segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Machado de Assis em poucas palavras

Hoje é aniversário do centenário de morte de Machado de Assis. Quem acompanha o mundo das Letras sabe que não se fala em outra coisa, desde que o ano começou. E os clichês se repetem em tudo quanto é reportagem, afinal os comentaristas/literatos/críticos/professores já esgotaram o repertório. Professor Pasta, que sabe tudo do "bruxo do Cosme Velho", ou sobre "o negro, pobre, gago e epilético que se transformou no maior escritor de nossa literatura" (haja papagaio pra repetir isso!) deve achar graça. Eu acho! Até porque Machado foi mesmo o maior sociólogo desse país. Não dá pra entender o Brasil sem Machado (xiiiii, mas isso também é clichê!). Pra não correr risco de ficar falando bobagem, então, me lembro de duas coisas que me marcaram na obra do "mestre" (sem essa palavra não se fala em Machado). A primeira foi, durante a releitura de Dom Casmurro, descobrir que Capitu era inocente. Sim, eu descobri! Vocês ainda têm dúvidas? Capitu não traiu Bentinho (ainda que ele merecesse). O doido do Bento Santiago era completamante descontrol, tadinho! Outra coisa que me lava a alma em Machado é a ironia. Característica básica e fundamental de boa parte da narrativa de seus personagens, a ironia é que torna sua obra literatura, e não tratado de sociologia.

Essa doce melodia

Pra você,

Não suporto mais tua ausência
Já pedi a Deus paciência ...

Pra não deixar o samba morrer

Deixei passar vários assuntos que me sacudiram o espírito nas últimas semanas, como o impacto de ter assistido ao "O Ensaio sobre a Cegueira", a decepção com "Devoção" e a beleza do "Revelando São Paulo". Mas não dá pra deixar a falta de inspiração e a preguiça dominarem tanto, ao ponto de me calar diante da maravilha que é O Mistério do Samba . O documentário de Lula Buarque de Holanda, conduzido por Marisa Monte, passeia pelo bairro carioca de Osvaldo Cruz, berço da Portela, e nos leva sentidos adentro por uma viagem musical que se descobre ali, na hora exata em que a Velha Guarda da Escola abre suas portas de casas simples e suas caixas esquecidas com muitos sambas inéditos. Casquinha, Argemiro, Dona Surica, Áurea, Zeca Pagodinho e Monarco são apenas alguns dos personagens que nos emocionam. A rabugice de Dona Eunice, que diz que "esse negócio de amor vira a cabeça das pessoas" chega a ser engraçada. Argemiro canta um samba triste, triste, e alguém comenta que a história da música é de chorar. A resposta é evidente: "sem tristeza não se faz samba bonito". A voz de Marisa Monte aparece em algumas rodas de samba, acompanhada pelas pastoras da Portela, ou pelo violão de Paulinho da Viola. Que voz! Divina e graciosa! O Mistério do Samba nos dá vontade de passear pelo Rio que não é o Leblon. E de sair cantarolando as canções desses homens simples, operários da vida e do samba!



Samba
Velho amigo e companheiro
Alegria dos nossos terreiros
Há muitos anos atrás
É este o mesmo samba verdadeiro
Que partiu para o estrangeiro
E penetrou nas camadas sociais
Samba do Estácio e Ismael
De Cartola e Mestre Paulo
Bide, Mano Rubem e Noel
Estácio, Mangueira e Portela
Tijuca, Favela
Os professores do morro
Nos mesmos ideais
Fizeram a grande alegria
Dos carnavais
Foi aí que o samba evoluiu
Como representante maior
Da cultura do Brasil

(Samba, Velho Amigo - Monarco)

