“Enquanto eu não acho a pessoa certa, me divirto com as erradas”. Ela estava cansada disso. Não queria mais amores de empréstimo, paixões de uma noite, seduções sucessivas. Estava sozinha, desde que acabou um namoro antigo. Sozinha de uma forma relativa, já que havia os empréstimos, etc, etc. Sozinha de uma forma definitiva, já que há muito tempo não podia dizer “meu amor”. Ela queria alguém pra dividir o prato grande, que era obrigada a comer com gula, esforçando-se pra evitar ao máximo o desperdício. Mas as últimas insinuações de amor que teve foram mesmo insinuações. Alguns desencontros e muita vontade extraviada. Ela acreditava, queria, estava pronta. Sempre estivera. Adorava apaixonar-se. Uma vez, perdeu o fôlego de tanto querer um homem. Pelos beijos que trocavam e pela forma como ele a rodava nos braços, qualquer um diria que eles viveriam uma história de amor. E viveram. Uma história breve. Ela seguia. Decepção curtida, já estava disposta a mais uma aventura. As aventuras nem sempre eram entusiasmadas. Muitas vezes, eram apenas concebidas pra matar a fome do corpo. Algumas ainda lhe enchiam os olhos de encanto, mas passavam, findo um efeito inebriante qualquer. Perder o fôlego não é pra qualquer um. Nem por qualquer um. Todos lhe pediam um par, e quando ela explicava que, simplesmente, não acontecia, mostravam-se surpresos. De fato, apesar de sua íntima insegurança, ela também não entendia. E sabia que se fazia notar. Elogiavam o seu sorriso, o seu charme, a sua alegria. Dançando, era uma graça. Outro dia, numa roda embalada por sambas nostálgicos, ela foi com uma flor nos cabelos. Era leve e, a cada novo copo de cerveja, se embriagava de felicidade. Além da elegância marota, tinha outros atributos. A simpatia que estampava nos olhos vinha do fundo de sua alma. Era uma simpatia pela vida, pelas possibilidades e por todos que passavam por ela. Conversava com certa timidez, mas acolhia com gosto convicções e diferenças. Era uma mulher com jeito de menina. E desejos de mulher. Desejos que, nos momentos de intimidade, não subestimava. Não havia nada de errado com ela. Já tinha ouvido isso incontáveis vezes: das amigas, daqueles que a deixaram e de si mesma, como um mantra. Mas, naquele dia, pensando na vulgaridade sentimental em que se consolava, nas pessoas erradas que não ficavam e na certa que não vinha, resolveu que estava cansada. E, então, decidiu que não iria mais se entregar a satisfações fugazes. Faria alguma coisa. Como se jamais houvesse acreditado em destino, como se tudo dependesse exclusivamente de sua vontade, entendeu que chegara a hora. Foi para o banho e, enquanto a água muito quente caía sobre o seu corpo delgado, pensava na roupa ... a roupa com que encontraria o seu grande amor. Enxugando-se com a toalha velha e macia, agia como em um ritual. Pôs pra tocar uma música do Chico, uma que dizia “por favor não evites, meu amor, meus convites, minha dor, meus apelos”. Penteou os cabelos molhados e abriu a janela, para que o vento os secasse. Antes de vestir a roupa, sorriu nua para o espelho, admirando aquilo de que o seu grande amor desfrutaria. Pegou uma taça de vinho, pois não podia partir para evento tão importante, sem uma inspiração divina.Vestiu uma saia de rendas e uma blusa de alças. O colo continuaria nu, aliás, justamente o colo que ela vivia escondendo. Não se perfumou, pois queria que o seu grande amor conhecesse o seu cheiro de verdade. O seu cheiro de menina-mulher. Também não pintou os lábios, nem os olhos. Os cabelos não foram presos. Ficariam revoltos, desalinhados, exatamente como ele, o seu grande amor, os encontraria no momento já quase exaustivo do gozo e na manhã de cada dia. Pegou o livro do Drummond e saiu em direção ao parque. Teria escolhido a praia, se houvesse uma perto. Sentou-se na grama, sentiu o calorzinho gostoso do sol, abriu o livro e, sem qualquer ansiedade, esperou. Dizem que o encontro foi esplêndido. Chegando, ele a reconheceu logo. E, naquele dia mesmo, eles dançaram muitos sambas antigos. Tomaram um litro inteiro de cachaça mineira e, depois de um curto e profundo sono, se amaram a noite toda. O livro do poeta ficou esquecido na grama. Foram felizes para sempre.
