quarta-feira, 13 de maio de 2009

Autorretrato

Aderindo a uma brincadeira que andei bisbilhotando em blogs alheios, fiz o meu mosaico de definições.

Se eu fosse um lugar, eu seria ...

PRAIA DE IPANEMA

Se eu fosse um mês do ano, eu seria ...

SETEMBRO

Se eu fosse um dia da semana, eu seria ...

SEXTA-FEIRA

Se eu fosse um período do dia, eu seria ...

NOITE

Se eu fosse uma direção, eu seria ...

ADIANTE

Se eu fosse um divertimento, eu seria ...

RODA DE SAMBA

Se eu fosse um líquido, eu seria ...

ORIGINAL GELADA

Se eu fosse uma pedra, eu seria ...

QUARTZO ROSA

Se eu fosse uma árvore, eu seria ...

IPÊ-AMARELO

Se eu fosse uma flor, eu seria ...

GIRASSOL

Se eu fosse um instrumento musical, eu seria ...

CUÍCA

Se eu fosse uma cor, eu seria ...

VERDE

Se eu fosse um tempero, eu seria ...

PIMENTA MALAGUETA

Se eu fosse um bicho, eu seria ...

CACHORRO VIRA-LATA

Se eu fosse um livro, eu seria ...

CEM ANOS DE SOLIDÃO

Se eu fosse uma personagem, eu seria ...

CAPITU

Se eu fosse uma comida, eu seria ...

TORTILLA DE PAPAS

Se eu fosse um objeto, eu seria ...

LUMINÁRIA

Se eu fosse um filme, eu seria ...

O TEMPERO DA VIDA

Se eu fosse um gesto, eu seria ...

ABRAÇO

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Especialistas

Fui à podóloga. "É a primeira vez?", perguntou-me animadamente a especialista. "Sim", respondi com breve sorriso apavorado. "Vc vai amar!", ela garantiu. Não queria mesmo decepcioná-la, mas, no meio da sessão, eu, que sou resistente à dor, pedi PELAMORDEDEUS pra ela parar de cavucar a unha que eu julgava encravada. Segundo a carrasca de jaleco, minha unha não estava encravada, mas afunilada, e, para salvá-la, só mesmo uma órtese. Uma o quê? É, órtese, igual aparelho para desentortar os dentes, só que para desentortar unhas. Que lindo! Minha sofrida unha vai ganhar adereço. O mais curioso é a causa: "VOCÊ NÃO SABE CORTAR A UNHA", sentenciou a fofa. Ah, não?! Meses atrás, no dentista, eu reclamava de umas formações escalonadas em alguns dentes, espécies de degraus, e a resposta foi algo igualmente frustrante e surpreendente: "VOCÊ NÃO SABE ESCOVAR OS DENTES. VOCÊ OS ESFREGA DEMAIS E ISSO DESGASTA E FORMA OS DEGRAUS". Ah, falou! E eu ainda quero ter filhos. Como, se eu não sei nem cortar as unhas, nem escovar os dentes?!?! Vou ensinar o que pra uma criança? Regra de três composta? Verbos irregulares? Tabela dos elementos químicos? Tá complicado. Pensei em marcar oftalmologista e otorrinolaringologista. Quem sabe eu não esteja vendo e ouvindo direito. Aí vai ficar fácil!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Um casal