Florescer

Demorei pra voltar a este canto. Saí do verão mais amazônico do país e aterrissei neste demorado inverno paulistano, que não quer ceder à primavera. Tenho aguentado bem. Café expresso e cachecol. Mas meu coração tá em choque térmico. Tá pulsando cansado, nostálgico, sem entender direito esse vai-e-vem de emoções. O jeito é viver todos os invernos de uma só vez. Vou tomar chá, emprestar a alegria dos sorrisos das crianças e a melancolia de canções antigas. Vou vestir meias grossas e luvas, se for preciso. E seguir em frente. Vou abraçar todas as ausências que quiserem me fazer companhia. Vou visitar de novo as paisagens daquele deserto tão familiar. O deserto é refúgio, às vezes. Mas agora eu sei que o inverno vai passar. O amor sempre floresce, quando plantado em nós. Rego meu imenso amor com lágrimas de saudade. E adubo com a certeza de que, no frio e no calor, vale à pena esperar pelas flores.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Partida

O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
O que será ser moça
E ter vergonha de viver

Ter corpo pra dançar
E não ter onde me esconder
Tentar cobrir meus olhos
Pra minh'alma ninguém ver
Eu toda a minha vida
Soube só lhe pertencer

O que será ser sua sem você
Como será ser nua em noite de luar
Ser aluada, louca
Até você voltar
Pra quê

O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
Quem vai secar meu pranto
Eu gosto tanto de você

(Abandono - Edu e Chico)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Chegou!

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz
Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas, se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De viver longe de mim
Não quero mais esse negócio
De você viver assim
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim...

Tom Jobim - Chega de Saudade

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Pega aí!

Para T.C.P.S.

Chega de agonia. Não há galho de goiabeira (nem de castanheira, pitangueira ou sumaumeira) que me impeçam de te namorar. Amarrei meu coração numa pedra e mandei pelo ar. Nenhuma chance dele se enroscar. Mas ainda leva uns três dias pra te alcançar ...

Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa porum cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

(Manoel de Barros - A namorada)

Um dia comum

A saudade atropelou a ansiedade, que atropelou a si mesma. E assim, meu desejo, agora tão palpável, tão ao meu alcance, me deu trégua pra descansar. Pra esperar com o coração sossegado, andar pelos dias, tomar café com leite, ler uma revista no metrô. Trabalhar com alegria e enxergar os cantinhos onde se escondem os pequenos prazeres. Ou, simplesmente, abandonar a miopia. Rever as paisagens batidas, as ruas de sempre, todas tão mais ensolaradas. Há tão pouco tempo me engoliam e, hoje, me abriram um sorriso. Devolvo a gentileza e isso me enche os pulmões. Reconheço um rosto amigo numa portaria, numa lanchonete, nessa minha vida que surpreende, sem espantar. Queria poder caminhar sempre leve assim. E vou tentar. Posso até me lembrar de respirar devagar, corrigir a postura. Andar altiva pela tarde e retribuir, um pouquinho que seja, toda a beleza de um dia comum.