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
Na aldeia
Na aldeia, na aldeia
Quero veu o seu vestido arrastando-se na areia
Morena, meu doce encanto, pra matar minha saudade
Quero te ver bem distante do boliço da cidade
Quero te ver como dantes alegrando nossa aldeia
Com seu vestido de renda arrastando-se na areia
Na aldeia, na aldeia
Quero veu o seu vestido arrastando-se na areia
Quero te ver bem faceira na porta da capelinha
Escrevendo o nosso nome com a ponta da sombrinha
Quero que a vida nos seja de venturas sempre cheia
Com teu vestido de renda arrastando-se na areia
(Silvio Caldas)
Quero veu o seu vestido arrastando-se na areia
Morena, meu doce encanto, pra matar minha saudade
Quero te ver bem distante do boliço da cidade
Quero te ver como dantes alegrando nossa aldeia
Com seu vestido de renda arrastando-se na areia
Na aldeia, na aldeia
Quero veu o seu vestido arrastando-se na areia
Quero te ver bem faceira na porta da capelinha
Escrevendo o nosso nome com a ponta da sombrinha
Quero que a vida nos seja de venturas sempre cheia
Com teu vestido de renda arrastando-se na areia
(Silvio Caldas)
Pêssego
Proust
Só de ouvir a voz de Albertine
entrava em orgasmo.
Se diz que:
O olhar de voyeur
tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.
(Manoel de Barros)
Só de ouvir a voz de Albertine
entrava em orgasmo.
Se diz que:
O olhar de voyeur
tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.
(Manoel de Barros)
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
O fim da espera
Até ontem eu te esperei. Com a certeza de que te esperaria por intermináveis dias de chuva. Não chegava a ser uma agonia. Apenas um desejo distraído e relembrado, em momentos de menor profusão.
Hoje, não sei bem por que razão, tinha um sol enorme brilhando na janela. Mecanicamente levantei e fui fazer o de sempre. Também mecanicamente me lembrei de você. Ou melhor, me lembrei de lembrar de você.
Você podia ter vindo. Eu estava à sua espera. Com o sorriso de sempre. O sorriso que eu sempre tinha pra você. Às vezes, eu até o guardava, só pra que não estivesse desgastado, no momento da sua chegada. Teria te oferecido, ainda, os olhos de que você gostava. Olhos dispostos a te querer incondicionalmente. Irracionalmente, como todo querer que se preze.
Você não veio. E saber disso, talvez seja maior que toda a minha espera. Vã. Não queria entender. Você falou das minhas mãos, dos meus olhos, do meu sorriso. E depois, não os quis pra você. Não mais. Palavras. Vãs. Você até quis se desculpar, alegando sua insensibilidade. Eu disse pra não se importar. Comigo me importo eu. E fico com a minha espera. Vã. O que eu quero dizer é que não tenho mais a certeza de esperar-te. Não sei se foi o sol, me despertando logo cedo. Arrancando-me da cama para mais um dia e para a obviedade das coisas. Uma obviedade estridente, que desarranjou os meus argumentos. Os mesmos argumentos de que eu precisava para sustentar essa espera. Não posso mais. O que não se sustenta, em pouco tempo deixa de existir. Esperei-te até ontem. Hoje, lembrei-me de lembrar que até os dias de chuva têm sua beleza.
Hoje, não sei bem por que razão, tinha um sol enorme brilhando na janela. Mecanicamente levantei e fui fazer o de sempre. Também mecanicamente me lembrei de você. Ou melhor, me lembrei de lembrar de você.
Você podia ter vindo. Eu estava à sua espera. Com o sorriso de sempre. O sorriso que eu sempre tinha pra você. Às vezes, eu até o guardava, só pra que não estivesse desgastado, no momento da sua chegada. Teria te oferecido, ainda, os olhos de que você gostava. Olhos dispostos a te querer incondicionalmente. Irracionalmente, como todo querer que se preze.
Você não veio. E saber disso, talvez seja maior que toda a minha espera. Vã. Não queria entender. Você falou das minhas mãos, dos meus olhos, do meu sorriso. E depois, não os quis pra você. Não mais. Palavras. Vãs. Você até quis se desculpar, alegando sua insensibilidade. Eu disse pra não se importar. Comigo me importo eu. E fico com a minha espera. Vã. O que eu quero dizer é que não tenho mais a certeza de esperar-te. Não sei se foi o sol, me despertando logo cedo. Arrancando-me da cama para mais um dia e para a obviedade das coisas. Uma obviedade estridente, que desarranjou os meus argumentos. Os mesmos argumentos de que eu precisava para sustentar essa espera. Não posso mais. O que não se sustenta, em pouco tempo deixa de existir. Esperei-te até ontem. Hoje, lembrei-me de lembrar que até os dias de chuva têm sua beleza.