Rigoberto e Risoleta vivem juntos. Há pouco tempo. Mas é antiga a reclamação de Rigoberto acerca do suposto fato de que Risoleta reclama muito. De tudo. Ele reclama que ela reclama e ela reclama que não reclama. A reclamação de ambos está certa. Ou errada. Depende de quem é o reclamante e quem é o reclamado. Risoleta, às vezes, pensa que reclama demais. Nunca tinha pensado no assunto até que começou a viver com Rigoberto e ele veio com a reclamação: “Você só reclama!”. Risoleta reclama, quer dizer, se chateia, porque Rigoberto larga os sapatos e as roupas em lugares não combinados, come a comida antes de ela finalizar o jantar e não pergunta sobre o seu trabalho. Tudo leva a crer que eles estão cada dia mais parecidos com um casal. E, pelo andar da carruagem, a reclamação de que um reclama do outro vai longe. Nessas suas reflexões sobre se Rigoberto está ou não equivocado sobre o seu excesso de reclamação, Risoleta reclama consigo mesma: “Isso é injusto. Ninguém nunca reclamou que eu reclamo”. Para Rigoberto ele é quem está certo em sua concepção de mundo. Nunca reclama de nada. Imaginou, aos sete anos de idade, um mundo em que todas as pessoas tinham casas. Cresceu vendo que não era bem assim. Mas não faz mal. Quando tem trocados, os distribui fartamente aos meninos do farol. Quando não tem, abre o vidro pra se desculpar e tentar um escambo: “Não tenho a moeda, mas leve esse sorriso”. Risoleta diz (apenas diz e não reclama) que a atitude dele não irá resolver o problema da má distribuição de renda e, muito menos, garantirá um futuro digno aos pequenos pedintes. Mas, lá no fundo, e pelo peso que lhe cai sobre a consciência por não fazer nada melhor, aprova a caridade torta de Rigoberto. Rigoberto também não reclama dos operadores de telemarketing, que vão estar se ferrando com o tal cadastro de proibição. E nunca, jamais, reclama de Risoleta. Quer dizer, só reclama que ela reclama, mas aí é a antiga reclamação. Rigoberto é cientista social, então, se é contra o status quo, o trânsito de São Paulo, os países que não assinam o protocolo de Kyoto ou a lei antifumo, ele contesta. Politicamente. Com argumentos pesados, em todos as acepções que a palavra reserva. Risoleta, que sempre foi diplomática, compassiva (pra usar um termo que Rigoberto gostaria), polida, anda mesmo com vontade de chutar o pau da barraca. Encontrou alguém cuja tolerância faz dela, que se julgava a complacência em pessoa, uma general do Terceiro Reich. E a cada concessão que seu amado faz por aí, ela fica mesmo com mais e mais vontade de reclamar, intransigir, emputecer e adiar para sempre o seu Nobel da Paz particular. Rigoberto não aceita. Acha que Risoleta está insatisfeita com tudo e com ele, especialmente. Como alguém pode estar insatisfeito com ele? Ele, que nunca reclama de nada, quase um embaixador da paz mundial! Isso é uma afronta pessoal! Risoleta tem certeza de que não é. E o acha vaidoso. Ela não se acha dona da razão, pelo contrário, tem dias em que faz questão de abrir mão de qualquer razão. Só pra poder gritar e xingar e ser uma pessoa de verdade. É certo que entre reclamações, tem havido ótimas confraternizações entre os impugnantes. Tomara que não cheguem ao tribunal.

P.S.1: Risoleta e Rigoberto são nomes fictícios e preservam a identidade dos reais personagens dessa trama.
P.S.2: Essa história pode vir a ter continuação.

terça-feira, 31 de março de 2009

Vó

Às vezes, encontro coisas tão parecidas com o que eu sinto, que me assustam.

O dia nasceu tão vibrante, com um brilho no olho das janelas que não deu: lembrei-me de minha avó, a Maria de Jesus. Vó do céu, que saudade, meu colo mais vibrante, a gargalhada que me fazia cócegas. Um amor desse, minha gente, um amor desse um dia perde o corpo e você não o ouve mais. Vou regar o jardim, que precisa de água, e caso você possa abraçar sua avó, diga que eu a amo também.

(Andréa del Fuego)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Hoje

Para T,

Hoje é um dia especial. Ia dizer importante, mas acho que o que importa mesmo é ser especial. E nessa profusão de informação que me entope o peito de ansiedade, não vou conseguir reunir as palavras certas pra te dizer por que estamos dando esse passo juntos. Na verdade, eu sei por quê: porque eu amo nosso amor. E por que eu amo nosso amor? Vou emprestar as palavras da Marla.