domingo, 24 de agosto de 2008

De toda cor

Esperar eu espero. Mas, às vezes, me pergunto: tem que ser assim? Provação, necessidade, desperdício? Sei não. Sei que é difícil. Eu aqui, você aí - alguém tá no lugar errado. Não tem telefone, nem câmera que me faça apagar essa falta. Ausência é mais do que não ter a voz, a imagem, uma carta escrita. Ausência que dói mesmo é daquilo que nem bem se materializa. É do que eu sinto quando acordo e me descubro aconchegada na tua pele quente. É de quando percebo um teu sorriso novo, numa situação banal. É de ouvir da tua boca aquilo que eu acabei de pensar. É de achar o café mais gostoso, o tempo mais ameno, a música mais bonita, quando estamos juntos. Ai, meu samba anda tão chorado! Falta de ver o mundo cor de rosa? Quase isso. Acho que é falta de saber que o mundo não é cor de rosa, mas pode ficar, de vez em quando. É falta de sair do teu lado pra respirar a solidão e tomar fôlego pra voltar e querer ficar. É tanta coisa. A tua ausência é o oposto da tua presença, que é oposto do escuro, do susto, do amargo. A tua presença é o que eu desejo agora e o que eu quero desejar pra sempre.
*
A tua presença
Entra pelos sete buracos da minha cabeça
A tua presença
Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
A tua presença
Paralisa meu momento em que tudo começa
A tua presença
Desintegra e atualiza a minha presença
A tua presença
Envolve meu tronco, meus braços e minhas pernas
A tua presença
É branca, verde, vermelha, azul e amarela
A tua presença
É negra, negra, negra
A tua presença
Transborda pelas portas e pelas janelas
A tua presença
Silencia os automóveis e as motocicletas
A tua presença
Se espalha no campo derrubando as cercas
A tua presença
É tudo que se come, tudo que se reza
A tua presença
Coagula o jorro da noite sangrenta
A tua presença
É a coisa mais bonita em toda a natureza
A tua presença
Mantém sempre teso o arco da promessa
A tua presença
Morena, morena, morena ... morena
*
(A tua presença morena - Caetano Veloso)

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Carta Aberta

Hoje recebi uma linda carta de amor. E quero respondê-la aqui. Não na íntegra, mas uma pequena parte. Por quê? Porque estive pensando que as pessoas que escrevem publicamente, ainda que em um canto escondido e quase anônimo como este, o fazem não por necessidade de aprovação, admiração, ou coisa parecida. Penso nos blogues de amigos e desconhecidos que acompanho com carinho, e, mais que isso, com gratidão. Sim, taí um "ão" que faz a diferança! Uma poesia de um aqui, uma frase inspiradora de outro acolá ... Quantas vezes não salvaram meu dia, me acalentaram o espírito, me trouxeram esperança, ou simplesmente me fizeram rir e enxergar tudo de um jeito mais leve? Então, acho que nisso está a verdadeira intenção do que fazemos: quem sabe ter a sorte de afagar um transeunte qualquer. Compartilhar indignação, frustração, tristeza, angústia, alegria, decepção, ternura, ou seja, um pouquinho de humanidade.
E assim, justifico minha decisão de postar parte de uma reposta a uma carta de amor; afinal, o amor será sempre o melhor que teremos a compartilhar.

