Quintana - Emergência)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

SIM!

Ele estava no quarto. Ela voltou de pegar alguma coisa da cozinha. Não usava uma lingerie especial, mas o velho pijama de sempre. Estava despenteada, sem perfume. Apenas o seu cheiro de banho recém-tomado. Ia se deitar, estava cansada, mas foi detida pelo abraço dele. Ergueu-a um pouco, olhou para ela com um sorriso resplandecente e perguntou/afirmou: "Sabia que eu adoro esse nosso casamento?!"
Não, eles nunca assinaram nenhum papel, nem estiveram diante de um padre, ou coisa que o valha. Também não ficaram noivos, não namoraram cinco anos para se conhecerem bem e estarem certos do que queriam. Não trocaram alianças, não deram entrada para a compra de uma casa, nem festa para duzentos convidados.
Simplesmente disseram "sim" um para o outro. Brindaram a sorte de terem se encontrado e planejaram viver uma vida em que só caibam coisas essenciais.

Diga sim pra mim - Isabella Tavianni

Eu pensei em comprar algumas flores
Só pra chamar mais atenção
Eu sei, já não há mais razão pra solidão
Meu bem, eu tô pedindo a sua mão

Então case-se comigo numa noite de luar
Ou na manhã de um domingo à beira mar
Diga sim pra mim
Case-se comigo na igreja e no papel
Vestido branco com bouquet e lua de mel
Diga sim pra mim

Eu pensei em escrever alguns poemas
Só pra tocar seu coração
Eu sei, uma pitada de romance é bom
Meu bem, eu tô pedindo a sua mão

Então case-se comigo numa noite de luar
Ou na manhã de um domingo à beira mar
Diga sim pra mim
Case-se comigo na igreja e no papel
Vestido branco com bouquet e lua de mel
Diga sim pra mim

Prometo sempre ser o seu abrigo
Na dor, o sofrimento é dividido
Lhe juro ser fiel ao nosso encontro
Na alegria, felicidade vem em dobro
Eu comprei uma casinha tão modesta
Eu sei, você não liga pra essas coisas
Te darei toda a riqueza de uma vida
O meu amor

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Por favor

Se eu disser que tenho medo
Não pergunte
Não estranhe
Não se acanhe
Apenas pegue a minha mão
Aperte o meu coração
Reconforte-o
Não questione como, nem por quê
Coloque-me no colo e me abrace
Olhe nos meus olhos e diga:
Não tenha medo.
Eu estou aqui!

terça-feira, 8 de julho de 2008

Eu te quero até o fim!

Cá comigo, creio que esse canto será, nos próximos meses, o canto da saudade. Cada um canta o que pode ... Então, vou cantar e contar minha saudade. Enorme! Visceral! Como o meu amor. Fiz uma pesquisa rápida e sei que não faltarão canções e poesias sobre o tema. Sambas, então!!! Arre!!! Samba é mesmo pra isso: pra chorar as dores de saudade. "Porque o samba é a tristeza que balança / E a tristeza tem sempre uma esperança / A tristeza tem sempre uma esperança / De um dia não ser mais triste não ..."
Também não faltarão as minhas palavras, minhas lembranças ... doces, entranhadas!

Começo com essa música linda, na voz da Elis.

Para T.C.P.S. (você, que cultiva rosas e amor como ninguém ...)


Amor, não tem que se acabar
Eu quero e sei que vou ficar
Até o fim eu vou te amar
Até que a vida em mim resolva se apagar

Amor é como a rosa num jardim
A gente cuida, a gente olha
A gente deixa o sol bater pra crescer, pra crescer
A rosa do amor tem sempre que crescer

A rosa do amor não vai despetalar
Pra quem cuida bem da rosa
Pra quem sabe cultivar
Amor não tem que se acabar
Até o fim da minha vida eu vou te amar
Eu sei que o amor não tem, não tem que se apagar

(Amor até o fim - Gilberto Gil)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Para o Vlad