Prisão de sonhos
Eu queria fazer poesia. Não como fazem os grandes. Ficaria contente com versos simples em pífios quartetos. Eu bem que tentei. Mas as minhas palavras só sabem correr com seus inúmeros complementos. Não conseguem fugir deles. Estranhas palavras pedintes. Será que elas foram contaminadas? Assim como as minhas mãos, os meus ombros e todo o meu arredor? Tudo pede uma extensão. E agora, minhas palavras... Rebelam-se inconformadas. Confusas por não terem um destino certo. Um destinatário de carne, osso e barba. Elas também querem ter para quem correr, quem acalentar, contemplar. Vácuo? Não. Não há lacunas, espaços vazios. Tudo está repleto. Transbordamento. Palavras e vontades atropelando-se, correndo desajustadas, desnorteadas, ávidas por impedir o desperdício. De sonhos, de desejos, de vida. O que fazer com tudo isso? Colocar dentro de uma caixa de correio? Enviar por email? Mas como, se não há o principal? Nenhum nome e sobrenome conhecidos. Nenhum nome de rua anotado num pedaço de papel. Eu não precisaria de emissário. Entregaria em mãos. Com as minhas próprias. Ou então, poderia me desfazer disso tudo. Como o faz o colecionador enfadado de seus objetos. Mas não são objetos, coisas exatas, com textura, cheiro e cor. Assim como as minhas palavras não cabem numa poesia, meus sonhos não se encaixam, não se enquadram, não se repartem entre aqueles dispostos a arcar com a nostalgia de um fim de coleção. Não há o que fazer. Só preciso achar um modo de retê-los. Detê-los. Contê-los. Antes que saiam ensandecidos. Antes que se percam. E não voltem.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado ...
Tomei vacina. Doeu e eu chorei
A cadeira caiu no meu pé. Doeu e eu chorei.
Andei me sentindo sozinha. Doeu e eu chorei.
P.S. Com tanta lágrima, pra quê pudores?
A cadeira caiu no meu pé. Doeu e eu chorei.
Andei me sentindo sozinha. Doeu e eu chorei.
P.S. Com tanta lágrima, pra quê pudores?
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Contando as sílabas
Caro Marcos Olavo,
Não se esqueça: nome de criança tem que ter métrica boa!
Felicidades!
Não se esqueça: nome de criança tem que ter métrica boa!
Felicidades!
Por hoje, é isso ...
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que eu me encontrar
(Candeia)
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que eu me encontrar
(Candeia)
terça-feira, 7 de agosto de 2007
Para a Van, com saudades ...
Van!!!
Wenn Sie hier kommen, wird er/sie wissen, dass ich mich von Ihnen erinnerte. Sogar mit dieser schrecklichen Übersetzung von Babylon. Ich liebe Sie, wollte!
Wenn Sie hier kommen, wird er/sie wissen, dass ich mich von Ihnen erinnerte. Sogar mit dieser schrecklichen Übersetzung von Babylon. Ich liebe Sie, wollte!
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
O choro
Quando eu era criança e queria provar pro meu avô o quanto tinha doído o castigo dado pela minha mãe, normalmente umas chineladas na bunda, eu dizia que me havia feito chorar “de lágrima”. Chorar de lágrima era uma conseqüência fortíssima de um ato de crueldade irrefutável. Parece que, quando se é criança, é muito fácil chorar de lágrima. Espernear, berrar a plenos pulmões e deixar toda a água do mundo escorrer canais lacrimais afora. Sempre vejo a criançada se escangalhando de tanto chorar. Depois que a gente cresce, aprende a chorar a seco, e só furtivamente se permite transbordar. Outra coisa curiosa é que criança quase sempre chora de tristeza e ri de alegria. Que simples ser criança! Mais tarde se aprende a rir pra não chorar, ou pra disfarçar o desespero. E também choramos a seco, engolindo soluços e decepções goela abaixo. Aprendemos a reprimir a dor e a conviver com ela. E a modernidade nos diz que não há mais espaço para donzelas românticas, “manteigas-derretidas” e “marias-choronas”. E homem, macho de verdade, nunca foi de chorar.
Esses dias, no metrô, uma mulher chorava de lágrima, exatamente como eu fazia quando criança. A diferença é que ela não tinha sido castigada. Ao menos, não com palmadas ardidas. Feição aflita, cabeça baixa e lágrimas que, ainda que ela tentasse conter, teimosas, saltavam, dançavam pelo seu rosto. Tinham tanto volume que escorriam e respingavam sobre a sua blusa. E, de repente, aquela desconhecida se tornou tão próxima, tão familiar. Sem alternativa e esconderijo, ela se entregava à tristeza. Senti um desconforto, uma impotência. Quais seriam suas razões, o que havia por trás daquela face pungida? A mulher parecia envergonhada, mas, ao mesmo tempo, sem nenhuma chance contra o próprio pranto. A cena repelia tanto os simples curiosos, como os verdadeiros samaritanos. Igualmente desconcertada, saí do vagão tentando desviar o olhar. Mas aquelas lágrimas, cujas motivações eu desconhecia, me impregnaram. Voltei a lembrar do meu choro de criança – molhado, intenso e sem pudores – e também dos meus choros de mulher, quase sempre em privacidade e acompanhados de um fofo travesseiro. Meus olhos marejaram, instintivamente. Enxuguei-os e contive a emoção. Afinal, deter as lágrimas, secas ou molhadas, é a árdua tarefa de todos, todos os dias.