Meu amor, sua carta me trouxe belas palavras, muitas aflições, algumas preocupações. Você falou sobre a sua confiança no nosso encontro e no que você espera poder representar pra mim. Preocupação acertadíssima, mas desnecessária. Você já representa muita coisa. Representa a possibilidade de realização dos meus sonhos mais sinceros, dos meus desejos mais secretos. Sinteticamente, posso dizer, a oportunidade de cuidar do essencial. E o que é essencial? Aprender e ensinar. "Aprender, servir e ajudar", você disse. Viu como pensamos parecido? Você falou tanto na sua vontade de corrigir suas imperfeições. Sabe, desde que tenho você comigo, também lido bem mais de frente com as minhas imperfeições. Não só porque a sinceridade é sua pior qualidade e seu melhor defeito, mas porque o amor nos põe à prova o tempo todo, revelando-nos o nosso egoísmo, os nossos medos, as nossas carências, as nossas necessidades nem sempre saudáveis. Não seria exagero dizer que o amor desvela o que há de melhor e pior em nós. Estamos bem longe de amar platonicamente, amar desprendidamente, desejando essencialmente o bem do outro. Amamos e queremos o nosso próprio bem, o bem que o outro nos provoca. Por isso, o melhor que você poderia significar pra mim é a certeza de que quero, sim, fazer esse exercício de amar verdadeiramente, e não egoisticamente. Você me ensina muito e sempre. Por exemplo, já aprendi que acordar do teu lado me faz ter mais confiança de que é possível melhorar muita coisa nesse mundo maluco. Você me ensina a dirimir meus preconceitos bobos, das formas mais improváveis. Quando declama os poetas que eu amo e não rejeita os livros que eu desprezo. Quando pega Pasolini e algo como "Duro de Matar" na locadora e me pergunta o que vamos ver primeiro. Quando me faz ouvir e gostar, na mesma semana, de Uakiti e Amy Winehouse (só com muito amor mesmo! rs). Quando me faz ter vontade (bem incipiente, mas ...) de voltar a estudar inglês, enfim ... E por que mais eu quero tanto aprender a "amar certinho"? Porque você olha para todas as crianças, como se cada uma fosse a mais especial. Porque você ama com o coração transbordando. Porque você não dá sobras; você se dá inteiro. Porque você não tem medo de amar. Porque você tem medo de viver sem amor. Porque você me faz querer ser a melhor mãe do mundo. Porque você ri quando eu quero chorar e chora quando eu quero rir (isso não é perfeito?). Porque você não permite que eu fique emburrada por mais de 24 horas (precisamos negociar esse tempo). Porque a sua sensibilidade não me alcança quando eu acho que preciso, mas me enxerga no escuro, quando eu menos espero. Porque você não sabe tudo sobre mim e isso me faz continuar a ser eu. Porque você quer saber mais sobre mim e isso vai fazer com que sejamos cada vez mais "nós". Porque você me ensina o que eu teimo em não querer aprender. E, claro, porque você me lembra que existem verbos que ninguém mais usa e me ensina alguns bons trajetos, o que faz com que eu me perca bem menos na Zona Oeste. rs. Viu, só? Eu bem que tento, mas meu amor continua sendo fundamentado num egoísmo abismal! Eu te amo por esse bem enorme que você me faz. Mas também porque eu acredito na sua proposta de evolução. Afinal, deve ser verdade o que dizem os livros de auto-ajuda: "Casais inteligentes enriquecem juntos". E sei que o nosso enriquecimento não tem a ver com contas polpudas, carro importado, viagens exuberantes. O que há de mais exuberante já temos. E eu te amo porque você me trouxe de volta uma esperança que eu havia perdido: a de que é possível viver e buscar o bem comum. Não importa o que faremos de efetivo, ou se o que faremos será efetivo (reciclaremos nosso lixo? economizaremos água? plantaremos algumas mudas? ensinaremos nossos filhos a respeitarem o planeta e o semelhante incondicionalmente? cuidaremos e ensinaremos crianças que não gerarmos?). Sinto que qualquer coisa que eu fizer contigo será capaz de germinar. E essa é a melhor resposta que consigo te dar nesse momento: a minha confiança. Meu amor, eu quero a sua ajuda. Para aprender sempre mais, para amar de um jeito cada vez mais verdadeiro e, principalmente, para que, juntos, possamos fazer valer a nossa existência.

sábado, 16 de agosto de 2008

Amar em paz

Chegou, sorriu, venceu depois chorou
Então fui eu quem consolou sua tristeza
Na certeza de que o amor tem dessas fases más
E é bom para fazer as pazes, mas
Depois fui eu quem dela precisou
E ela então me socorreu
E o nosso amor mostrou que veio prá ficar
Mais uma vez por toda a vida
Bom é mesmo amar em paz
Brigas nunca mais

(João Gilberto - Brigas Nunca Mais)

sábado, 9 de agosto de 2008

Ele

Ele sabe dos caminhos dessa minha terra
No meu corpo se escondeu, minhas matas percorreu
Os meus rios, os meus braços
Ele é o meu guerreiro nos colchões de terra
Nas bandeiras, bons lençóis
Nas trincheiras, quantos ais, ai

Cala a boca - olha o fogo!
Cala a boca - olha a relva!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara

Ele sabe dos segredos que ninguém ensina
Onde guardo o meu prazer, em que pântanos beber
As vazantes, as correntes
Nos colchões de ferro ele é o meu parceiro
Nas campanhas, nos currais
Nas entranhas, quantos ais, ai