Porque você chegou assim
Derramando poesia em mim
Inaugurando meu caderno
De pressentimentos bons

Por todas as noites e tardes
E amanheceres intensos
Pelos longos dias que passaram rápido
Pela história de prosperidade incerta
Mas de tanta inteireza e entrega
Eu te guardo na lembrança mais bonita

(Por todas as páginas que vestimos pra nos desnudarmos)

Meu menino bom
Meu poeta particular
Meu amante voraz
Por você se derramar
Até eu ficar molhada
Jamais esquecerei tuas incandescências
E esse amor que acendeu em mim
Novas exuberâncias

E se nunca havia me comprometido com tanta certeza
É porque eu tentava caminhar onde não havia espaço

(E no seu abraço eu encontrei o caminho mais perfeito pro meu próximo passo)

Marla de Queiroz


P.S.: Nunca vou esquecer que você me incentivou a ler "Mulheres", do Galeano. Meu melhor presente dos últimos tempos. E eu não ligo de chorar no metrô.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O balanço

O amor fica nesse vai-e-vem
Pra lá e pra cá
Pra cá e pra lá
Vontade de deixar ir
E se ele não voltar?
Preguiça desse balançar

Volta aqui, amor
Deita no meu colo
Tira o frio da minha pele
Me embala com vagar
Medo desse balançar

Será que cai?
Será que vai?
Pra não voltar?
Volta aqui, amor
Se balançar demais
Meu coração pode escapar

Escapa, não
Não tem vazão
Balança pra lá, balança pra cá
Gira, cambaleia
Suspende, repousa e se arrima
No riso desse teu olhar

terça-feira, 10 de março de 2009

Dia D

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

(Valsinha - Chico Buarque)

quinta-feira, 5 de março de 2009

?

“Pra onde vamos?” Achei que essa fosse a pergunta. Pra uma casa grande, um apartamento menor, um, dois quartos, uma casinha com espaço pra roseira, um canto pro cachorro? Estava apreensiva e feliz. As minhas, as suas coisas, adiante as nossas, e assim nos arranjaríamos com os nossos sonhos, dificuldades e certezas. De repente, essa sentença ficou grande demais. Perdeu sua convicção por esse chão árido da convivência e ganhou força apenas na dúvida: Vamos??? Eu era assim, você assado, eu fazia aquilo, você não fazia isso. Éramos dois estranhos: perfeitos um pro outro! Nada mais natural do que planejar uma vida inteira juntos, pra caber toda vontade dos nossos olhos ávidos e encantados. Com todos os meus pés no chão, e alguns atrás, escolhi me apaixonar por você. Por você? E quem era você? E você? Por quem se apaixonou? Estamos apaixonados pelas pessoas que somos, que fomos, que seremos? Existencialismo, agora, talvez não ajude muito. Só queria te dizer que há muito não sonho com príncipes. Nunca tive muita paciência pra contos de fadas. Fantasia, pra mim, sempre perpassou a humanidade que não cabe nas fábulas. Gosto mesmo é daquele alumbramento de que falou o Bandeira. Mas aí é quase revelação e não se pode questionar muito. Somos inquietos demais; nisso nos parecemos. Você, menos aventureiro, quer garantias. Eu, sempre, sempre e sempre, teimosia tatuada na alma, querendo ver o que é que tem lá na frente, o que é que vai ser. Será??? Tudo complicou quando eu decidi que não ia dar bola pra esse tal de destino. De lá pra cá, a única maneira de conhecer o final de uma história é chegando na última linha do último capítulo. Claro, não é persistência gratuita. É quase uma saudade antecipada me imaginar sem esse carinho que você me faz com o dorso da mão. Será que a gente já se conhece tanto pra dizer que não? Ou precisamos nos conhecer ainda mais pra dizer que sim? Aquele sim que a gente disse quando só sabia da delícia de uma recém-descoberta. Eu queria mesmo é que fosse lindo e simples como prometemos. Apenas aquele amor feinho da saudade roxa, multicolorida. Tentamos? Continuamos? Sim, eu quero.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Dores, saudades, remédios

Eu precisei tanto de você. Do seu colo, seu afago, de você me levando na benzedeira pra tirar tudo de mau que havia dentro de mim. Ai, como eu queria que você estivesse aqui e que toda essa dor pudesse passar com água benta e um sinal da cruz feito por uma mão enrugada. Fez dois anos que você se foi. Me deixou órfã do amor mais terno que eu já tive na vida. Um amor que pedia um abraço macio, uma barra de saia e paciência infinita ... É verdade que, antes de você ir, já fazia tempo que eu não tinha mais a intimidade e o tamanho do aconchego dos seus braços cansados. Mas a sua presença me acolhia. Era olhar pra você e trazer de volta tudo aquilo ... Você não dizia nada, mas eu sabia. Hoje, o que eu sei é que saudade assim não dói todo dia. Mas quando dói, abre o peito da gente e se mistura a outras dores residentes. Eu pedi tanto. E sabia que você não faltaria. Aquele machucado no joelho, tão inflamado, foi você quem cuidou. Eu tive certeza que só um curativo feito por você me acalmaria essa inflamação de agora. Obrigada por embalar meu sono mais uma vez.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Odoyá!

