A moça que faz minha sobrancelha é daquelas que aproveitam o cliente para um desabafo. Geralmente é o cliente quem aproveita a cadeira para chorar suas lamúrias. Enfim, sou boa ouvinte desde criancinha, quando ficava atrás da porta, escutando as conversas adultas entre minha mãe e minha avó. Já que eu não podia participar, o jeito era ouvir. O fato é que a Jucely, a moça que me salvou de ter a sobrancelha do palhaço, não deve estar num bom momento. Na antepenúltima feitura de sobrancelha, me perguntou se eu acreditava em Deus. Imagine que perguntinha fácil, ainda mais pra quem estava sendo tortutado por vontade própria. Engasguei, hesitei e, no fim, enrolei. Tudo isso porque ela queria me contar a experiência dela, de como Jesus adentrou seu coração. Por fim, fiquei sabendo que é testemunha de Jeová. Inteligente a Ju, boa argumentação, embora tenha dito que precisa estudar muito para poder explicar a forma como ela entende uma série de coisas. Quando eu perguntei sobre a proibição religiosa de doar e receber sangue, foi a vez dela me enrolar. Mas disse que, hoje, a medicina tá muito avançada, e que existem alternativas a transfundir o seu sangue com o de um estranho Ok, ok. É quase como dizer que antes não existia penicilina e todos os outros antibióticos. Na penúltima sessão tortura, a Ju estava impressionada com o que lhe havia dito o cliente matutino. Um tipo misterioso, que se achava o filósofo dos desesperados, uma espécie de Paulo Coelho dos salões de beleza. Instigou a Ju a pensar sobre sua vida, seu presente, passado e futuro. Disse-lhe que era uma pessoa eficiente, mas não eficaz, e perguntou se ela sabia a diferença entre os dois predicados. Fez a Ju pensar e vir ditar sua conclusão para quem mesmo? Não lembro exatamente o que foi, porque a dor me consumia. Hoje, querendo dar um jeito nessa minha aparência de mulher das cavernas, lá fui eu sofrer um pouquinho, expiar alguns pecados. Ju anunciou que, provavelmente, largará o trabalho. Está com muitos problemas pessoais, tem faltado bastante ao trabalho, precisa de colo de mãe, uma choramingueira de fazer dó. Eu disse que se ela estava sentindo essa necessidade deveria sim parar. O que mais eu poderia dizer? Perguntar se ela não tem conta pra pagar, se não precisa do emprego, se a vida não tá dura? Tem mais: a Ju acha que as colegas de trabalho não gostam dela e isso a faz sofrer. Também acha que a gerente é pouco flexível em entender seus problemas pessoais e ausências ao batente. É, moça sensível a Ju ...
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Amor de banheira
Fiquei pensando que o amor sempre chega numa fase em que estaciona. Sim, pode ser a tal fase morna, aquela em que não faísca mais, mas também, ao contrário do desconforto do frio, é aquela mansidão de banheira em que a gente quer se deixar ficar. Aquele amálgama de tanta coisa que já foi vivida, sofrida, desentendida, acordada ou, simplesmente, deixada em algum canto onde não vá atrapalhar a passagem. Porque em se tratando de amor, aparar todas as arestas, por mais artista da convivência que se seja, é simplesmente inviável. No máximo, consegue-se podar umas e outras, às vezes nossas, outras, do outro. E os cantos vão ficando repletos de coisas de que abdicamos, desconsideramos, relevamos, fazemos vistas grossas. Vez ou outra, tropicamos numa delas e acaba machucando, incomodando, mas seguimos. Seguimos pro nosso quentinho, morninho, o amor de banheira, cuja profundidade não oferece mais nenhum perigo.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
O frágil milagre da vida