Cala a boca - olha a noite!
Cala a boca - olha o frio!
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara
Cala a boca, Bárbara

(Chico Buarque / Rui Guerra)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Cheiro de flor


Hoje, na Casa das Rosas, não havia nenhuma. Estranhei o jardim deserto. Depois me lembrei: não é mesmo tempo de rosas. E tenho percebido isso melhor do que ninguém. Mas sei que há brotos prontos para florescer. Que setembro venha logo e traga a primavera! Quero as rosas que você plantou em mim. Chega de ser espinhada pela saudade! Quero o perfume doce de flor bem no meu nariz. E a maciez das pétalas na minha pele. Você disse que a vida é difícil sem pontuação. Vejo que é o contrário. Como doem essas pausas longas, tantos pontos de interrogação (apesar de uma certeza absoluta, insuperável). Ponto final, então, pra quê? Não podíamos deixar a vida simplesmente correr, indefinidamente? Mas sem ponto não se muda de parágrafo, nem de história. Com você eu só quero reticências. Quero uma primavera inteira, todas as estações, e posso deixar as rosas pra depois. Agora eu tô de olho mesmo é numa vitória- régia. Aliás, que bobagem o nome homenagear rainha inglesa. Uapé é tão mais bonito! Bonito como o meu sorriso perto do teu. Eu vou. Quero deitar numa uapé contigo e me inundar de exclamações.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Fim de mês

Para T.C.P.S.

Quando será que eu vou encontrar
Paz pro meu coração
Se eu não enlouquecer de amor, eu vou ver minha vida acabar

E pensar em você é alívio
Arrasa solidão
E logo torna-se um precipício, pesadelo que vaga pelo ar

As coisas que eu penso e que ninguém quer entender
As coisas que eu faço e que ninguém deseja ver
É por essas e por outras que eu preciso de você
Só você sabe como e por quê

Queria chegar e te abraçar
E pelo coração te amarrar
Em vez de te ligar, eu iria te beijar e todos os meus sonhos
iriam acordar

(Agosto - Simoninha)

Por que não é?

devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido
estar do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido...

(Devia ser proibido - Alice Ruiz)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Certinho, feinho, amor ...

Para amenizar um pouco, em clima de bossa ...

Amor à primeira vista
Amor de primeira mão
É ele que chega cantando, sorrindo
Pedindo entrada no coração
O nosso amor já tem patente
Tem marca registrada, é amor que a gente sente
Eu gravo até em disco todo esse meu carinho
Todo mundo vai saber o que é amar certinho
Esse tal de amor não foi inventado
Foi negócio bem bolado direitinho pra nós dois, foi ou não foi?
Esse tal de amor não foi inventado
Foi negócio bem bolado direitinho pra nós dois

(Amor Certinho - Roberto Guimarães, por João Gilberto)

Urgência

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.
(Clarice Lispector)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Bate-papo comigo

Ando esquecida de mim, de tanto que amo e sinto saudade. Incongruência? Total. Eu sou amor e saudade. Ambulante. Por aí, às turras com a vida. Ainda não sei se busco coerência, congruência. Sou simples demais pra isso. Busco consistência? Pode ser. Mas não nos bancos universitários, ou na filosofia alemã. Busco consistência na minha relação com o outro e comigo. Não sei quantos diplomas são necessários pra entender que viver é uma exigência. Instintivamente, percebo isso desde pequena, cumprindo minhas corriqueiras obrigações. E sigo assim ... simples para os outros, indecifrável pra mim mesma. Ou o contrário. Cheirei tanto a realidade, que acabei me viciando. E não tenho como parar, convicta demais que estou nesse meu pacto com a vida. Pode bater, pode pesar, pode doer ardido no peito; eu não me esquivo. E quem se esquiva? É só o que nos resta: viver (plagiando Gullar, na cara dura). No máximo, me curvo. Efeito colateral é sempre o mesmo: angústia. Sim, lucidez e angústia andam juntas. Inextricáveis. Estou chovendo no molhado. Mas não é só isso, não. Tem amor. Amor não cura; remedia. Amor distrai todos os sentidos de uma só vez. E então, a gente chega a acreditar que é refém dessa tal felicidade. Que o amor dure muito porque, em se tratanto de amor, o muito é sempre pouco. Mas não adianta se iludir: os sentidos logo se arrependem dessa inebriante distração. Não sei por que estou escrevendo isso, divagando tanto. Auto-conhecimento? Sim, blog é mais barato que terapia. Acho que foi só um tempo pra mim, pra eu me lembrar do que sou feita ... embriagada que ando, sob os efeitos latejantes do amor.