Caro Vlad,
Tenho andado ocupada. E me dei conta do quão fantástico é alguém me cobrar a atualização deste cantinho aqui. Ainda mais alguém que eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente. Por isso resolvi escrever. Rapidinho, assim, só pra pedir com carinho: não desista de mim! Eu volto logo. Essa semana tem sido Fernando Pessoa e seus três amiguinhos (o Reis, o Campos e o Beto) a me pedirem atenção integral. Justo pra mim, que sempre gostei tanto deles! O problema é que em trabalho acadêmico tudo fica menos leve, obrigatoriamente mais denso. Sabe como é ... vale nota! Fora isso, seminário disso e daquilo, leituras esquecidas durante um longo semestre e que precisam ser recuperadas em 2, 3 dias?! Se eu deixo tudo pra última hora? Sempre! Defeito insolúvel, irremediável. Ah, tenho os 35 pequenos pra cuidar à tarde, também. Eu, que sempre disse que alfabetização é coisa pra gente séria, tento levá-los pela mão, nessa aventura rumo ao aprendizado mais importante da vida deles. Pois é, é pra gente pretensiosa também; não pra mim. Não dou conta disso tudo, não! E ainda inventei de namorar. Claro, o seu lindo irmão. Ajuda tanto ... e atrapalha tanto também! Mas como é bom ser atrapalhada por um sorriso daquele tamanho! Estudamos juntos, lemos um para o outro, trocamos idéias ... e como ele me provoca! Você bem sabe como é isso, né? Mas vamos encerrando, porque, se bobear, isso que era pra ser só um breve pedido, vira uma declaração universal do meu amor por ele. Quase esqueço: há ainda os cachorros - dois, semi-abandonados (tadinhos!) e o meu fofo bebê de cinco meses (a Gabi, minha sobrinha), que me retém com aqueles esboços de sorrisos irresistíveis.
Bem, caro Vlad, volto em breve. Promessa é dívida!
Aproveite a estada em Fortaleza e dê um abraço apertado no seu pai, por mim. Por alguma razão desconhecida, já me considero amiga dele.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Notícias

Tenho saudades de vocês dois
Amando-se aos 80 anos
Um com ciúmes, o outro provocando
Um reclamando de tudo, o outro consentindo sempre
Tenho saudades de vocês dois
Da preocupação que vocês me causavam
Da graça que sempre inspiravam
Do medo que tinham de ser um, e não dois
Tenho saudades enormes de vocês dois
De tudo que me ensinaram, de todo o amor que me deram,
de tudo o que vocês foram juntos
Tenho saudades e queria muito contar pra vocês
Apesar dessa falta, desse nó na garganta
Hoje eu estou bem feliz

Sem lugar

Se você for, eu vou
Se você ficar, eu fico
Se você for, eu fico também
Mas se ficar, eu já estou
Estou, você indo ou ficando
com você, em qualquer lugar
E fico, em qualquer situação,
sem outra opção
Eu só posso te amar
Porque aqui ou acolá
Você já está
Em mim, inescapavelmente

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Rima perfeita

Rima pobre amor e dor
rima sem expressão
Não é porque calhou a terminação,
que essa rima tenha razão

Prefiro rimar or com er
or com ar
ou ainda, or com ir
Mas se, por acaso, eu tiver que juntar
amar e chorar
Será nos teus braços
e não será por doer

Você que me faz entender
que amar não implica sofrer
Você que me faz perceber
que rimar amor e dor
é falsa construção,
forjada armação

Amor nunca rima com dor,
nem querer com sofrer
Amor só rima com amor
E você rima comigo
em qualquer verso
em qualquer estrofe
em todas as métricas ... milimetricamente!

Tradução

às vezes, nem eu consigo me traduzir tão bem ...

Dia desses vi o amor.
De unhas vermelhas e blusa ao contrário.
De casaco tirado do armário. Sentou na minha frente.
Não pude ignorar...

Só queria um olhar
do comprimento do meu
da distância do teu
A medida exata
para não cansar

Queria teu braço
A me apertar
A me levar
Por esse chão encerado
de roseiras ao lado

Esse tempo de espera
Era exatamente seu
Esse tempo sou eu

E te dei essa espera
Com sorriso escavado
Te dei esse tempo
Sem estar ao teu lado

Fica!
Agora a espera é passado
É meu esse chão encerado
Fica! De-mora ao meu lado

(Dia desses ... Iara Ga Iañez)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Dom de amor

Para T.C.P.S.

Você tem o dom
de pôr som de celo
onde havia gelo
quem dera tê-lo
você e teu dom
de transformar esse silêncio
num solo de celo
quem dera descobrir
teus zelos véu por véu
descobrir talvez um novo céu
e nele vê-lo
entre as estrelas
cobrir você
com meus cabelos
quem dera este celo
não fosse tão solo
quem dera você para sê-lo

(Som de Celo - Alice Ruiz)

Nosso tempo é bom

Saia desta vida de migalhas
Desses homens que te tratam
Como um vento que passou

Caia na realidade, fada
Olha bem na minha cara
Me confessa que gostou
Do meu papo bom
Do meu jeito são
Do meu sarro, do meu som
Dos meus toques pra você mudar

Mulher sem razão
Ouve o teu homem
Ouve o teu coração
No final da tarde
Ouve aquela canção
Que não toca no rádio

Pára de fingir que não repara
Nas verdades que eu te falo
Dá um pouco de atenção

Parta, pegue um avião, reparta
Sonhar só não tá com nada
É uma festa na prisão

Nosso tempo é bom
Temos de montão
Deixa eu te levar então
Pra onde eu sei que a gente vai brilhar

Mulher sem razão
Ouve o teu homem
Ouve o teu coração
Batendo travado
Por ninguém e por nada
Na escuridão do quarto
Na escuridão do quarto

(Mulher sem razão - Adriana Calcanhoto)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Inexplicando

Por que é que eu gosto de você?
Como é que eu vou dizer?
Como é que eu vou entender?
Como é que eu vou verter?