Esses dias, no metrô, uma mulher chorava de lágrima, exatamente como eu fazia quando criança. A diferença é que ela não tinha sido castigada. Ao menos, não com palmadas ardidas. Feição aflita, cabeça baixa e lágrimas que, ainda que ela tentasse conter, teimosas, saltavam, dançavam pelo seu rosto. Tinham tanto volume que escorriam e respingavam sobre a sua blusa. E, de repente, aquela desconhecida se tornou tão próxima, tão familiar. Sem alternativa e esconderijo, ela se entregava à tristeza. Senti um desconforto, uma impotência. Quais seriam suas razões, o que havia por trás daquela face pungida? A mulher parecia envergonhada, mas, ao mesmo tempo, sem nenhuma chance contra o próprio pranto. A cena repelia tanto os simples curiosos, como os verdadeiros samaritanos. Igualmente desconcertada, saí do vagão tentando desviar o olhar. Mas aquelas lágrimas, cujas motivações eu desconhecia, me impregnaram. Voltei a lembrar do meu choro de criança – molhado, intenso e sem pudores – e também dos meus choros de mulher, quase sempre em privacidade e acompanhados de um fofo travesseiro. Meus olhos marejaram, instintivamente. Enxuguei-os e contive a emoção. Afinal, deter as lágrimas, secas ou molhadas, é a árdua tarefa de todos, todos os dias.
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
A tampa
Segundo a Joyce, eu sou uma panela de Inox, pô! Por isso tá tão difícil ... Ah, bom! Até que enfim alguém me explicou. Ufa!
E quando eu te encontrar, meu grande amor
Me reconheça
P.S.: eu não vou esperar até 2057, hein?!
E quando eu te encontrar, meu grande amor
Me reconheça
P.S.: eu não vou esperar até 2057, hein?!
Um sonho de simplicidade
Crônica deliciosa do Rubem Braga
Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.
Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.
Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.
Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.
Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Brevidades

Eu posso te dar tudo em poucas horas. É só me dar tua mão e sentir. Vir comigo e fazer o tempo parar. Os minutos não vão se contar, enquanto minha mão estiver entrelaçada à tua. A tua dor não vai ser páreo pro meu sorriso. Vai se assustar e querer fugir. Vai se esconder dos meus afagos, como os meus dedos nos seus cabelos. Você vai poder ir longe, se eu estiver perto. Mesmo sem sair do lugar; apenas alcançando os meus passos. É só tirar teus pés do chão e reter teus olhos nos meus. Não precisa acreditar. Basta não duvidar. Os meus beijos vão te encher de vigor, se você precisar de coragem. Ou te amansar, se estiver destemido. E quando eu te abraçar, forte e suave, você vai querer ficar. Vai querer me amar. E, cansado, vai querer dormir. No meu colo. Por um breve instante. O breve instante que dura um amor.
terça-feira, 24 de julho de 2007
Rotina
O despertar. Os cinco minutos extras que se estendem ... a dez, quinze, vinte ... e mais um começo de atrasos. O café quente e forte. O pão sem gosto. Porque, com exceção ao café, tudo é insípido em manhãs de gris. A roupa de sempre, com algumas poucas alterações. Tudo em perfeito automatismo. Os pensamentos já surgem, mas pra decidir ainda é muito cedo. Com algum esforço, talvez. Carro ou ônibus. "Bom dias", sorrisos, mais café ... o dia tem que começar. Uma tarefa, conversas, leituras. Almoço. Rápido. Frio e mais leitura, no sofá macio. A tarde chega e teima em ficar. Mais tarefas. Telefone. O doce que distrai. Hora de ir. Pra casa. Pro banho quente e pra cama macia. É tudo que se pode querer em um dia de frio. Que nada atrapalhe a rotina. Tão insípida quanto o pão da manhã. E que ela seja milimetricamente saboreada.
segunda-feira, 23 de julho de 2007
Vara o dia
vara o dia
varrendo a noite
cata um sonho
sonha um vento
algo que fique
por pouco
por muito pouco
um cisco que seja
algo que signifique
(Alice Ruiz)
varrendo a noite
cata um sonho
sonha um vento
algo que fique
por pouco
por muito pouco
um cisco que seja
algo que signifique
(Alice Ruiz)
sábado, 21 de julho de 2007
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Tô te explicando pra te confundir ...