domingo, 20 de julho de 2008

Presença

Na almofada branca,
as sandálias sonham
com a seda dos teus pés…

Partiste..
Mas a alegria ainda ficou no quarto,
talvez no ninho morno, calcado por teu corpo
no leito desfeito…

Entardece…
Esfuziante e verde,
um beija-flor entrou pela janela,
(pensei que a tua boca ainda estivesse aqui…)

Do frasco aberto,
vestidas de vespas,
voam violetas…

E na almofada de seda,
beijo as sandálias brancas.
vazias dos teus pés.

AUSÊNCIA - João Guimarães Rosa

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Reminiscências de um sonho (acordada)

Livros, discos, quadros e roupas. Por onde eu passo, esbarro em você. Nessa madrugada, forcei meu pensamento pra te esbarrar nos meus sonhos. Mas não consegui dormir. Então, resolvi sonhar acordada mesmo. E aí, quase esbarro no limite da minha saudade ... Só que minha saudade não tem limite. Queria poder esbarrar o seu cheiro, e aí eu esbarraria uma alegria infinita. Eita verbo estranho - esbarrar! Pode ser tocar de leve ou chocar-se com algo. A mim parecem ser coisas tão diferentes! Penso em como você esbarrou no meu coração. Ai, Vinícius, né? Mas tocou só de leve mesmo. E então, insistiu um pouco, foi esbarrando, esbarrando ... com uma flor, um sorriso de querer sincero, aquela música do Tim ... Ainda pensa em ser diplomata? Lembro das palavras de um sábio homem, que só é um pouco suspeito porque tem tudo a ver com o fato de você existir: Esse menino tem um poder mágico sobre as pessoas! Não sei que dom é esse, que manha é essa. Ô jeito doce de esbarrar nos meus sonhos! Inclusive, nesse sonho acordada, esbarrei na enormidade do que a gente vai viver. Só esbarrei, quer dizer, só cheguei perto. Sei que tem muito mais. Porque, de verdade, você não só esbarrou, não. Você chegou.

A mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas, profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

(M. Quintana - Emergência)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

SIM!

Ele estava no quarto. Ela voltou de pegar alguma coisa da cozinha. Não usava uma lingerie especial, mas o velho pijama de sempre. Estava despenteada, sem perfume. Apenas o seu cheiro de banho recém-tomado. Ia se deitar, estava cansada, mas foi detida pelo abraço dele. Ergueu-a um pouco, olhou para ela com um sorriso resplandecente e perguntou/afirmou: "Sabia que eu adoro esse nosso casamento?!"
Não, eles nunca assinaram nenhum papel, nem estiveram diante de um padre, ou coisa que o valha. Também não ficaram noivos, não namoraram cinco anos para se conhecerem bem e estarem certos do que queriam. Não trocaram alianças, não deram entrada para a compra de uma casa, nem festa para duzentos convidados.
Simplesmente disseram "sim" um para o outro. Brindaram a sorte de terem se encontrado e planejaram viver uma vida em que só caibam coisas essenciais.