Mais um começo de ano, mais um verão chuvoso, mais desastres, alagamentos, prejuízos quilométricos e, o mais grave de tudo, muito mais vidas perdidas. Prejuízo incalculável. E toda essa tragédia desfilada aos nossos olhos pela TV me faz pensar, mais angustiadamente, na nossa vulnerabilidade. Não se morre só de câncer ou cólera, infarto do miocárdio ou meningite. Cada dia mais vale a máxima que eu sempre ouvi das minha mãe - "pra morrer, basta estar vivo". E você pode estar em casa, sentindo-se abrigado, protegido, a salvo. Nada. Não sei se levo muito a sério a outra máxima da minha mãe, a de que "quando chega a hora, não tem jeito", mas é terrível pensar que somos assim tão perecíveis, tão insignificantes, diante da enormidade e implacabilidade da natureza e dessa suposta "hora que chega". Pensei também no famoso título do Kundera, "A insustentável leveza do ser", já que embora o romance não trate necessariamente dessa fragilidade, os adjetivos "leve" e "insustentável" servem perfeitamente a esse sentimento. E o que eu mais penso agora, que há um serzinho crescendo dentro de mim, é que essa necessidade de proteção instintiva é, ao mesmo tempo, o céu e o inferno da maternidade. Só depois da gravidez confirmada e de uma incipiente barriga é que eu começo a me dar conta da veracidade de uma frase que antes me parecia meio cafona: "a vida é um milagre". Mas por que tem que ser um milagre assim tão efêmero? No fundo, eu sempre soube de uma coisa. Se um dia eu pudesse acabar com uma dor humana, eu cessaria a dor das mães que perdem seus filhos. Não deve haver nenhuma pior, afinal, pra todas as outras tem morfina. Sei que esse texto tá pessimista demais pra um começo de ciclo, mas não é assim tão grave. Por mais inútil que nos pareça, principalmente diante de grandes catástrofes, vamos seguir tentando evitar o cigarro, as gorduras trans e o colesterol, vamos continuar trabalhando por mais conforto, habitações seguras e férias na praia, vamos fazer de tudo para que nossos filhos cresçam saudáveis e inteligentes, vamos nos solidarizar com as dores alheias de perto ou de longe, enfim vamos continuar lutando pela vida, por esse milagre tão fugaz, tão trivial e tão incrível.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Poesia
Sempre que eu ouço essa música, eu penso no nosso começo, no nosso presente, e tenho vontade de postá-la aqui, pra você. É de uma simplicidade tão linda, que não poderia ter outro nome - Poesia. Sei que nem sempre é tudo azul. Às vezes fica meio acinzentado e já chegou a ficar preto mesmo. Mas estamos aprendendo (eu, pelo menos) que o amor não tem apenas uma cor. Nem um único sabor, uma única textura, um único cheiro ...
Sorri
Quando te conheci,
Quis ser de mais ninguém
Existia um porém que eu fiquei sem saber
Se o que tinha de ser me fazia sorrir
Menti, resisti com ardor
Não pensava em querer
Foi olhar pra você e o cenário mudou
E ficou tudo azul como tinha de ser
Deixei a mão da poesia rabiscar um poema
Pra falar de amor
Ter você como tema
E agradecer em verso a prosa que eu ouvi
Em letra e melodia
Agradeço o dia em que te conheci
Sorri
Quando te conheci,
Quis ser de mais ninguém
Existia um porém que eu fiquei sem saber
Se o que tinha de ser me fazia sorrir
Menti, resisti com ardor
Não pensava em querer
Foi olhar pra você e o cenário mudou
E ficou tudo azul como tinha de ser
Deixei a mão da poesia rabiscar um poema
Pra falar de amor
Ter você como tema
E agradecer em verso a prosa que eu ouvi
Em letra e melodia
Agradeço o dia em que te conheci
(Tereza Cristina)
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Feliz Aniversário
Vó, esse blog tá virando quase que um cantinho nosso, o meu cantinho de falar com você. E aí, hoje, que seria o seu aniversário, só pensei em um jeito de te mandar o meu abraço. Abraço apertado e rodado, com você rindo da minha força e dizendo pra eu te soltar, porque girar te deixa tonta. Pensei ainda em festa com bolo, brigadeiro e, se bobear, até chapeuzinho, porque você sempre foi a criança mais mais autêntica da casa. Vó, se você puder assoprar suas velinhas hoje, faça um pedido bem bonito ... sei lá, viajar com o vovô, dançar com ele agarradinho, rever a bisa e todas as suas irmãs ... Puxa, vó, se você visse as perninhas do Rafa, tão gordinho, sorridente na sua banguelice, tenho certeza de que você diria, no seu portunhol, algo como "olha que pachorra". Já da Gabi, você diria "essa tiene correa!". Ai, que saudade, minha avozinha tão linda, meu chuchu, meu amor tão querido ... A gente vai se falando, vó ... Ano que vem, nessa data, se tudo der certo, eu vou olhar para o meu neném e dizer: "Hoje é aniversário da vovó que tá lá no céu".