Domingo fui assistir Fabricando Tom Zé. O documentário de Décio Matos Jr. mostra o músico e sua banda em turnê pela Europa e também no badalado Festival de Montreaux. Bem, Tom Zé sempre foi uma figura estranha pra mim. Tinha simpatia e tal, por conhecer a sua irreverência, mas nada que me fizesse parar pra prestar atenção. Fiquei impressionada! Tom Zé é incrível como artista e uma pessoa de um vigor fantástico. Além de seus experimentos musicais, seu conhecido e até folclórico jeito enigmático de falar, ele é delicado e firme, nas situações pertinentes. É delicado pra tratar as flores do jardim do prédio onde mora, em Perdizes, pra lidar com a população do mesmo bairro, pra fazer canções de amor pra essa cidade louca. E é firme pra falar a verdade. Pra dizer que Caetano e Gil o relegaram à margem do Tropicalismo e que isso lhe rendeu um ostracismo de muitos anos, gastrite, depressão ... Até que em um belo dia, eis que surge David Byrne. Ou melhor, eis que Tom Zé surge para David Byrne e ressurge para o público ... primeiro, o de fora, depois, aos poucos, o da terra basilis. Tom Zé é exageradamente firme consigo mesmo, ao não assumir sua genialidade e se dizer um "japonês" esforçado. O filme todo é sensacional, os depoimentos de Tom são engraçadíssimos e três momentos me chamaram muito a atenção:
- Tom Zé e banda passando som para o Festival de Montreaux - os produtores, ensnobemente, diziam não entender sua música "imprecisa". Depois de algumas tentativas sem sucesso e tendo aturado muito mais esnobismo, Tom Zé não aguentou e os botou pra correr, os mandou "pra porra", no melhor estilo baiano. Não admitiu a humilhação. Dá-lhe, TOM!
- O excelentíssimo Ministro da Cultura, Gilberto Gil, diferentemente de Caetano, que titubeou, mas assumiu a mesquinhez, disse que não retomou as relações tropicalistas com Tom Zé, pq foi opção deste se recolher. Um puta cara dura! Toma vergonha, ministro!
- A Neusa - Neusa é a companheira de muitos anos de Tom Zé. E Neusa o ama, o acompanha e o auxilia com paciência, fidelidade e desprendimento caninos. Esclarece que o marido, quando compõe, fica nervoso e a trata mal. Tom corrobora. Mas Neusa compreende. Diz, em certo momento, não ter a veleidade de ter muita importância na vida dele, pq, afinal, ele é artista. E, para artista, explica, o que interessa é a arte. Neusa deve ter visto que, propositalmente, na edição do filme, logo anteriormente ao que ela disse, Tom dizia que sua vida, hoje, é dedicar-se ao bem-estar da mulher. Tá certo, Tom Zé não é muito romântico mesmo. Declara que se casou com a Neusa pq era inseguro e ela lhe aliviava as aflições. Segundo ele, sentir-se seguro é uma forma de amar. Pode ser.
A partir de agora, quero sempre parar pra prestar atenção em Tom Zé.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Humildemente
A Iara disse esses dias que, às vezes, eu tenho uma modéstia "mal colocada". Expliquei que a minha repulsa a qualquer tipo de esnobismo é tão grande, que acabei desenvolvendo o mecanismo contrário. Mas pensei que modéstia também pode ser parecido com humildade. Só que nunca gostei muito desse negócio de humildade. Mas agora gosto.
"Gosto dos que crêem na própria insanidade
por saberem-se humanos, limitados, miseráveis
e com isto exercitam a humildade
conscientes de estarem aprisionados
nesta pobre casca humana até morrer
Não gosto de ares de superioridade
(os parâmetros são tão tênues e precários!)
não concedo a ninguém autoridade
- Oh, esses deuses e deusas sectários -
pontificando sobre a vida e o que fazer"
(Eliane Stoducto)
"... só são humilhados os que não são humildes, e em vez de humilhação então eu deveria falar na minha falta de humildade; e a humildade é muito mais que um sentimento, é a realidade vista pelo mínimo bom-senso ..."
(Clarice Lispector)
"Gosto dos que crêem na própria insanidade
por saberem-se humanos, limitados, miseráveis
e com isto exercitam a humildade
conscientes de estarem aprisionados
nesta pobre casca humana até morrer
Não gosto de ares de superioridade
(os parâmetros são tão tênues e precários!)
não concedo a ninguém autoridade
- Oh, esses deuses e deusas sectários -
pontificando sobre a vida e o que fazer"
(Eliane Stoducto)
"... só são humilhados os que não são humildes, e em vez de humilhação então eu deveria falar na minha falta de humildade; e a humildade é muito mais que um sentimento, é a realidade vista pelo mínimo bom-senso ..."
(Clarice Lispector)
quinta-feira, 12 de julho de 2007
Este texto roubei de um blog, onde já estava, roubado de outro. Não resisti. Não posso ficar falando do Chico, porque acabaria sendo monotemática.