Diga sim pra mim - Isabella Tavianni

Eu pensei em comprar algumas flores
Só pra chamar mais atenção
Eu sei, já não há mais razão pra solidão
Meu bem, eu tô pedindo a sua mão

Então case-se comigo numa noite de luar
Ou na manhã de um domingo à beira mar
Diga sim pra mim
Case-se comigo na igreja e no papel
Vestido branco com bouquet e lua de mel
Diga sim pra mim

Eu pensei em escrever alguns poemas
Só pra tocar seu coração
Eu sei, uma pitada de romance é bom
Meu bem, eu tô pedindo a sua mão

Então case-se comigo numa noite de luar
Ou na manhã de um domingo à beira mar
Diga sim pra mim
Case-se comigo na igreja e no papel
Vestido branco com bouquet e lua de mel
Diga sim pra mim

Prometo sempre ser o seu abrigo
Na dor, o sofrimento é dividido
Lhe juro ser fiel ao nosso encontro
Na alegria, felicidade vem em dobro
Eu comprei uma casinha tão modesta
Eu sei, você não liga pra essas coisas
Te darei toda a riqueza de uma vida
O meu amor

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Por favor

Se eu disser que tenho medo
Não pergunte
Não estranhe
Não se acanhe
Apenas pegue a minha mão
Aperte o meu coração
Reconforte-o
Não questione como, nem por quê
Coloque-me no colo e me abrace
Olhe nos meus olhos e diga:
Não tenha medo.
Eu estou aqui!

terça-feira, 8 de julho de 2008

Eu te quero até o fim!

Cá comigo, creio que esse canto será, nos próximos meses, o canto da saudade. Cada um canta o que pode ... Então, vou cantar e contar minha saudade. Enorme! Visceral! Como o meu amor. Fiz uma pesquisa rápida e sei que não faltarão canções e poesias sobre o tema. Sambas, então!!! Arre!!! Samba é mesmo pra isso: pra chorar as dores de saudade. "Porque o samba é a tristeza que balança / E a tristeza tem sempre uma esperança / A tristeza tem sempre uma esperança / De um dia não ser mais triste não ..."
Também não faltarão as minhas palavras, minhas lembranças ... doces, entranhadas!

Começo com essa música linda, na voz da Elis.

Para T.C.P.S. (você, que cultiva rosas e amor como ninguém ...)


Amor, não tem que se acabar
Eu quero e sei que vou ficar
Até o fim eu vou te amar
Até que a vida em mim resolva se apagar

Amor é como a rosa num jardim
A gente cuida, a gente olha
A gente deixa o sol bater pra crescer, pra crescer
A rosa do amor tem sempre que crescer

A rosa do amor não vai despetalar
Pra quem cuida bem da rosa
Pra quem sabe cultivar
Amor não tem que se acabar
Até o fim da minha vida eu vou te amar
Eu sei que o amor não tem, não tem que se apagar

(Amor até o fim - Gilberto Gil)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Para o Vlad