Parabéns, vó! Tomara que tenha bolo de laranja e café com leite por aí.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Indignação
Essas eleições estão me deixando tão de bode, que já tô contando os minutos pra chegar o dia três de outubro. E nem tem nada a ver com os Tiriricas da vida, não. Quer dizer, tem também, mas este nem é o motivo principal. O fato é que nesses tempos de redes sociais, mesmo que você não queira, não há como fugir: as opiniões se escancaram e, com elas, julgamentos de valor, ranços, pedantismo, arrogância e, principalmente, preconceitos. Contatos afirmando não conhecer ninguém com nível superior que seja eleitor de Dilma Rousseff e, ao mesmo tempo, que o Nordeste em peso, devido à sua falta de cultura e educação, irá votar nesta candidata. Há até aqueles que extrapolam todos os limites e fazem "piadas", dizendo que nordestino não vota no Serra porque este prometeu dar emprego para todo mundo. Alguém riu, aí? Que pena! Muito triste fazer anedota com um dos mais graves problemas sociais do nosso País; problema, aliás, que graças a um nordestino que enfrentou a falta de oportunidades e migrou quilômetros em um pau-de-arara, começou a ser tratado com respeito, recursos e, mais do que isso, com carinho. Este post não é pra ser, de forma alguma, apartidário. Afinal, não tenho por que esconder minha preferência política, sendo que a defendo sem ofender ninguém, ao contrário do que tenho visto por aí. Agora, o que mais me espanta é que estas pérolas apodrecidas saiam de bocas inesperadas, antes insuspeitas para mim. Gente bem nutrida e com diploma, que desconhece os eleitores de Dilma porque só os procura entre os seus pares. Aviso a esses incautos: vocês não terão de esperar mais muito tempo para encontrar universitários entre os eleitores dela (ou de seus sucessores). Graças ao governo de um presidente não diplomado, milhares de brasileiros pobres já estão tendo a oportunidade de chegar ao terceiro grau. Por enquanto, se quiserem saber onde mais facilmente estão os eleitores de Dilma, basta olhar para os lados: são os porteiros, zeladores, diaristas, frentistas, ... Vale até bater um papo com o moço simpático do bar; sabe aquele que sempre serve o seu cafezinho com a maior alegria?! Sei que o dia três vai chegar, mas com ele, infelizmente, não irá o preconceito vergonhoso de eleitores (não consegui usar a palavra "cidadãos") que se baseiam menos em propostas e mais em status. Ah, sim, se for por falta de diploma universitário, eu tenho três. Pena que os piadistas de plantão não tenham nível superior em respeito ao próximo.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Do tempo da minha avó
Tenho pensado muito na minha avó e acho que o nome disso é mesmo saudade. E daí que hoje cedo vi uma reportagem na TV, com uma senhorinha linda, que vive numa vila isolada, no sertão de Pernambuco, de onde não sai e de onde conserva as melhores recordações da sua vida. Aí, de repente, ouço aquela canção que a Maria Gadú fez para a avó dela, que diz mais ou menos assim: "de todo o amor que tenho, metade foi tu quem me deu, salvando minh'alma da vida, sorrindo e fazendo o meu eu ...". Fiquei matutando que as avós são esses seres cheios de histórias pra contar, de um mundo que já não existe mais, de uma ternura quase inconcebível nas nossas vidas metropolitanas. A minha avó, essa de quem eu tenho tanta saudade, me contava dos bailes de carnaval do interior, das farras no caminho do sítio para a escola primária, dos namoros que demoravam dez anos pra acontecer, das bonecas feitas de sabugo de milho, do arroz com galinha fumegando