Chico - o quinto poder
12/03/2007
Essa semana fiz uma cagada! Das grandes, das piores, quase que imperdoável. Eu posso chegar aqui e dizer "O papa é um louco", ou "O Pelé nunca jogou nada", "A Gisele Bündchen tá gorda", que a seleção da Argentina é melhor que a nossa, posso falar que Einstein era um idiota, até dizer que Deus não existe ou que Ele é uma invenção da Rede Globo. As pessoas aceitam tudo isso, teríamos algumas pequeninas discussões, mas sempre teriam pessoas que concordariam comigo. MAS, se um dia eu vier aqui no blog e escrever algo do tipo: O Chico Buarque é uma enganação, pronto.............serei exilado, castrado, jurado de morte, minha mulher (ou nenhuma outra) nunca mais fará sexo comigo, nunca mais me atenderão no restaurante, o flanelinha riscará o meu carro , não me deixarão votar......Serei banido, sem perdão, da sociedade brasileira. Cairei no mesmo esquecimento que uma CPI no congresso, ou que o Túlio Maravilha. Nunca vi ninguém no Brasil falar mal do Chico ou mulher que não o ame. Chico Buarque é o quinto poder! Alguns dizem que ele entende a alma da mulher. Na Paraíba, chamam isso de outra coisa. Aquele viadinhodusinfernus! Por que isso? Como que esse cara conseguiu isso? Virou uma unanimidade! Desbancou até Nelson Rodrigues, pois segundo o dramaturgo "toda unanimidade é burra". Pois as pessoas preferem ser chamadas de burras, do que trair o "homem perfeito de olhos cor de esmeralda". Como ele consegue isso.....aquele bosta?!!! Como conseguiu se comunicar com todo intelectual e ao mesmo tempo com uma grande parcela do povo brasileiro? Aquele merda! Sempre preferi Aldir Blanc à Chico Buarque como letrista, ou Tom Jobim e Guinga como compositor, sempre achei o Caetano mais artista do que o Chico, o Gil mais músico, mas......nenhum deles junta tudo isso, com tamanha competência, num só. Os olhos do Fabio Assumpção são mais bonitos, o Romário joga mais bola, o Super-Homem voa mais alto. Mas tudo junto num homem só? Só ele, Chico Buarque de Holanda. Que SACO! Essa semana cometi uma imprudência. Numa roda de amigos e conhecidos, disse: "Não gostei do novo CD do Chico Buarque". Afirmei "Pode até não ser uma porcaria, mas que é decepcionante para um sujeito tão talentoso que ficou tanto tempo sem compor...." ......Pronto! Agredido de maneira cruel e implacável, fui obrigado a sair da mesa correndo. Fugi como um atropelador de motoboy à beira do linchamento. Semanas depois soube que meus amigos espalharam um boato que eu tinha sofrido abuso sexual do meu tio Cláudio quando eu era criança. Esse povo é foda! Gosto de falar mal das coisas (ou bem, sempre do lado inverso à maioria), meter o pau, na maioria das vezes é por brincadeira, pras pessoas ficarem incomodadas e a partir daí termos uma caminhada de discussões (saudáveis exercícios intelectuais). Mas falar mal do Chico é foda......é um tremendo filho da puta! POIS CHEGA! Eu não vou me intimidar perante a opinião pública, vou falar, custe o que custar................ELE NÃO SABE JOGAR GOLFE, pronto falei!!!! É bom que o "meliante" saiba que depois dessa minha "notícia bombástica", os fãs não irão mais ao show no Teatro Guaira, ainda que tenha esgotado os ingressos, pois todos sabemos a importância do jogo de golfe na cultura brasileira. Pronto, acabei com a carreira dele........Eu sou muito mal mesmo! Falei mal e pronto!
ps: Vcs não me verão na platéia, pois ver o Chico, no palco e cantando, é uma dessas coisas que não me interessam muito. Mas não é raro eu ouvir as canções do Chico - nem que seja só para ficar lendo as letras e tentando entender como ele consegue fazer aquilo. Que raiva daquele desgraçado! É um FILHO DA PUTA!!
ps2: 85% dos ingressos foram comprados por mulheres, 85% casadas. 85% dos homens que estarão no teatro serão arrastados pelo cabresto de sua companheira. 100% dos homens tem inveja de Chico Buarque de Holanda.
Demasiado humano
Hoje eu acordei tomada de humanidade. Essa humanidade que, às vezes, adormece e, quando menos se espera, retorna exasperada. Vontade de sair e sentir o vento gelado, olhar no rosto das pessoas e me comover com isso. Sim, me comover com qualquer coisa. Qualquer coisa que pareça grande. E a existência de qualquer um é grande o suficiente pra me perturbar. Rostos estranhos que inspiram, primeiro, a surpresa - o outro. Depois, a curiosidade - quem será o outro? E também uma ternura - eu poderia ser o outro. Um gesto, uma palavra, tudo é enorme. Será que cabe? Desejo doído de ser parte dessa enormidade. De abraçar o mundo, de contê-lo em mim. Necessidade de ouvir tudo o que bate ou sussura - porque, no fundo, é sempre um grito. De enxergar os sorrisos e os cortes profundos. De experimentar o sal e tatear as asperezas. Mas, sobretudo, de ser parte, constituinte, pedaço. E, como porção desse todo, ter direito ao punhado de humanidade que me cabe. Ter direito a um cuidado, um afago, um compromisso, uma batalha, uma aflição. E poder sentir, em toda parte, a humanidade que há em mim.