Caro Vlad,
Tenho andado ocupada. E me dei conta do quão fantástico é alguém me cobrar a atualização deste cantinho aqui. Ainda mais alguém que eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente. Por isso resolvi escrever. Rapidinho, assim, só pra pedir com carinho: não desista de mim! Eu volto logo. Essa semana tem sido Fernando Pessoa e seus três amiguinhos (o Reis, o Campos e o Beto) a me pedirem atenção integral. Justo pra mim, que sempre gostei tanto deles! O problema é que em trabalho acadêmico tudo fica menos leve, obrigatoriamente mais denso. Sabe como é ... vale nota! Fora isso, seminário disso e daquilo, leituras esquecidas durante um longo semestre e que precisam ser recuperadas em 2, 3 dias?! Se eu deixo tudo pra última hora? Sempre! Defeito insolúvel, irremediável. Ah, tenho os 35 pequenos pra cuidar à tarde, também. Eu, que sempre disse que alfabetização é coisa pra gente séria, tento levá-los pela mão, nessa aventura rumo ao aprendizado mais importante da vida deles. Pois é, é pra gente pretensiosa também; não pra mim. Não dou conta disso tudo, não! E ainda inventei de namorar. Claro, o seu lindo irmão. Ajuda tanto ... e atrapalha tanto também! Mas como é bom ser atrapalhada por um sorriso daquele tamanho! Estudamos juntos, lemos um para o outro, trocamos idéias ... e como ele me provoca! Você bem sabe como é isso, né? Mas vamos encerrando, porque, se bobear, isso que era pra ser só um breve pedido, vira uma declaração universal do meu amor por ele. Quase esqueço: há ainda os cachorros - dois, semi-abandonados (tadinhos!) e o meu fofo bebê de cinco meses (a Gabi, minha sobrinha), que me retém com aqueles esboços de sorrisos irresistíveis.
Bem, caro Vlad, volto em breve. Promessa é dívida!
Aproveite a estada em Fortaleza e dê um abraço apertado no seu pai, por mim. Por alguma razão desconhecida, já me considero amiga dele.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Notícias

Tenho saudades de vocês dois
Amando-se aos 80 anos
Um com ciúmes, o outro provocando
Um reclamando de tudo, o outro consentindo sempre
Tenho saudades de vocês dois
Da preocupação que vocês me causavam
Da graça que sempre inspiravam
Do medo que tinham de ser um, e não dois
Tenho saudades enormes de vocês dois
De tudo que me ensinaram, de todo o amor que me deram,
de tudo o que vocês foram juntos
Tenho saudades e queria muito contar pra vocês
Apesar dessa falta, desse nó na garganta
Hoje eu estou bem feliz

Sem lugar

Se você for, eu vou
Se você ficar, eu fico
Se você for, eu fico também
Mas se ficar, eu já estou
Estou, você indo ou ficando
com você, em qualquer lugar
E fico, em qualquer situação,
sem outra opção
Eu só posso te amar
Porque aqui ou acolá
Você já está
Em mim, inescapavelmente

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Rima perfeita

Rima pobre amor e dor
rima sem expressão
Não é porque calhou a terminação,
que essa rima tenha razão

Prefiro rimar or com er
or com ar
ou ainda, or com ir
Mas se, por acaso, eu tiver que juntar
amar e chorar
Será nos teus braços
e não será por doer

Você que me faz entender
que amar não implica sofrer
Você que me faz perceber
que rimar amor e dor
é falsa construção,
forjada armação

Amor nunca rima com dor,
nem querer com sofrer
Amor só rima com amor
E você rima comigo
em qualquer verso
em qualquer estrofe
em todas as métricas ... milimetricamente!

Tradução

às vezes, nem eu consigo me traduzir tão bem ...

Dia desses vi o amor.
De unhas vermelhas e blusa ao contrário.
De casaco tirado do armário. Sentou na minha frente.
Não pude ignorar...

Só queria um olhar
do comprimento do meu
da distância do teu
A medida exata
para não cansar

Queria teu braço
A me apertar
A me levar
Por esse chão encerado
de roseiras ao lado

Esse tempo de espera
Era exatamente seu
Esse tempo sou eu

E te dei essa espera
Com sorriso escavado
Te dei esse tempo
Sem estar ao teu lado

Fica!
Agora a espera é passado
É meu esse chão encerado
Fica! De-mora ao meu lado

(Dia desses ... Iara Ga Iañez)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Dom de amor

Para T.C.P.S.

Você tem o dom
de pôr som de celo
onde havia gelo
quem dera tê-lo
você e teu dom
de transformar esse silêncio
num solo de celo
quem dera descobrir
teus zelos véu por véu
descobrir talvez um novo céu
e nele vê-lo
entre as estrelas
cobrir você
com meus cabelos
quem dera este celo
não fosse tão solo
quem dera você para sê-lo

(Som de Celo - Alice Ruiz)