Iemanjá, Iemanjá
Iemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
Iemanjá é muita tristeza que vem

Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De Iemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar

Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir Iemanjá

A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além do que o fim do mar
Bem mais além

Canto de Iemanjá (Baden e Vinícius)

Singelo

Para T

eu queria te escrever bonito
porque feio já escreve todo mundo
mas se eu sou parte do mundo que é todo
do mundo que é lindo
como pode ser feio o que tenho no fundo?
como pode ser bobo o que tenho no todo?
só pode ser lindo o amor que te tenho
só pode ser todo o que vive no fundo

eu queria te escrever bonito
pra esse amor nunca faltar no teu mundo

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Escolhas

Eu vou torcer pela paz
Pela alegria, pelo amor

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Pelo inverno, pelo sorriso
Pela primavera, pela namorada
Pelo verão, pelo céu azul
Pelo outono, pela dignidade
Pelo verde lindo desse mar

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Eu vou torcer pela paz
Pela alegria, pelo amor

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Pelas coisas úteis
Que você pode comprar
Com dez reais
Pelo bem estar
Pela compreensão
Pela agricultura celeste
Pelo meu irmão
Pelo jardim da cidade
Pela sugestão
Pelo amigo
Que sofre do coração

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Eu vou torcer pela paz
Pela alegria, pelo amor

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Om shanti, shanti shanti
Hari Om

Eu vou torcer pela paz
Pela alegria, pelo amor

Pelas coisas bonitas
Eu vou torcer
Eu vou

Eu vou torcer pela paz
Eu vou torcer pela paz

"Eu vou torcer pela paz
Pelo amor, pela alegria
Pelo sorriso
Eu vou torcer pela amizade
Pelo céu azul, pela dignidade
Pela tolerância, pela natureza
Pelos meninos, pelas meninas
Por mim, por você
Eu vou torcer! Eu vou torcer!"

(Eu vou torcer - Jorge Benjor)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Oferta

Eu pensei que fosse fácil amar. E que difícil era não ter em quem me enroscar em tardes de chuva. Achei que o amor fosse doce. Porque o amargo da solidão eu tinha na ponta da língua. Pensei uma vida de sonho, uma casa irreal, onde coubessem um mais um, o cachorro amarelo e o almoço na mesa. O próprio comercial de margarina. Desejei entendimento, beijos apaixonados, sexo sem tédio, filhos a médio prazo. Abri mão do espaço que sobrava na minha cama, pra acomodar uma velhice de mãos dadas. Dei minhas mãos pra vida faz tempo. E agora, dei meus sonhos pra você. Mas você não quer sonhar os meus sonhos; prefere mastigar meus pensamentos, revirar meus sentimentos e eu pergunto: com que direito? Com que direito retorce os meus desejos, achados, quereres? Como chega com esse cheiro, esses dedos, tão sem medo, e desliga a minha fantasia? Eu nem sabia que era fantasia. Acreditei no impossível. Mas você veio cheio de raiva, amor, ternura, melancolia, dor e verdade, e despejou sua humanidade no meu cotidiano de espera. Sem a menor cerimônia, escava minhas feridas adormecidas com a displicência com que espreme os cravos da minha pele. Reverte os meus planos; os planos que fiz comigo mesma, sem levar em conta o que podia dar errado. E eu sinto falta da minha cama vazia, de me esconder dentro de mim, de ser alguém que espera e espera, sem se importar pelo quê. Sinto falta das perguntas que eu me fazia, porque meu silêncio sempre foi da boca pra fora. Indiferente, você muda minhas perguntas, questiona o meu discurso, faz com que eu ria de mim mesma. E me faz ver que o amor nem sempre é bonzinho, limpinho, bonitinho, asséptico. O amor tem vísceras e sangra. Enlouquece, suja e marca. Era isso que eu não sabia. E agora que eu sei, continuo querendo te amar. Mas, afinal de contas, com que direito você sai da minha cama, no meio da noite, reivindicando liberdade? Justo você que roubou minha guerra solitária, minha paz de mentirinha?! Continuo querendo te amar. Com que direito você faz meu peito sufocar, amar e odiar, num mesmo instante, sem nenhuma contradição? Continuo querendo te amar. Você não quer tanto saber o que eu penso? Com que direito? Com que direito quer invadir meus escombros, retirar, grão por grão, tudo isso que me preenche? E o que não enche? Meus abismos, quer pra você? Meu fosso, meus assombros, minhas náuseas? Isso eu jamais te darei. Fique com meu amor. Essa é a oferta do dia.