terça-feira, 10 de julho de 2007
Medo 2
Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz
Não me deixe só
Tenho desejos maiores
Eu quero beijos intermináveis
Até que os olhos mudem de cor
(Não me deixe só, Vanessa da Mata)
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz
Não me deixe só
Tenho desejos maiores
Eu quero beijos intermináveis
Até que os olhos mudem de cor
(Não me deixe só, Vanessa da Mata)
O medo
Medos inúteis que cultivamos:
- panela de pressão
- não ser feliz
- barata
- dizer "eu não posso"
- dizer "eu preciso"
- pisar no piso gelado e pegar resfriado
- demonstrar interesse e o/a super cauto/a desaparecer
- passar por debaixo da escada e ter azar
- ter celulite e ser menos por causa disso
- ter bom senso e não ser mais por causa disso
- escolher a profissão errada
- apaixonar-se pela pessoa errada
- vestir a roupa errada
- dar o conselho errado
- fazer qualquer coisa errada
- escuro
- altura
- solidão
- sangue
- amar demais
- amar de menos
- não ser bom o suficiente
- não ser esperto o suficiente
- não ser bonito o suficiente
- não ser o que imaginam que sejamos
- sentir medo
"Miedo que da miedo del miedo que da" (Lenine)
- panela de pressão
- não ser feliz
- barata
- dizer "eu não posso"
- dizer "eu preciso"
- pisar no piso gelado e pegar resfriado
- demonstrar interesse e o/a super cauto/a desaparecer
- passar por debaixo da escada e ter azar
- ter celulite e ser menos por causa disso
- ter bom senso e não ser mais por causa disso
- escolher a profissão errada
- apaixonar-se pela pessoa errada
- vestir a roupa errada
- dar o conselho errado
- fazer qualquer coisa errada
- escuro
- altura
- solidão
- sangue
- amar demais
- amar de menos
- não ser bom o suficiente
- não ser esperto o suficiente
- não ser bonito o suficiente
- não ser o que imaginam que sejamos
- sentir medo
"Miedo que da miedo del miedo que da" (Lenine)
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Iara
Hoje vou falar de uma Iara. Ou duas. Uma, a Iara sereia, dos livros de folclore; outra, a Iara mulher, da vida real. A Iara real, diferente da mãe das águas, não tem longos cabelos negros e pele morena. Sua pele é clara como a luz, e seu cabelo loiro vai um pouco abaixo da nuca. Não me lembro de ter visto a Iara mulher banhar-se em algum rio; em mar, sim. Mas ela gosta mesmo é de mergulhar na vida. Mergulhos constantes, de magia e beleza sem fim. A lenda amazônica diz que a sereia Iara é de esplendor irresistível e seduz com seu canto aqueles que a avistam e ouvem. A Iara mulher não arrasta ninguém consigo para o fundo das águas, e ainda que adore as profundidades, já a vi emergir aqueles que dela quiseram ser escravos. A lenda diz também que Iara, antes de virar sereia, era a melhor guerreira da tribo, amada e invejada por todos. Quanta coincidência com a Iara da vida real – que não foge ao bom combate, e muito embora seja de paz, luta com armas brancas contra os perigos de sua existência! Mais um ponto de apoio tem a Iara mulher na fábula da sereia: quem a vê, nunca mais a esquece. Sim, não dá pra passar por ela (passar tendo ficado ao menos um pouco), sem aprender algo essencial, sem acreditar nas cores que não se definem, sem sentir vontade de roubar um pouquinho só da verdade de sua alma. Iara é assim: atordoante! Deve ser mal de nome de sereia.
A Iara real faz hoje 37 anos e, ao contrário da Y-Yára – "a que mora na água", mora em todos os lugares. Porque é um belíssimo sinônimo de liberdade. É tão linda quanto a do mito das florestas, mas sua beleza tem mil brilhos diferentes. A Iara mulher de que falo é a minha melhor amiga, minha irmã querida, a mãe da Mirrah. E é pra ela que eu me rendo em homenagens. Hoje e sempre.
A Iara real faz hoje 37 anos e, ao contrário da Y-Yára – "a que mora na água", mora em todos os lugares. Porque é um belíssimo sinônimo de liberdade. É tão linda quanto a do mito das florestas, mas sua beleza tem mil brilhos diferentes. A Iara mulher de que falo é a minha melhor amiga, minha irmã querida, a mãe da Mirrah. E é pra ela que eu me rendo em homenagens. Hoje e sempre.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Sexta tá chegando ...