no fogão à lenha ... E a grande maravilha disso é que, enquanto ela rememorava, ela me dava um pouco disso, me permitia viver esses cheiros e cores que ela tinha tão vivos na memória. E então, me peguei pensando quais histórias eu e as mulheres da minha geração teremos para contar para os nossos netos. Vamos falar das festas meio bacanais da faculdade, do quanto foi difícil afirmarmo-nos no mercado de trabalho, dos namoros que aconteceram e duraram apenas um dia, das nossas bebedeiras infindáveis pelas baladas da vida, do quanto fizemos para sermos as fodonas e não mulheres submissas como as nossas avós? Ok, são histórias. Mas cadê a poesia disso? Onde estão os gostos, os cheiros, os passarinhos? Que tipo de avós seremos? Eu, que ainda nem mãe sou, tô aqui toda saudosista ... Será que estamos caminhando pra um tempo em que a ternura das avós só será encontrável num sorriso desbotado, estampado num retrato amarelado, tirado lá em vila Longe?
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Lembrança
Eu queria fazer um poema bonito pra dizer uma coisa tão grande. Mas acho que essa coisa grande só cabe numa coisa simples. Porque hoje eu me lembrei das suas mãos e, num instante, fui tomada pelo seu cheiro. Então, essa coisa simples e grande, que tá aqui no meu peito, vai sair assim, sem nenhum rebuscamento: Vó, que saudade de você. Eu te amo tanto.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
XIV
Dandara
Eu só acreditava em Drummond:
o amor chega tarde
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso
esse que se sabe proibido
o amor que já se sabe perdido desde o início
Eu não acreditava no impossível
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas
não conhecia o esplendor da queda
nem a violência dos abismos
Iracema Macedo
Eu só acreditava em Drummond:
o amor chega tarde
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso
esse que se sabe proibido
o amor que já se sabe perdido desde o início
Eu não acreditava no impossível
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas
não conhecia o esplendor da queda
nem a violência dos abismos
Iracema Macedo
XIII
6 de Maio
estávamos felizes em pleno domingo
a certeza próxima do outro
comida no fogo roupa
já passada
casa nem tão limpa
sapatos num canto
projetos alinhavados
a notícia chegou pelo telefone
apagou o fogo
separou nossos sapatos
notícia maior que a vida
Helena Ortiz
estávamos felizes em pleno domingo
a certeza próxima do outro
comida no fogo roupa
já passada
casa nem tão limpa
sapatos num canto
projetos alinhavados
a notícia chegou pelo telefone
apagou o fogo
separou nossos sapatos
notícia maior que a vida
Helena Ortiz
XII
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
Ferreira Gullar
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta.
Ferreira Gullar
XI
Tenho uma folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:
Ana Cristina Cesar
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite
tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:
Ana Cristina Cesar
X
Pacto
Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.
Maria Esther Maciel
Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.
Maria Esther Maciel
IX
Da dor
A dor é algo como se não fosse.
Derrapagem à beira do abismo
(aquele como se não estivesse).
Holofote sobre escura porção de sombras.
Eco à revelia do próprio eu
re-ver-be-ra-ção
por sobre o dia.
Fissura aberta minando,
ora esquecida ora sempre,
em alguma parte do corpo
como se fosse o todo.
Dasdô?
Na infância era uma prima
e seus olhos encovados.
Ana Cecília de Sousa Bastos
A dor é algo como se não fosse.