domingo, 4 de janeiro de 2009

É tão bonito ...

Para T

O meu coração hoje tem paz
Decepção ficou pra trás
Eu encontrei um grande amor
Felicidade enfim chegou
Como o brilho do luar
Em sintonia com o mar
Nessa viagem de esplendor
Meu sonho se realizou
A gente se fala no olhar, no olhar
É água de chuva no mar, no mar
Caminha no mesmo lugar
Sem pressa, sem medo de errar
É tão bonito, é tão bonito o nosso amor
A gente tem tanto querer, querer
Faz até a terra tremer, tremer
A luz que reluz meu viver
O sol do meu amanhecer
É você

(Água de Chuva no Mar - Beth Carvalho)

Ano Novo

Não sou afeita a retrospectivas e não foram poucos os sacolejos do ano que dorme em paz. Quase tudo que eu vivi está aqui, em poucas palavras, escondido ou revestido nas cores que eu enxerguei: rupturas, perdas, encerramentos, sustos, conquistas, um grande amor. Vou deixar 2008 descansar suas turbulências e desejar que este novo ciclo seja benfazejo para todos nós.


E, como não poderia deixar de ser, faço minha lista de desejos para 2009:


- infinitos sorrisos da Gabi
- milhares de beijos do Thi
- infindáveis conversas com a Iá
- encontros regados de alegria com a Kel
- passinhos de dança do Gu
- todos os amigos que puderem chegar
- a cumplicidade da Ni
- praias novas e as revisitadas
- livros
- poesia
- samba, suor e cerveja
- tempo
- Sampa sem trânsito
- sonhos
- trabalho
- vinho no frio
- sonhos em realização
- confraternização
- todo o amor que houver nessa vida

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dissabor

Pois é, cantinho. Hoje vou me comportar como amigo ingrato. Sabe aquele que, apesar da ingratidão, a gente até fica feliz quando não aparece, porque isso é sinal de que as coisas vão indo bem? E aí, quando alguma coisa dá errado, lá vem ele ... chorar as mágoas e decepções no colo benevolente do amigo pro qual não teve muito tempo, porque estava ocupado demais em ser feliz. É por isso que eu nunca me ocupo demais com essa brincadeira de ser feliz. Tenho me ocupado em viver, triste ou feliz, amando as pessoas que me estendem suas mãos dia após dia, e pra quem eu estendo as minhas até debaixo de tempestade. Mas, hei de confessar: a dor é muito mais inspiradora que a alegria. Porque a alegria a gente quer reter, conter, amarrar dentro da gente, não soltar de jeito nenhum, não dar chance pra ela escapar. Então, nos encolhemos sobre ela e a protegemos. Mas, nem toda proteção e todo cuidado do mundo podem mantê-la, como se fosse indelével. A dor, ao contrário, a gente precisa expelir, expulsar, vomitar, pôr pra fora das nossas vísceras (que é onde dói mais; nesse limbo que não se sabe bem localizar). E assim, a gente procura todos os meios por onde se possa fazer esse expurgo. Chora, grita, incompreende, escreve. Nessa minha alegria interrompida, fico feliz, pelo menos, em poder voltar a este canto. Em poder ver as palavras correndo entre os meus dedos, numa fluidez que há tempos não acontecia. Em pensar que eu cogitei não voltar mais aqui, eliminar tudo que me lembrasse a alegria que me foi roubada ... Perdão! Quanta ingratidão a minha! Mais do que poder despejar meu amargor aqui, só mesmo um consolo indescritível: a amiga que chora comigo a minha trsiteza, que não se conforma, que sente a revolta que se sente, quando ferem um irmão da gente. Afinal, uma esperança. A certeza de que alguém nesse mundo faria o que fosse pra não me ver sofrer. Hoje eu tenho certeza de que as dores têm gostos. É assim que as distingüimos. De acordo com a intensidade, nosso paladar percebe sabores mais ou menos amargos, mais ou menos azedos; todos eles desagradáveis. Esse gosto que está na minha boca, hoje, eu ainda não havia experimentado. Não sei defini-lo, nem se é o pior que eu já senti. Acho que é, sim, o mais desconhecido, o mais inesperado. Os outros já me eram familiares.