E sexta é dia de:
( ) Samba no Ó
( ) Original gelada
( ) Papo bom com gente boa
(X) Todas as alternativas
( ) Samba no Ó
( ) Original gelada
( ) Papo bom com gente boa
(X) Todas as alternativas
Anti-deprê
Depressão?
Não, a vida não me declina
Não debilita
Não me abate, nem cansa
A vida me chama, me atiça
e me assanha
E mesmo quando me tomba,
me esfola e me despe
Em seguida, me empuxa e me ganha
Depressão?
Não! Volte com seus remédios
Seus credos, seus tédios
Seus risos-disfarces,
ilusões de minutos
Aos paraísos artificiais
Prefiro os infernos reais
De dor e delícias
De purgar emoções
E amar as canções
Depressão?
Não, estou viva.
E nada é maior que isso.
(Inspirado em Overdose de Vida, de Iara Ga Iañez)
Não, a vida não me declina
Não debilita
Não me abate, nem cansa
A vida me chama, me atiça
e me assanha
E mesmo quando me tomba,
me esfola e me despe
Em seguida, me empuxa e me ganha
Depressão?
Não! Volte com seus remédios
Seus credos, seus tédios
Seus risos-disfarces,
ilusões de minutos
Aos paraísos artificiais
Prefiro os infernos reais
De dor e delícias
De purgar emoções
E amar as canções
Depressão?
Não, estou viva.
E nada é maior que isso.
(Inspirado em Overdose de Vida, de Iara Ga Iañez)
Doação
Doe um livro repetido
Doe um sorriso sincero
Doe um agasalho
Doe cinco minutos de conversa com um quase desconhecido
Doe 450 ml de sangue
Doe calor
Doe respeito
Doe confiança
Doe-se!
E receba, em troca, um pouco de vida.
Doe um sorriso sincero
Doe um agasalho
Doe cinco minutos de conversa com um quase desconhecido
Doe 450 ml de sangue
Doe calor
Doe respeito
Doe confiança
Doe-se!
E receba, em troca, um pouco de vida.
Vem!
Tentei colocar só um trecho, mas amo cada verso, cada sílaba dessa música ...
(Sem fantasia, Chico Buarque)
Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu
Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus
(Sem fantasia, Chico Buarque)
Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te envolver nos cabelos
Vem perder-te em meus braços
Pelo amor de Deus
Vem que eu te quero fraco
Vem que eu te quero tolo
Vem que eu te quero todo meu
Ah, eu quero te dizer
Que o instante de te ver
Custou tanto penar
Não vou me arrepender
Só vim te convencer
Que eu vim pra não morrer
De tanto te esperar
Eu quero te contar
Das chuvas que apanhei
Das noites que varei
No escuro a te buscar
Eu quero te mostrar
As marcas que ganhei
Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus
E agora que cheguei
Eu quero a recompensa
Eu quero a prenda imensa
Dos carinhos teus
quarta-feira, 4 de julho de 2007
FORA RENAN!
Eu ando bem desatualizada dos diários políticos, que hoje são quase sempre político-policiais, mas acho que com o pouco de informação que me ilumina, tenho o direito de não conseguir entender o que é que o ilustríssimo senador Renan Calheiros ainda faz no Senado!!! E o Roriz? Cara, isso é muita piada! Alguém te dá cheque de R$ 2,2 milhões pra devolver troco de R$ 1,9? Quem consegue acreditar nisso?! Como é que se prova inocência com empreiteira pagando conta de pensão?! Insano! E junta relator, e desfaz comissão, e nomeia relatoria, desnomeia ... puta palhaçada! Isso porque as excelências quase não são, como se diz no jargão popular, manjadas! O Renanzinho é (ou era) o amigo de longa data do ex-presidente Collor, cuja candidatura ajudou a lançar. Lembro que numa aula de Jornalismo Opinativo, há milênios atrás, discutíamos uma manchete da Folha de São Paulo. Renan tinha assumido a pasta da Justiça no governo FHC. A Manchete dizia algo como "Aliado (ou ex) de Collor assume a pasta da Justiça". Bem, a questão proposta pelo nosso professor, Sérgio Rizzo, era se a colocação do jornal tinha ou não um caráter opinativo, tendencioso, parcial. Chegamos à sensata conclusão de que não, de que o jornal lançava apenas uma referência objetiva, que seria vista como positiva ou negativa, de acordo com as inclinações do caro leitor. Enfim, isso não tem nada a ver com o papo atual, mas foi bom relembrar dessa aula de JO. Não tô entendendo como ninguém se indigna, ninguém vai pra rua, ninguém se mexe pra expulsar o Renan, o Roriz, os mensaleiros, os sanguessugas ... Será que eu tô viajando muito? Que pena que isso aqui não é uma Argentina! Nuestros hermanitos no les perdonarían ... lo creo. Lanço, solitariamente (será que rola uma comuna no orkut?), nesse espaço por ninguém lido, a camapanha FORA RENAN!
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