Derrapagem à beira do abismo
(aquele como se não estivesse).
Holofote sobre escura porção de sombras.
Eco à revelia do próprio eu
re-ver-be-ra-ção
por sobre o dia.
Fissura aberta minando,
ora esquecida ora sempre,
em alguma parte do corpo
como se fosse o todo.
Dasdô?
Na infância era uma prima
e seus olhos encovados.
Ana Cecília de Sousa Bastos
VIII
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mario Quintana
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mario Quintana
VII
À Flor da Pele
Acende o cigarro, rapariga. E olha para a
rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.
João Camilo
Acende o cigarro, rapariga. E olha para a
rua onde passam transeuntes desconhecidos.
A tarde vai avançando e nós morrendo nela
ou morrendo nela as nossas esperanças,
a ilusão de eternidade. A beleza o que é?
Braços nus, o ventre liso nu, os cabelos caídos
nos ombros. A desconhecida concentra em si
a atenção do homem desocupado. Para
distrair-se, ele olha para ela e recorda-se
da história antiga do amor, reconstrói
ficções que sabe serem apenas ficções. Assim
passa o tempo, depois irá para casa. Quem
sabe o segredo mais secreto da existência
de cada um? Todos nós temos uma
história. Uns calam-na, outros murmuram
entre dentes os episódios essenciais, outros
encontram palavras com que construir o
poema hermético. Que diferença é que faz?
De tudo se constrói a existência, se alimenta
o sentido. Camisa branca à flor da pele, a
rapariga levantou-se e foi lá dentro do café
comprar qualquer coisa. Palavras, deixai-me
celebrar o vão movimento dos ponteiros do
relógio, os episódios vãos, a nossa morte.
João Camilo
VI
Terceira Elegia (trecho)
Estive sempre de pé no ônibus, espremido entre o ferro
da cadeira e o rumor dos passageiros.
Educado a ser o último, cedi o lugar a gestantes e idosos.
Estive sempre de pé no ônibus, me defendendo
ao largo do corrimão de tantos rumos,
alianças e ponteiros com paradas diferentes.
E o brado irritante do cobrador ainda a exigir
um passo à frente.
O fato de não ter sido é mais trabalhoso
do que a fama. Prossegui a me imaginar,
sondando o que poderia ter vivido.
Disperso, anônimo, no comício do mar
e nas trevas.
Diminuindo o risco, reduzimos a possibilidade
de nos libertar. O medo, o medo, o medo
é o que nos faz escolher.
Descobre-se um amor
na iminência de perdê-lo.
Fabrício Carpinejar
Estive sempre de pé no ônibus, espremido entre o ferro
da cadeira e o rumor dos passageiros.
Educado a ser o último, cedi o lugar a gestantes e idosos.
Estive sempre de pé no ônibus, me defendendo
ao largo do corrimão de tantos rumos,
alianças e ponteiros com paradas diferentes.
E o brado irritante do cobrador ainda a exigir
um passo à frente.
O fato de não ter sido é mais trabalhoso
do que a fama. Prossegui a me imaginar,
sondando o que poderia ter vivido.
Disperso, anônimo, no comício do mar
e nas trevas.
Diminuindo o risco, reduzimos a possibilidade
de nos libertar. O medo, o medo, o medo
é o que nos faz escolher.
Descobre-se um amor
na iminência de perdê-lo.
Fabrício Carpinejar
V
Déjeuner du Matin
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec le petit cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a resposé la tasse
Sans me parler
Il a alumé
Une cigarrette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis des cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur la tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
E moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
E j'ai pleuré.
Jacques Prévert
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec le petit cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a resposé la tasse
Sans me parler
Il a alumé
Une cigarrette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis des cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur la tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
E moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
E j'ai pleuré.
Jacques Prévert
IV
Chanson D'automne
Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.
Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
Paul Verlaine
Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.
Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
Paul Verlaine
III
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hilst
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Hilda Hilst
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