A graça da vida é saber que o fel vai embora. E assim, a gente libera o paladar pra voltar a sentir o sabor do açúcar e do sal, do doce e do acre. Alternadamente. Como deve ser.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O melhor lugar é onde estamos nós

Se fosse por mim
Eu ficava
Mas vê como tudo lá fora mudou
O tempo passou
Feito um louco
Quebrando as vidraças
E a gente ficou
Aqui, sem ter nem pra onde ir,
Por medo ou preguiça
Aqui, ilhados por nós
Sequer rastreados por nenhum radar
Aqui parecia ser o melhor lugar

Quem disse que a gente precisa
Perder um ao outro pra se encontrar
Se nada nos prende ao passado
Não é o futuro que vai separar

Enfim
Encosta teu barco em mim
Que o sol já se pôs
A sós
O mundo termina
Na fina fronteira dos nossos lençóis
Em nós
Espalham-se os laços
Desfazem-se os nós

Sonhamos paisagens, compramos passagem
E nunca voamos pra lá
Enfim
Passeia tua boca em mim
Até me calar
Aqui ainda parece o melhor lugar

(Melhor Lugar - Jorge Vercilo)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Instantes

Surpreendo-me por surpreender-me com coisas tão banais. Ontem, depois da chuva, formou-se um tapete de flores amarelas sobre o chão. Parecia um manto dourado, um caminho pra uma paisagem iluminada. Entrei no carro e fui embora. Trânsito, chuva, medo, finalmente em casa. Por isso é preciso parar, um minuto que seja, e contemplar essas brechas de harmonia, momentos de poesia cotidiana. E, se possível , regar a alma e trazê-las pra dentro de nós. Isso daria um haicai, se eu tivesse aprendido a fazer economia.

*

Hoje de manhã, me lembrei de como tudo começou. E sempre que me lembro busco um outro ângulo, porque aconteceu de várias formas diferentes. Enquanto eu olhava pra frente, preocupada com o estreitamento da via, ou com aquela situação de estar tão próxima de um quase desconhecido, você beijou o meu rosto. Assim, sem que fosse um cumprimento, uma despedida ... apenas encostou seus lábios e beijou. Quando eu virei, sem saber o que dizer, timidamente tentando sorrir, você disse: "Obrigado!". Eu ainda quis saber por quê. "Por você estar aqui. É bom conhecer as pessoas". Eu ainda demorei a entender. Ainda bem que os seus sentidos foram mais longe. É bom conhecer pessoas. É bom o amor acontecer.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Filosofia leguminosa

Hoje pela manhã, o Sr. Raji ensinava como se deve escolher berinjelas: "elas precisam estar leves, brilhantes e macias". Fiquei pensando que tudo na vida deveria ser escolhido baseado nesses critérios. Taí: a vida precisa ser como a melhor das berinjelas.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Mais um dia frio