Se as maneiras me evitam
As palavras não imitam
As idéias não indicam
A música que assovia o coração

O coração?
Esse só responde com brilho
Desde que você chegou é assim:
Melodia escorrendo dos olhos
Alegria enfeitando o meu colo
Sintonia do começo ao fim

Por que é que eu gosto de você?
São cem razões e sem senões
Duzentas vezes o que eu não sei dizer
E uma só vez o que eu não canso de sentir

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Cada vez más de cerca ...

Para T.C.P.S

"Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y los ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua."

(Julio Cortázar, Rayuela - Cap.7)

terça-feira, 6 de maio de 2008

Um lugar pra ficar

Quando cheguei nesse lugar desconhecido, meus pés vibraram ao primeiro contato. Ali, logo na entrada, fui sentindo uma leveza, um não sei quê de poesia, talvez uma alegria. Com a chave menor, você abriu o primeiro portão. Minhas mãos ansiosas, nervosas, desabrocharam. Aliás, depois de aberto o segundo portão, eu vi que havia rosas. E não tinham sido compradas em loja. Estavam plantadas, regadas, sadias. Junto à penúltima porta, eu quase me espanto: estava tudo lustrado, tão ordenado, tudo tão limpo e cheiroso! Tudo pronto para um inesquecível encontro. Cada coisa em seu lugar, cada móvel em seu pedaço, cada luz em seu espaço. Era tanta harmonia que até parecia dia. Sabe dia ensolarado com cheiro de mato? Desses que a gente não quer perder sem amar alguém? Mas já era noite. Estrelada e de lua crescente, decerto. Mais do que os casacos dobrados e os sapatos guardados, susto mesmo me causou seu coração: tão certo, tão decidido, tão sem receios, tão sem rodeios. Lugar luminoso esse seu coração! Amplo, arejado, bem desinfetado e com vista panorâmica para o meu. Não é nem calmo, nem irrequieto, nem simples, nem complexo; é um coração disposto. E, por isso, raro. Não sei o que mais nele encontrei (se é que precisasse), só sei que fui sentindo uma vontade grande de ficar, de conhecê-lo, de aquecê-lo. E você, sem pedir fiador, com esses olhos de riso, tem aberto os caminhos. Defuma os cantos, repõe as telhas e me mostra cada ângulo em que bate sol. E eu, que cheguei só pra dar uma espiadela, resolvi colocar minha rede bem no meio e viver no seu aconchego. Agora, só me resta fazer um pedido, afinal você bem sabe que inquilino novo tem mania de tudo mudar, de tudo ajeitar. Deixa, não, tá?! Seu coração é tão bonito assim! Ah, também não quero as chaves. Porque desse jeito, você terá sempre que abri-lo pra mim.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Nosso

Estranhamente, este não estava no blog. Que bom que você não acredita em coincidências! Já que gostou tanto, agora é todo SEU.

Para T.C.P.S.

Seu

Arrebate meu coração
Leve-o pra onde quiser
Arremate-o!
Esconda o meu olhar entre os seu pêlos
Minha boca entre os seus anseios
E as minhas mãos ... não precisa, entranhadas estão
Respire meu pensamento
Sorva cada gota da minha sede
Tateie o meu calor
Amplifique a minha voz
Modifique a minha dor
Retire, eleve, transforme
Tudo que ainda restar
Tudo que ainda quiser
Tudo de que, sem escolha, eu dispuser
Não quero nada em troca
Não é uma troca; não tenho escolha
Só não quero me esquecer do seu gosto
Me esquivar do seu cheiro
Nem perder os sentidos
Só não quero ter que lembrar
E não quero, de jeito nenhum,
Que me entregue de volta
É tudo seu
E, só assim, pode continuar a ser meu

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Porque escrever é assim ...

Ah!
Não pode usar qualquer palavra
Então é por isso que não dava
Eu tentava, repetia, achava lindo e colocava
Se não cabe, se não pode
Tem que trocar de palavra

Ah!
Mas é tão boa essa palavra!
Carregada de sentido com um som tão delicado
Agora eu vou ter que trocar?
Ah!
Vá se danar!
Ah! Tem que caber?
Ah! Ninguém repara
Ah! Tem que entender?
Ah! Mas tá na cara
Então muda?!?
Han... han...
Hum
Chiiii
Ai ai ai ai ai ai ai
Han?
Haa tá
Nossa! É isso?!
Hei! Hou!
Ara!
Ah!

(Luiz Tatit)

Procura-se!

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

(Poema em linha reta - Álvaro de Campos)

Professorando

Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino.

(Paulo Freire)