Hoje eu queria tirar férias de mim. Das minhas preocupações, minhas inseguranças, minhas vontades que não podem ser realizadas e até desse meu corpo que anda cansado de correr de lá pra cá, de cá pra lá, sem espaço pra uma horinha de vazio. Queria ser dona do meu tempo, sem me sentir culpada por não querer trabalhar, estudar, pensar, analisar. Queria ler poesia de Guimarães Rosa, contos de Mia Couto, abraçada por uma rede ensolarada. Não pensar em relógio, celular, em não chegar atrasada no trabalho, ou chegar rápido em casa pra poder dormir meia hora a mais. Não ter que falar com os amigos entre um farol fechado e outro, ou enquanto corro pela avenida, antes de engolir o almoço. Queria diminuir distâncias pra poder passar uma quinta-feira inteira nos braços do meu amor. Sem msn, SMS, DDD e todas essas siglas que teimam em me lembrar que eu não vou me curar da ressaca deste inverno na sede dos seus beijos. Queria comer fruta madura, perfumada, com polpa macia e casca colorida. Sentir cheirinho de neném e aliviar meus ouvidos com a música risonha de quem ainda não deu os primeiros passos.

E, por fim, deitar no colo da minha avó, ouvir aquela voz enrolada, acarinhar aquela pele tão pedinte de afagos. Mas aí, são saudades irremediáveis, dos amores insuficientes da nossa alma. Saudade que só se pode deixar doer, doer, doer, fundo, porque nunca vai cessar.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Plena e simplesmente

Para T.C.P.S.

Sou sua luz
Sou sua cruz
Sou sua flor
Sou sua jura
Sou sua cura
Pro mal do amor
Sou sua meia
Sou sua sereia
Cheia de sol
Sou sua lua
Sua carne crua
Sobre o lençol
Sou sua Amélia
Sou sua Ofélia
Sou sua foz
Sou sua fonte
Sou sua ponte
pro além de nós
Sou sua chita
Sua criptonita
Sou sua Lois
Sou sua jóia
Sou sua nóia
Sua outra voz
Sou sua
Sou sua
Sou sua
Plenamente
Simplesmente

(Sou sua - Adriana Calcanhoto)

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Trilha para uma manhã quase ensolarada

Bom dia, tristeza
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você

Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar

(Bom dia, tristeza - Vinícius e Adoniran)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Machado de Assis em poucas palavras

Hoje é aniversário do centenário de morte de Machado de Assis. Quem acompanha o mundo das Letras sabe que não se fala em outra coisa, desde que o ano começou. E os clichês se repetem em tudo quanto é reportagem, afinal os comentaristas/literatos/críticos/professores já esgotaram o repertório. Professor Pasta, que sabe tudo do "bruxo do Cosme Velho", ou sobre "o negro, pobre, gago e epilético que se transformou no maior escritor de nossa literatura" (haja papagaio pra repetir isso!) deve achar graça. Eu acho! Até porque Machado foi mesmo o maior sociólogo desse país. Não dá pra entender o Brasil sem Machado (xiiiii, mas isso também é clichê!). Pra não correr risco de ficar falando bobagem, então, me lembro de duas coisas que me marcaram na obra do "mestre" (sem essa palavra não se fala em Machado). A primeira foi, durante a releitura de Dom Casmurro, descobrir que Capitu era inocente. Sim, eu descobri! Vocês ainda têm dúvidas? Capitu não traiu Bentinho (ainda que ele merecesse). O doido do Bento Santiago era completamante descontrol, tadinho! Outra coisa que me lava a alma em Machado é a ironia. Característica básica e fundamental de boa parte da narrativa de seus personagens, a ironia é que torna sua obra literatura, e não tratado de sociologia.

Essa doce melodia

Pra você,

Não suporto mais tua ausência
Já pedi a Deus paciência ...

Pra não deixar o samba morrer

Deixei passar vários assuntos que me sacudiram o espírito nas últimas semanas, como o impacto de ter assistido ao "O Ensaio sobre a Cegueira", a decepção com "Devoção" e a beleza do "Revelando São Paulo". Mas não dá pra deixar a falta de inspiração e a preguiça dominarem tanto, ao ponto de me calar diante da maravilha que é O Mistério do Samba . O documentário de Lula Buarque de Holanda, conduzido por Marisa Monte, passeia pelo bairro carioca de Osvaldo Cruz, berço da Portela, e nos leva sentidos adentro por uma viagem musical que se descobre ali, na hora exata em que a Velha Guarda da Escola abre suas portas de casas simples e suas caixas esquecidas com muitos sambas inéditos. Casquinha, Argemiro, Dona Surica, Áurea, Zeca Pagodinho e Monarco são apenas alguns dos personagens que nos emocionam. A rabugice de Dona Eunice, que diz que "esse negócio de amor vira a cabeça das pessoas" chega a ser engraçada. Argemiro canta um samba triste, triste, e alguém comenta que a história da música é de chorar. A resposta é evidente: "sem tristeza não se faz samba bonito". A voz de Marisa Monte aparece em algumas rodas de samba, acompanhada pelas pastoras da Portela, ou pelo violão de Paulinho da Viola. Que voz! Divina e graciosa! O Mistério do Samba nos dá vontade de passear pelo Rio que não é o Leblon. E de sair cantarolando as canções desses homens simples, operários da vida e do samba!



Samba
Velho amigo e companheiro
Alegria dos nossos terreiros
Há muitos anos atrás
É este o mesmo samba verdadeiro
Que partiu para o estrangeiro
E penetrou nas camadas sociais
Samba do Estácio e Ismael
De Cartola e Mestre Paulo
Bide, Mano Rubem e Noel
Estácio, Mangueira e Portela
Tijuca, Favela
Os professores do morro
Nos mesmos ideais
Fizeram a grande alegria
Dos carnavais
Foi aí que o samba evoluiu
Como representante maior
Da cultura do Brasil

(Samba, Velho Amigo - Monarco)

Florescer

Demorei pra voltar a este canto. Saí do verão mais amazônico do país e aterrissei neste demorado inverno paulistano, que não quer ceder à primavera. Tenho aguentado bem. Café expresso e cachecol. Mas meu coração tá em choque térmico. Tá pulsando cansado, nostálgico, sem entender direito esse vai-e-vem de emoções. O jeito é viver todos os invernos de uma só vez. Vou tomar chá, emprestar a alegria dos sorrisos das crianças e a melancolia de canções antigas. Vou vestir meias grossas e luvas, se for preciso. E seguir em frente. Vou abraçar todas as ausências que quiserem me fazer companhia. Vou visitar de novo as paisagens daquele deserto tão familiar. O deserto é refúgio, às vezes. Mas agora eu sei que o inverno vai passar. O amor sempre floresce, quando plantado em nós. Rego meu imenso amor com lágrimas de saudade. E adubo com a certeza de que, no frio e no calor, vale à pena esperar pelas flores.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Partida

O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
O que será ser moça
E ter vergonha de viver

Ter corpo pra dançar
E não ter onde me esconder
Tentar cobrir meus olhos
Pra minh'alma ninguém ver
Eu toda a minha vida
Soube só lhe pertencer

O que será ser sua sem você
Como será ser nua em noite de luar
Ser aluada, louca
Até você voltar
Pra quê

O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
Quem vai secar meu pranto
Eu gosto tanto de você

(Abandono - Edu e Chico)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Chegou!

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas, se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim...

Tom Jobim - Chega de Saudade

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Pega aí!

Para T.C.P.S.

Chega de agonia. Não há galho de goiabeira (nem de castanheira, pitangueira ou sumaumeira) que me impeçam de te namorar. Amarrei meu coração numa pedra e mandei pelo ar. Nenhuma chance dele se enroscar. Mas ainda leva uns três dias pra te alcançar ...

Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa porum cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

(Manoel de Barros - A namorada)

Um dia comum

A saudade atropelou a ansiedade, que atropelou a si mesma. E assim, meu desejo, agora tão palpável, tão ao meu alcance, me deu trégua pra descansar. Pra esperar com o coração sossegado, andar pelos dias, tomar café com leite, ler uma revista no metrô. Trabalhar com alegria e enxergar os cantinhos onde se escondem os pequenos prazeres. Ou, simplesmente, abandonar a miopia. Rever as paisagens batidas, as ruas de sempre, todas tão mais ensolaradas. Há tão pouco tempo me engoliam e, hoje, me abriram um sorriso. Devolvo a gentileza e isso me enche os pulmões. Reconheço um rosto amigo numa portaria, numa lanchonete, nessa minha vida que surpreende, sem espantar. Queria poder caminhar sempre leve assim. E vou tentar. Posso até me lembrar de respirar devagar, corrigir a postura. Andar altiva pela tarde e retribuir, um pouquinho que seja, toda a beleza de um dia comum.